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Cientista chinês justifica manipulação genética e diz que há outra gravidez

Cientista chinês He Jiankui participa de evento sobre edição genética em Hong Kong - Kin Cheung/AP
Cientista chinês He Jiankui participa de evento sobre edição genética em Hong Kong Imagem: Kin Cheung/AP

Em Hong Kong

28/11/2018 09h52

O cientista chinês He Jiankui justificou nesta quarta-feira a "validade" de seu experimento, no qual afirma ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados do mundo sem nenhum tipo de apoio institucional, e anunciou que há outra mulher grávida de um embrião cujos genes também foram modificados.

He anunciou na segunda-feira que tinha utilizado a técnica CRISPR/Cas9 em duas gêmeas para torná-las resistentes ao vírus HIV, uma revelação que gerou controvérsias e dúvidas tanto da opinião pública como da comunidade científica dentro e fora da China.

O cientista tinha programado com antecedência participar de um simpósio sobre a Edição do Genoma Humano na Universidade de Hong Kong, o que suscitou hoje grande expectativa acadêmica e midiática no recinto universitário onde acontecia a conferência.

"O estudo deu resultados efetivos e foi entregue para sua revisão" à comunidade científica, afirmou He.

O geneticista - que reconheceu que seu experimento não estava aprovado por nenhuma instituição oficial - garantiu que as gêmeas supostamente editadas geneticamente, Lulu e Nana, "nasceram saudáveis e felizes", graças à fertilização in vitro com tecnologia de modificação genética "que evitará que elas sejam infectadas com o HIV".

No entanto, o cientista anunciou em seguida que vai fazer uma pausa em seus testes clínicos "devido às controvérsias" que os mesmos suscitaram.

"Todo o rebuliço se deve aos vazamentos de notícias sobre meu estudo", afirmou He, que, segundo ele, "chegaram antes do previsto", enquanto o moderador da conferência, Robin Lovell-Badge, confirmou que os organizadores não sabiam nada sobre o experimento.

O cientista se disse "orgulhoso" pelo uso da técnica de edição genética CRISPR/Cas9 e reiterou que o estudo não tinha o objetivo de eliminar doenças genéticas, mas de "dar às meninas a habilidade natural" para resistir a uma possível infecção futura do HIV.

"Apesar dos progressos conseguidos nos tratamentos com o HIV, as novas infecções continuam sendo um problema para muitos países, especialmente nos menos desenvolvidos", acrescentou o especialista.

He relatou que fez o experimento com sete casais, nos quais um de seus membros está infectado com o HIV, e anunciou que há pelo menos mais uma gravidez entre eles "em sua fase inicial" e outras mais "possíveis".

"Trabalhamos com sete casais nas quais o homem é portador do vírus da Aids e a mulher não", afirmou o geneticista, que também especificou que utilizou até 11 embriões em seis tentativas de implantação.

De forma bastante vaga, He contou que ele mesmo financiou o experimento, que "não foi feito em segredo" e que divulgou informações sobre o mesmo a cientistas de China, Estados Unidos e Reino Unido, mas não citou nenhum nome.

"Há gente que precisa de ajuda e nós temos a tecnologia", opinou o geneticista, que acrescentou que os pais foram informados dos riscos inerentes ao experimento e que deram seu consentimento ao mesmo.

He também agradeceu à Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da cidade de Shenzhen com a qual ele trabalhou, "apesar que eles não sabiam" o que ele estava fazendo.

Na segunda-feira, essa mesma universidade anunciou que vai investigar o cientista e afirmou que está "profundamente comovida com o caso", que qualificou como "uma grave violação de ética e dos padrões acadêmicos".

As autoridades chinesas, por sua vez, anunciaram hoje que estão "muito preocupadas" com o caso, que vão abordá-lo "seriamente" assim que o ocorrido for esclarecido.

O vice-ministro de Ciência e Tecnologia da China, Xu Nanping, lembrou aos veículos de imprensa que a China limita a pesquisa in vitro de células-tronco embrionárias humanas a um máximo de 14 dias, segundo diretrizes éticas estabelecidas em 2003.

Mais de 120 acadêmicos da comunidade científica chinesa assinalaram na segunda-feira em uma declaração publicada na plataforma Sina Weibo, o equivalente chinês do Twitter, que "qualquer tentativa" de fazer mudanças em embriões humanos mediante modificações genéticas é "uma loucura" e que dar à luz a estes bebês traz "um alto risco".

Em nível global, a revista "Nature" se juntou na segunda-feira ao debate e opinou que o anúncio provocou "indignação" entre a comunidade científica internacional e que, se for confirmado, "representaria um salto significativo no uso da modificação do genoma humano".

A "Nature" assinalou que essas ferramentas só tinham sido utilizadas até agora para estudar seus benefícios na eliminação de mutações causadoras de doenças, e acrescentou que a comunidade científica "esteve pedindo há muito tempo" a criação de diretrizes éticas, muito antes do surgimento de um caso como este.

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