A Lua é pop (de novo)

Por que a Lua voltou a ser objeto de desejo e tem novos países querendo dar um pulinho lá?

Gabriel Francisco Ribeiro De Tilt, em São Paulo
Marcel Lisboa/UOL

Em julho, comemoramos 50 anos da primeira vez que o homem pisou a Lua, com os pés do ilustre Neil Armstrong. A última vez que um humano deu um rolê lá foi em dezembro de 1972, com os passos do "desconhecido" Harrison Schmitt. Nas últimas cinco décadas, a tecnologia se desenvolveu a uma taxa exponencial. Mas, ainda assim, continuamos sem voltar.

O fato de não termos colocado mais uma pessoa no nosso adorado satélite é algo usado por conspiracionistas, inclusive, para tentar defender que nunca fomos lá - apesar das várias provas. Agora, no entanto, diversos países - dos Estados Unidos à Índia - começam a colocar novamente a Lua como um objeto de desejo humano. Por quê?

As razões são inúmeras e você começará a entender abaixo por que a Lua está pop de novo - se é que algum dia deixou de ser.

Homem na Lua foi demonstração de poder, não ciência

Para começar essa conversa, é preciso entender o contexto da nossa primeira ida para a Lua. Na época, estava rolando a Guerra Fria, com Estados Unidos e União Soviética brigando pela supremacia ideológica e tecnológica. Até então, os EUA tomavam um vareio da URSS, que saiu na frente com a Sputnik em 1957 e com o primeiro humano no Espaço em 1961.

Foi quando os Estados Unidos deram início a um plano audacioso para recuperar a desvantagem: colocar um ser humano na Lua. Bilhões de dólares foram investidos em um esforço absurdo para em poucos anos isso virar realidade. Dada a tecnologia da época, alguns comparam o feito a viajar em uma canoa do Brasil até a Europa. Mas precisava botar um homem na Lua? Não necessariamente.

Não havia a necessidade de colocar o homem lá. A URSS obteve até mais informações da Lua do que os americanos sem colocar homem, só máquinas. O que levou o homem para a Lua foi a Guerra Fria

Renato Las Casas, coordenador do grupo de astronomia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

A motivação era política. Depois que os americanos ganharam a corrida, perderam o interesse. Era caro e perigoso, para o Congresso liberar o dinheiro precisa de motivação política

Rosaly Lopes, pesquisadora-sênior do JPL (Laboratório de Propulsão a Jato) da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana)

Sim, nós voltamos à Lua, mas era melhor mandar robôs

"Ah, mas o homem foi só uma vez para lá e não voltou mais, como é possível isso?".

Mentira. Os Estados Unidos voltaram algumas vezes para a Lua - no total, 12 norte-americanos pisaram no solo do nosso satélite, com as últimas missões obtendo pouca atenção. Mas, de fato, a última vez que um humano pisou lá foi em 1972. Por que então não quisemos mais ir à Lua?

"A área de naves e robótica se desenvolveu muito e é muito mais barato mandar naves robóticas do que seres humanos, embora o humano possa fazer mais em certo tempo do que os robôs. Você colocando um geólogo na Lua ou Marte, só olhando a paisagem ele vê o que é importante, tem uma percepção diferente do robô mandando uma imagem", afirma Rosaly Lopes, pesquisadora-sênior do JPL (Laboratório de Propulsão a Jato) da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana).

Astrônomos apontam que, com o dinheiro que seria investido para a viagem de um ser humano para a Lua, foi possível fazer inúmeras missões de sondas e outros robôs para o Espaço - seja para a Lua ou outros planetas do nosso Sistema Solar. Partindo desse ponto, fica mais fácil entender a decisão.

O programa Apollo já tinha conseguido o que queria. Os soviéticos miraram outros objetivos como as estações espaciais e os americanos correram atrás. Em 75 acabou a corrida espacial, com um programa em conjunto, e, com isso, não havia mais interesse politico e militar para ir à Lua. O dinheiro que se gastaria numa missão Apollo, que era cara para caramba, bancou várias sondas para vários planetas. Eram programas muito mais baratos e com menos glamour

Naelton Araújo, astrônomo da Fundação Planetário do Rio de Janeiro

Partiu Lua: após mais de 40 anos, nova corrida espacial é com a China

Estados Unidos, China, Japão, Israel, Índia... o que esses países têm em comum? Simples: todos eles já anunciaram nos últimos tempos missões envolvendo a Lua - seja tripulada ou não. Pois é, a Lua voltou a ser 'pop' 50 anos depois de chegarmos lá pela primeira vez. Para alguns, esse é o início até de uma nova corrida espacial.

"Quem puxou isso foi a China, que quer se tornar uma potência espacial. A China já é uma realidade tecnológica e a tecnologia espacial gera vantagens militares e espaciais. A China acelerou a vontade de outros países. Os Estados Unidos estavam muito confortáveis porque não tinham outro competidor. Agora a China está fazendo todo mundo correr atrás", avalia Artur Bertoldi, professor do curso de engenharia aeroespacial da UnB (Universidade de Brasília).

Recentemente, a China começou a rivalizar fortemente com os Estados Unidos em diversas frentes, entre elas na política, economia e tecnologia. O espaço é a fronteira seguinte que os chineses querem duelar em busca de supremacia.

Alguns dos países que já deixaram claro planos envolvendo a Lua

  • Estados Unidos

    A Nasa anunciou planos recentes que envolvem norte-americanos orbitando a Lua em 2023 e pousando no satélite até o fim da próxima década - a ideia inicial, contudo, é que isso ocorra em 2024. A agência ainda espera instalar uma plataforma na órbita da Lua para que astronautas fiquem por mais tempo no satélite. A intenção é que essa plataforma seja palco de testes para futuras missões na própria Lua e em Marte.

  • China

    A China se tornou o terceiro país a conseguir, com sucesso, pousar uma nave na Lua - e a primeira a colocar uma sonda no lado oculto do nosso satélite. Os planos, entretanto, não param por aí. O país trabalha para enviar astronautas para a Lua e, posteriormente, Marte, além de imaginar a exploração e a implantação de uma base em solo lunar. Assim como nos Estados Unidos, empresas privadas do país investem em pesquisa e tecnologia espacial.

  • Índia

    A Índia tem feito avanços incríveis na área espacial, que culminou no lançamento de uma missão para a Lua no fim de julho para tentar se tornar a quarta nação a pousar em território lunar, em uma manobra que deve levar 48 dias. Especialistas apontam que o país conseguiu superar as expectativas ao criar um programa espacial bem-sucedido (até aqui) e barato. A missão visa explorar o pólo sul da Lua e deve ser apenas o começo para o país.

  • Outros

    Israel, neste ano, tentou colocar um robô na Lua, mas falhou - o equipamento acabou se chocando contra a superfície do satélite. Outro país com planos para colocar robôs na Lua é o Japão, que tem um programa espacial avançado. Espera-se que o país faça lançamentos já a partir do início da próxima década. A atual corrida espacial conta até com nações pequenas envolvidas, como Nova Zelândia, Luxemburgo e Singapura.

Mais fácil, barato e seguro

O que surpreende na lista de países com intenções de fazer algo na Lua é o fim da dicotomia entre Estados Unidos e Rússia ou países europeus na exploração espacial. A entrada de nações como China, Índia, Japão e Israel é fruto de uma evolução tecnológica, que barateou os custos para nações organizarem missões espaciais.

"A eletrônica melhorou demais, assim como a parte de computação em geral. Diminuiu muito os custos e os computadores podem fazer coisas muito melhores. A tecnologia de foguetes já está mais madura, segura e difundida", opina José Eduardo Barros, professor do curso de engenharia aeroespacial da UFMG.

Atualmente, até nossos celulares têm uma capacidade de processamento que os computadores que comandaram a ida do homem para a Lua pela primeira vez nem sonhavam possuir - Buzz Aldrin, inclusive, teria dito que levou uma régua consigo como "backup" para o caso do computador parar de funcionar.

Outros avanços são representados pela miniaturização dos instrumentos - os aparelhos tecnológicos, processadores e afins estão cada vez menores, apesar de ganharem potência. Agora, também, conhecemos muito mais sobre os efeitos do Espaço no corpo humano, o que abre um novo universo, literalmente, de possibilidades.

A tecnologia chegou em um ponto no qual a Lua é um objetivo muito mais fácil de ser alcançado do que era antes

Mike Brown , astrônomo da Caltech e responsável principal pela reclassificação de Plutão

Satélite será pit-stop para Marte

O primeiro ponto da futura ida para a Lua é o nosso satélite servir apenas como um meio. Podemos imaginar que a Lua seria uma espécie de 'pit-stop' para uma futura viagem para Marte, objetivo principal de nações como os Estados Unidos. Esse é um dos motivos, inclusive, dos norte-americanos quererem voltar para o solo lunar nos próximo anos.

"A tecnologia chegou no ponto que justifica mandarmos o homem para a Lua. Nem tanto para conhecimento da Lua, mas já pensando em irmos mais distante, para Marte. Nosso grande objetivo é Marte, a Lua vai ser mais importante como um ponto de passagem do que qualquer coisa", aponta Las Casas.

A Nasa já enviou para o congresso norte-americano seu plano "Lua para Marte", que envolve tornar a ida a Lua como um meio para testes de tecnologia, sistemas e infraestruturas, já pensando em uma possível missão tripulada para Marte. E isso nos leva para outro ponto...

"Alô, base lunar chamando"

...uma base na Lua! O nosso satélite já é visto como o provável primeiro corpo celeste fora da Terra com humanos habitando por um período maior de tempo. A Nasa tem planos de construir uma plataforma em órbita - como a Estação Espacial Internacional -, mas a possibilidade de uma base em solo não está distante e é aventada, inclusive, pelos chineses.

"Abre-se a possibilidade de montar uma base como ponto de partida para naves. Poderiam ser lançadas naves em um local com uma gravidade que é um sexto da nossa, fica muito mais fácil lançar de lá", aponta Naelton Araújo, astrônomo da Fundação Planetário do Rio de Janeiro.

Essa futura base pode ser construída com o conhecimento obtido ao longo de anos sobre a permanência de humanos na Estação Espacial Internacional, apesar de ainda termos muito mais a saber sobre isso. Com uma base por lá, abre-se ainda uma nova oportunidade para os interessados na Lua: a econômica.

Oitavo continente: a exploração da Lua está na mira

Enquanto consumimos nossos recursos naturais na Terra, os olhos se voltam para fora do nosso planeta. A possibilidade de extrair recursos de corpos celestes já é algo cada vez mais real. E a Lua pinta como uma dessas primeiras oportunidades, com o seu uso industrial e a exploração dos recursos se tornando cada vez mais provável. Tanto que alguns já a chamam de "oitavo continente".

Há um problema para darmos início a uma mineração fora da Terra: os acordos feitos entre nações. Existem dois principais:

  • Um tratado de 1963 diz que "toda exploração espacial será feita com boas intenções e é igualmente aberta para todos os países que estejam de acordo com a lei internacional" - também proíbe uso militar do Espaço.
  • Outro tratado de 1979 (que não foi assinado pela maioria dos países) existe pra promover a exploração do espaço, mas também para manter a Lua e outros corpos celestes em condições primitivas para serem uma herança comum da humanidade. Ele diz que nenhuma nação pode reivindicar soberania ou propriedade sobre qualquer parte ou recursos naturais do espaço e todos os países têm direitos iguais para realizar pesquisas sobre a Lua e outros corpos celestes.

Segundo especialistas ouvidos por Tilt, isso está cada vez mais perto de terminar - inclusive, os Estados Unidos aprovaram em 2015 uma controversa lei que liberou cidadãos do país a ?possuir, transportar, usar ou vender? recursos espaciais.

"Estive na ONU (Organização das Nações Unidas) em Viena em junho e todos os países do comitê já manifestaram a intenção de que se regule e se normatize a exploração espacial. Isso já é um sinal de que eles entendem que é possível a exploração", analisa Paulo Roberto Batista, vice-presidente da SBDA (Sociedade Brasileira do Direito Aeroespacial) e membro da delegação brasileira no Copuos (Comitê do Uso Pacífico do Espaço Exterior).

Fala-se, por exemplo, que a China, Índia e europeus avaliam minerar o hélio-3, que poderia servir como um futuro combustível. A substância é rara na Terra e abundante em algumas camadas da Lua. Ainda existem outros componentes: o regolito, por exemplo, poderia ser usado para construir infraestruturas na Lua, e água também pode ser obtida no nosso satélite. Quem explorar pode pagar royalties para todos os demais países.

Embora a Lua seja patrimônio da humanidade, acredito que os países vão fazer exploração e pagar um "pedágio", um percentual para a ONU aplicar em países em desenvolvimento. Não acredito que nenhum país ou a ONU impeça.

Paulo Roberto Batista, vice-presidente da SBDA (Sociedade Brasileira do Direito Aeroespacial) e membro da delegação brasileira Copuos (Comitê do Uso Pacífico do Espaço Exterior)

Ainda tem mais a se fazer na Lua

  • Pesquisa

    Os cientistas ainda não esgotaram o leque de pesquisas na Lua. Há muito para descobrir sobre o Sistema Solar, a origem do nosso planeta e a própria composição lunar. "Precisamos entender muito sobre a formação do Sistema Solar, da Lua. Precisamos entender se tem gelo ou água na Lua e onde está. Não sabemos o que tem embaixo da superfície, se podemos explorar cavernas e usar como habitação humana para proteger da radiação do Sol", diz Rosaly Lopes.

  • Turismo

    Já imaginou pegar uma nave aqui na Terra, partir para o Espaço, dar uma voltinha pela Lua, observar a Terra (redonda, claro) e voltar para sua casa depois? O turismo espacial é outra fronteira que empresas e países por aí querem aproveitar na Lua nos próximos anos. A princípio, as viagens imaginadas por companhias como SpaceX e Space Adventures teriam a duração de uma semana, passando por cenários como a primeira alunissagem e o lado oculto lunar.

Não são só países: empresas também têm interesse na Lua

Diferentemente da corrida espacial que nos acostumamos a ver, a nova relação humanidade-Lua conta com um novo componente: o interesse cada vez maior de empresas privadas pela exploração espacial. Se no passado as companhias eram limitadas a ajudar em programas espaciais governamentais como empresas contratadas, agora contam com seus próprios projetos. E isso leva a um novo debate: até onde elas estariam autorizadas a ir?

"A responsabilidade você não transfere, só transfere atribuições. Todos os Estados são responsáveis por lançamentos. O país que lançar um objeto é responsável, seja feito por empresa privada ou pública. Cabe ao Estado normatizar. Se explodir, cair em outro país, explorar alguma coisa, quem responde é o país do lançamento", explica Batista.

Com as empresas privadas, nações como os Estados Unidos passaram a economizar bilhões em dinheiro público de seus programas espaciais e ao mesmo tempo viram companhias terem grandes avanços tecnológicos. Mas isso vem com ressalvas: toda empresa privada visa o lucro e uma hora pode cobrar a conta espacial.

O que as empresas já fizeram e querem fazer no Espaço

  • SpaceX

    Tem planos ambiciosos liderados pelo bilionário Elon Musk. Já realizou inúmeros lançamentos de satélites e de equipamentos para a Estação Espacial Internacional. Um de seus grandes feitos envolve a recuperação de parte dos foguetes utilizados nas missões, o que pode baratear no futuro programas espaciais. Entre os planos de Musk, está construir um sistema de transporte interplanetário e tornar o turismo na Lua algo real.

  • Blue Origin

    A companhia fundada pelo dono da Amazon Jeff Bezos vê o Espaço como um jeito de beneficiar a Terra. A empresa trabalha juntamente com a Nasa para colocar uma pessoas na Lua até 2024, mas vê o Espaço também como uma área para pessoas viverem e trabalharem no futuro. Para isso, espera fazer um uso comercial do Espaço e utilizar recursos fora da Terra para construir infraestrutura, além de contar com foguetes reutilizáveis.

  • Moon Express

    A empresa tem o objetivo expresso de explorar recursos da Lua, chamada por eles de "oitavo continente". A companhia tem sondas robóticas modulares e escalonáveis que podem ser configuradas para pousar ou obitar. Ela já fechou parcerias com a Nasa e outras agências espaciais, como do Canadá, e tem planos de lançar a primeira expedição lunar comercial ainda neste ano, sendo seguida nos anos seguintes por outras missões.

  • Virgin Galactic

    A companhia é um braço do grupo britânico Virgin, chefiada pelo bilionário Richard Branson. A intenção da empresa é "abrir o Espaço para todos" e, atualmente, a companha produz e opera novas gerações de veículos espaciais. A empresa construiu um "porto espacial" no Novo México (EUA) e foca em usar veículos reutilizáveis para baratear as viagens de "astronautas privados" ou pesquisadores a partir do próximo ano.

Brasil: atrás, de novo

Em meio a um cenário com nações fortes avaliando a volta do homem para a Lua e países em desenvolvimento com planos audaciosos de exploração espacial, vem a pergunta: cadê o Brasil nessa história?

O país carece de planos - os projetos mais concretos são o possível acordo com os EUA para uso pelos norte-americanos da base de Alcântara e o lançamento de satélites. Uma oportunidade perdida, de acordo com especialistas.

"A Argentina em meio à crise está reeditando o programa dela em um nível muito mais acentuado do que o Brasil, que está muito indeciso. A gente tem potencial, mas está meio inerte. Mais do que dinheiro é falta de planejamento a longo prazo. Tem algumas coisas convencionais que se fala, um ou outro satélite, mas em um ritmo muito lento, muito diferente do exterior", diz Barros, da UFMG.

Tilt procurou o Ministério de Tecnologia, Ciência e Inovação para questionar os planos do Brasil no setor espacial e exploração do Espaço, mas não obteve uma resposta até a publicação desta reportagem.

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