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'Que o mundo deixe os índios viverem em paz', pede cacique Raoni na Rio+20

Madeleine Pradel

No Rio de Janeiro

14/06/2012 16h41

O cacique caiapó Raoni, conhecido mundialmente por sua luta em defesa da Amazônia, pediu nesta quinta-feira, na conferência Rio+20, que o planeta deixe os índios em paz, "sem represas" como a da usina Belo Monte, em construção no coração da maior floresta do mundo.

"Quero pedir que o mundo respeite o povo indígena, que nos deixem viver em paz, sem represas", pediu Raoni, 82, entrevistado pela AFP com a ajuda de um tradutor, paralelamente à conferência da ONU Rio+20, sobre desenvolvimento sustentável.

O Brasil está construindo hidrelétricas em várias partes da Amazônia. Belo Monte, sobre o rio Xingu, avaliada em cerca de 13 bilhões de dólares, é a maior obra de infraestrutura em andamento no país.

O impacto sobre os mais de 2 mil índios da região do Xingu é uma das grandes questões geradas pela represa, que terá 11.233 MW de potência (cerca de 11% da capacidade instalada do país) e inundará 502 km2, praticamente duplicando o espaço ocupado agora pelo rio.

Belo Monte não alagará nenhuma terra indígena, mas as comunidades que vivem nas redondezas poderão sofrer com a perda de água no rio que garante a pesca e seu sustento.

"Nesta reunião de cúpula, vou pedir que sejam respeitados os direitos daqueles que vivem perto da represa, para que continue havendo pesca no rio, para que meus filhos e netos possam pescar e comer. Os que vivem às margens do rio sobrevivem da pesca", assinalou o cacique, que viu pela primeira vez um homem branco quando tinha mais de 20 anos.

"Pedirei novamente, aqui, que o governo não construa essa represa. Continuarei defendendo a natureza, que se respeite a floresta, porque meus avós, meus parentes, viveram aqui primeiro", disse Raoni, nascido no estado de Mato Grosso, até onde se estende o Xingu, afluente do Amazonas.

Cerca de 1,6 mil índios brasileiros e estrangeiros estão no Rio de Janeiro para participar da Reunião de Cúpula dos Povos, alternativa à reunião oficial da ONU. Eles montaram uma aldeia tradicional batizada de Kari Oca.

Desde ontem, início das negociações para definir um acordo final da Rio+20, os índios acendem, a cada entardecer, o fogo sagrado, para pedir aos deuses a proteção de seus povos e territórios. Nesta quinta-feira, eles começaram a celebrar os Jogos Verdes Indígenas, uma competição esportiva tradicional.

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