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Um ano depois, celulares Huawei não decolam no Brasil; 5G é plano B

Potência na China, Huawei teve até agora pouca participação no mercado brasileiro - Wang Zhao/AFP
Potência na China, Huawei teve até agora pouca participação no mercado brasileiro Imagem: Wang Zhao/AFP

Marcos Bonfim

Colaboração para Tilt

14/08/2020 04h00Atualizada em 17/08/2020 11h10

Sem tempo, irmão

  • Participação da Huawei no Brasil foi de 0,01% no 1º trimestre, segundo consultoria
  • Atualmente é difícil encontrar seus produtos disponíveis para venda
  • Chinesa tem diminuído número de smartphones importados
  • Sanções do governo Trump impactaram retorno da companhia ao Brasil
  • Empresa deve mirar no 5G e na troca de milhões de smartphones nos próximos anos

A Huawei se tornou a líder global em vendas de smartphones, segundo levantamentos recentes de consultorias como Canalys e Counterpoint relativos ao segundo trimestre deste ano. Mas a fabricante chinesa ainda não mostrou a que veio no Brasil, desde que retornou no ano passado. Com poucos modelos à disposição e vendas tímidas no mercado nacional, seu cenário no nosso país contrasta com seu poder em outros continentes.

A companhia não conseguiu alcançar nem 0,01% de participação de mercado no Brasil no primeiro trimestre de 2020. Atualmente está na décima posição em levantamento do IDC Brasil. Para efeito de comparação, a Xiaomi, outra chinesa que também retornou para cá no ano passado, registrou 1,2% e passou a ocupar a sétima posição, de acordo com o mesmo estudo.

Com esses resultados, outro dado que chama a atenção é a indisponibilidade de produtos da marca. Em um ano, a Huawei só trouxe três celulares ao Brasil: P30 Pro, P30 Lite e Nova 5T. Hoje, ao tentar adquirir os aparelhos pelo site oficial da empresa, o consumidor precisa "se inscrever" ou é direcionado para varejistas parceiras, como Magazine Luiza, Fast Shop e Casas Bahia, onde encontra mensagens como "ops...já vendemos todo o estoque" em alguns produtos.

Fontes de mercado ouvidas por Tilt também afirmam que a companhia tem diminuído continuamente o número de smartphones importados.

"Pelo cenário deles no Brasil, é certo que não irão importar grandes volumes, independentemente de sazonalidades, como o Dia dos Pais. Acredito que até o final do ano o estoque da Huawei diminua cada vez mais", afirma um especialista, sob a condição de sigilo.

Afinal, o que está acontecendo?

Para uma marca que está entrando —ou retornando a um mercado—, esse cenário pode denotar uma estratégia atípica. Para especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, a Huawei não está preocupada em vender no momento.

Há um ano, as sanções dos governo Trump proibiram a chinesa de fazer negócios com a Google. Por isso os celulares Huawei deixaram de usar versões do Android com o ecossistema de apps do Google (Gmail, YouTube e outros). Isso coincidiu com a volta da Huawei ao Brasil. Segundo Humberto Sandmann, professor do curso de tecnologia da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), também prejudicou a empresa no mercado brasileiro.

"Esse negócio de martelar essa questão de espionagem gerou um ruído no sentido de [sugerir ao consumidor]: 'será que eu quero um Huawei?'", afirma Sandmann.

Esse cenário adverso se somou à atual concentração do mercado de smartphones, em que quatro fabricantes —Samsung, Motorola, LG e Apple— dominam mais de 90%. "Hoje, o Brasil tem um mercado consolidado e com fabricantes muito bem posicionados. Isso faz com que os novos entrantes tenham que percorrer um percurso complexo", afirma Renato Meirelles, analista de vendas ao consumidor da IDC Brasil.

Qual seria a nova estratégia?

Diante dos problemas, a marca estaria revendo processos e se preparando para a adoção do 5G no país, quando milhões de novos smartphones devem ser comprados para acessar a nova tecnologia. De acordo com Sandmann, é esperada uma atualização de celulares nos próximos dois anos e a Huawei deve aproveitar esse momento para dar um grande salto.

"Eles querem abraçar esse filão com a tecnologia Huawei. Se a antena do 5G for da companhia, será melhor ainda porque deixará tudo integrado. Devem entrar com tudo porque têm uma tecnologia muito boa, compatível com o iPhone. Existe claramente uma possibilidade de ganho de mercado", explica.

Enquanto isso, a estratégia da companhia demanda uma importante lição de casa não só para o Brasil, mas global. Desde as restrições impostas pelo governo Trump, a empresa aumentou sua dependência do mercado chinês, onde já é líder e que representa 72% das suas vendas. Além disso, deve diminuir as suas remessas para os demais países, que responderam por 28% no segundo trimestre deste ano, de acordo com dados da Canalys.

Por isso, os esforços passam por desenvolver apps próprios e promover a independência das empresas dos Estados Unidos. Iniciativas como a Huawei Developers Day, que tem acontecido ao redor do mundo, são um exemplo disso. A ideia é fortalecer a sua loja de aplicativos para que se torne mais ampla, atraente e também próxima do que os consumidores já estão familiarizados.

Mas não será fácil. No passado, esse mesmo caminho foi traçado pela Microsoft, com o Windows Phone, e acabou não dando certo.

"É uma grande barreira estar fora do ecossistema iOS e Android. A Huawei terá que encontrar subterfúgios para conseguir a instalação direta de aplicativos. Vai ter que usar muita comunicação, ou o consumidor pode pensar que está entrando em um ecossistema de exclusão, que é a última coisa que alguém que compra tecnologia quer", afirma Arthur Igreja, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e cofundador da AAA Plataforma de Inovação.

Passando por esse obstáculo, os profissionais entrevistados pela Tilt consideram que a companhia tem um grande potencial de mexer com o mercado de smartphones no Brasil. Até por isso, os seus passos são acompanhados de perto por outros fabricantes.

"Há uma preocupação notória do mercado e dos concorrentes para saber quais são os próximos passos da Huawei aqui no Brasil", revelou uma fonte que não quis se identificar.

Para 2021, alguns dos caminhos da Huawei sugeridos pelas fontes ouvidas pela reportagem são o aumento dos investimentos em marketing, do número de canais de vendas (isto é, lojistas), quebrar o preconceito em relação aos produtos chineses e trabalhar o reconhecimento de marca junto ao consumidor.

Para Igreja, o sucesso da empreitada vai depender dos investimentos e do apetite da companhia. "A Huawei vai precisar de muita resiliência, rede de manutenção, lojas próprias, grandes acordos com varejistas para que, em três anos, tenha uma posição relevante de mercado", argumenta.

Procurada por Tilt, a fabricante informou em nota que considera "o Brasil um mercado estratégico".

"Queremos dar aos brasileiros a oportunidade de experimentar os produtos Huawei e, assim, aumentar o conhecimento da marca, compartilhando suas experiências positivas. Acreditamos que nossos produtos são os melhores representantes de nossa marca", diz o texto.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado no texto, os celulares Huawei deixaram de usar versões do Android com o ecossistema de apps do Google (Gmail, YouTube e outros), e não o sistema Android. O texto foi corrigido.