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Diagnósticos pouco promissores estimulam a criação de terapias corporais

Cristina Almeida

Especial para o UOL Ciência e Saúde

07/01/2011 07h00

Nascido com catarata, astigmatismo e nistagmo (movimentos involuntários dos olhos), o ucraniano Meir Schneider foi declarado cego ao 7 anos de idade. Na juventude, recusou-se a aceitar sua condição, aprendeu técnicas de relaxamento e estimulação visual.  Tais exercícios, aliados a movimentos terapêuticos,  ioga  (respiração) e automassagem, devolveram-lhe a visão funcional no prazo de dezoito meses.

A partir da observação de si mesmo, Schneider idealizou uma prática, o Self Healing (Autocura), que evoluiu e passou a ser utilizada não só como terapia auxiliar, mas também na prevenção de doenças como esclerose múltipla, problemas na coluna e visão, atrofia e distrofia musculares, osteoporose, artrose, além de lesões relacionadas ao trabalho.

Assim como o Self Healing, terapias corporais como a eutonia e a técnica de Alexander nasceram da vontade de superar os próprios limites, após diagnósticos pouco promissores. Ou do inconformismo com a falta de solução para síndromes dolorosas, como foi o caso do rolfing. Todas elas partem do princípio que restabelecer a saúde só é possível por meio da força saneadora natural que todo corpo possui.

Embora um estudo realizado pelo Osher Center for Integrative Medicine, da Universidade da Califórnia (EUA), sob a direção do médico Wolf E. Mehling, tenha considerado insuficientes os resultados das pesquisas sobre essas terapias, elas têm atraído adeptos de todas as idades. Praticamente sem contraindicações, são consideradas úteis nos tratamentos de  problemas músculo-esqueléticos, entre outras patologias físicas e psicológicas.

 

O médico cuida, a natureza cura

A fisioterapeuta Jucilene Rosana Costa, coordenadora do Centro do Respirador Bucal da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que todas essas técnicas trazem harmonia e equilíbrio generalizados (mente, corpo e espírito), e os pacientes passam a ter maior consciência corporal. “Os pacientes procuram ajuda porque sentem dor. Mas nem sempre o fazem por indicação médica. Por isso,  antes de submeterem-se a quaisquer dessas práticas é importante que haja avaliação especializada com respaldo médico”.

Plasticidade do cérebro

  • Moacyr Lopes Junior/Folhapress

    O cérebro possui um poder extraordinário para o aprendizado, a adaptação e o desenvolvimento. E esse processo pode se dar de forma inconsciente ou consciente, graças à neuroplasticidade, isto é, a capacidade de criar novos caminhos para a realização de tarefas prejudicadas pela perda dos sentidos ou de alguma habilidade motora ou cognitiva. O neurologista Oliver Sacks, autor do livro "O olhar da mente" (Ed. Cia. das Letras), afirma que já viu vários pacientes com AVC, Parkinson, e até demência aprendendo coisas de um novo jeito. Em um artigo publicado em dezembro de 2010, no jornal americano The New York Times, ele declarou: “Algumas áreas do cérebro, se não estimuladas, atrofiarão e morrerão. (Use-o ou perca-o, dizem os neurologistas). Mas as áreas envolvidas com a visão, mesmo em alguém nascido cego, não desaparecerá totalmente; ao contrário, será transferida para outros sentidos. Sempre ouvimos falar que cegos possuem audição aguçada, mas outros sentidos podem sofrer o mesmo efeito”.

Costa diz que, no consultório, é comum mesclar exercícios de cada uma dessas práticas, sempre atendendo ao binômio necessidade/adaptação do paciente. “As técnicas são eficazes, e só não são mais utilizadas como terapias complementares porque a maioria dos médicos desconhece seus benefícios”, completa.

O neurologista Acary Souza Bulle Oliveira, responsável pelo Setor de Doenças Neuromusculares da Unifesp, concorda e explica que isso acontece porque a formação do médico dá mais ênfase à doença do que à saúde. O especialista conta que, após anos de prática, e diante de doenças crônicas incuráveis, passou a entender que a doença é a menor parte do problema. “Concentrar-se no paciente e nas formas possíveis de lhe garantir qualidade de vida passou a ser a prioridade”, diz.

“Foi aí que um fisioterapeuta passou a compor nossa equipe. E foi ele quem trouxe a possibilidade de conhecer novas formas de reabilitação”, conta o neurologista. “Não posso afirmar que uma dessas técnicas é melhor do que a outra, pois elas devem se adaptar às necessidades e gosto pessoais de cada paciente”, fala. Porém, acrescenta Bulle, as práticas corporais são uma oportunidade do paciente entender que ele também é responsável por sua saúde, pois elas permitem maior conscientização do próprio corpo.

“Imagine como funciona um corpo que se mantém com tensões musculares, físicas e emocionais. A artrose continuará lá, mas a pessoa se tornará outra”, sugere o neurologista. Ele acredita que o mais importante é que os médicos estejam disponíveis para aprender como podem oferecer ao doente uma alternativa para viver melhor. “E isso nem sempre pode ser escrito num receituário”, conclui.