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Cientistas japoneses decifram parcialmente conteúdo dos sonhos

Em Tóquio

05/04/2013 07h24

Uma equipe de cientistas japoneses anunciou ter conseguido decifrar parcialmente o conteúdo dos sonhos, uma experiência intrigante que consideram útil para a análise do estado psíquico, para a compreensão das doenças psicológicas e até mesmo para o controle de máquinas com o pensamento.

"Há muito tempo os humanos se interessam pelos sonhos e seus significados, mas, até agora, apenas a pessoa que sonha conhece o conteúdo de seu sonho", explica nota dos cientistas do laboratório de Yukiyasu Kamitani, do Instituto Internacional de Pesquisas de Telecomunicações Avançadas (ATR) de Kyoto.

Para avançar na compreensão científica dos sonhos, o grupo criou um dispositivo para decodificar as imagens que uma pessoa observa durante a fase onírica.

Para isto, registraram repetidamente a atividade cerebral de três pessoas durante a fase de sonho. Quando aparecia no monitor de análises um sinal correspondente a uma fase de sonho, os cientistas despertavam os voluntários e perguntavam que imagens haviam acabado de ver. A operação foi repetida mais de 200 vezes por pessoa.

Este exercício permitiu criar uma tabela de correspondências entre a atividade cerebral e os objetos ou os temas de diversas categorias (alimentos, livros, personalidades, móveis, veículos, etc.) observados nos sonhos: uma espécie de léxico que associa um sinal cerebral a uma imagem.

Uma vez que esta base de dados foi criada, a exploração da atividade cerebral por meio de ressonância magnética permitiu saber quais imagens as pessoas viam durante os sonhos, graças ao registro dos mesmos sinais característicos. Em 60 a 70% dos casos, a predição foi exata, mas ainda é considerada básica.

"No estado atual da pesquisa, observamos apenas categorias básicas e não é seguro que possamos compreender as diferentes formas e as cores que aparecem", afirmou a equipe. "Apesar disso, nossos resultados demonstram que a experiência visual durante o sonho é representada por padrões específicos de atividade cerebral, o que permite decifrar o conteúdo dos sonhos através de medidas neurológicas", completou o professor Kamitani.

Os cientistas imaginam, inclusive, fabricar um dia uma máquina que permita gravar os sonhos para depois reconstituí-los em imagens. "Por exemplo, se um dia você tem um sonho incrível, seria bom poder mostrá-lo a mais alguém", fantasia Yoshiyuki Onuki, uma das 'cobaias' da pesquisa.

Os trabalhos poderiam, ainda, contribuir para os estudos sobre o controle das máquinas com o pensamento, um tema de pesquisa importante no Japão.

"Neste tipo de estudo, o princípio é sempre o mesmo: a tentativa de classificar padrões cerebrais para transcrevê-los em instruções", explica Abderrahman Kheddar, diretor de um laboratório franco-japonês de robótica no Japão. "A dificuldade é conseguir extrair o sinal cerebral e diferenciá-lo para interpretá-lo corretamente."

"Mas os sonhos são um caso particularmente complexo porque, em geral, não sonhamos apenas com objetos ou pessoas, mas com situações", completa ele. "O que é seguro é que a decodificação onírica é um dos sonhos dos psicólogos... e dos policiais", afirma Kheddar com um sorriso.

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