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Como a agricultura no Neolítico ajudou no surgimento das consoantes 'f' e 'v'

15/03/2019 10h19

Washington, 15 Mar 2019 (AFP) - Uma equipe de pesquisadores afirma em um estudo publicado na revista Science que o desenvolvimento da agricultura e dos alimentos moles no período do Neolítico fez a mandíbula humana evoluir e permitiu o surgimento das consoantes "f" e "v".

Seu trabalho, que combina linguística, ciência da linguagem e paleoantropologia, reforça a ideia de que a linguagem não é um simples produto aleatório da história, mas está relacionada às mudanças biológicas do Neolítico (6.000 a 2.100 anos antes de nossa era), à época da invenção da agricultura (trigo e cevada) e à domesticação de animais (cabra, ovelha, vaca).

"A linguagem não é tradicionalmente estudada como um fenômeno biológico", afirmou o professor Balthasar Bickel, da Universidade de Zurique.

"É um pouco estranho, porque a linguagem é parte de nossa natureza, como os sistemas de comunicação de outros animais", acrescentou.

Antes do período neolítico, o Homo Sapiens usava seus dentes rapidamente para mastigar os produtos de sua caça.

Enquanto os incisivos superiores das crianças cobriam os inferiores, nos adultos, o uso acaba por desgastar os dentes da frente, o que fica evidenciado nos crânios pré-históricos.

Se a pessoa empurra sua mandíbula inferior para frente até que seus dentes superiores e inferiores se toquem, pronunciar as letras "f" e "v" se torna muito difícil.

Elas são consoantes lábio-dentais que requerem a ação combinada do lábio inferior e dos dentes superiores.

- Natureza e cultura -A partir do Neolítico, os humanos aprenderam técnicas para transformar alimentos como, por exemplo, cozinhando.

"Eles tinham muitos tipos de sêmolas, mingaus, ensopados e sopas, mas também laticínios como leite, queijo e iogurte, que só eram possíveis com o processamento de alimentos", afirma Steven Moran, outro pesquisador.

"O desenvolvimento da cerâmica para preservar alimentos também foi muito importante para o início da agricultura", acrescenta.

O desgaste dentário diminuiu mecanicamente, e os incisivos superiores mantiveram a posição adolescente: por cima dos dentes inferiores, como nos humanos de hoje.

Os pesquisadores dizem que trabalharam durante cinco anos nesse estudo. Primeiramente, confirmaram que as populações com uma longa tradição de processamento de alimentos possuíam mais consoantes dentais em seus idiomas, que se articulam com a língua contra os dentes superiores.

Depois, mediante modelos que simulam a pronúncia dos sons, constataram que a mudança dos dentes no Neolítico tornou mais provável a produção acidental do "f" e do "v".

Por fim, estudaram a história das línguas indo-europeias e concluíram que era "muito provável que as consoantes dentais tenham aparecido um pouco antes da Idade do Bronze, junto com o desenvolvimento de técnicas para transformação de alimentos", explicou Damian Blasi, outro autor do estudo. A Idade do Bronze se seguiu ao Neolítico.

"Espero que nosso estudo gere um debate sobre o fato de que ao menos alguns - e repito, alguns - aspectos da linguagem e da fala devam ser tratados como outros comportamentos humanos complexos que se situam entre a biologia e a cultura", concluiu.

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