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Real e virtual na mesma tela; entenda o plano da Huawei para os celulares

Cena de "Queda Livre", episódio de Black Mirror em que as pessoas recebem avaliações por interações na vida real - Reprodução/Netflix
Cena de 'Queda Livre', episódio de Black Mirror em que as pessoas recebem avaliações por interações na vida real Imagem: Reprodução/Netflix

Helton Simões Gomes

De Tilt, em Dongguan (China)*

16/08/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • No celular, Cyberverse insere informações digitais sobre lugares, serviços e pessoas
  • Huawei vê usos da plataforma para navegação, hospitais e comércio
  • No quesito privacidade, a Huawei diz que respeita, mas "quer discutir novas regras"
  • Até o fim de 2019, será testada em cinco lugares dentro da China

Você chega em um lugar desconhecido e quer saber que tipo de gente costuma frequentá-lo. A câmera do seu celular mostra todas as informações sobre as pessoas do local. Este é um ambiente parecido com o do episódio "Queda Livre", da série Black Mirror, mas também é o ambicioso projeto que a Huawei, uma das maiores fabricantes de smartphones e equipamentos de telecomunicações do mundo, planeja para unir os mundos físico e digital.

Essa união acontecerá no Cyberverse, futura plataforma apresentada pela Huawei em sua conferência para desenvolvedores em Dongguan, na China, no último domingo (11). A ideia é criar uma versão digital tridimensional do mundo todo, com dados complementares aparecendo sobre objetos e pessoas.

Essa foi a segunda plataforma apresentada pela gigante chinesa no evento. A outra havia sido o HarmonyOS, um sistema operacional para rodar em quaisquer eletrônicos, de smartphones a televisões. Também é um possível rival para o Android, do Google, que servirá de alternativa para equipar aparelhos da emergente Internet das Coisas.

O que é Cyberverse?

Por meio de um celular, o Cyberverse insere informações sobre lugares, monumentos, serviços e pessoas. Tilt viu uma demonstração no campus da Huawei e funcionaria assim:

  • Você abre o aplicativo do Cyberverse, insere login e senha e passa a "enxergar" dados "escondidos" nele;
  • A partir daí, basta apontar a câmera em uma direção, e o celular escaneará o lugar à procura de informações

"Eu vejo no futuro em como o mundo pode virar um playground para você", comenta Luo Wei, chefe de engenharia de câmera de Huawei, e líder do projeto do Cyberverse. "O mundo inteiro vai se tornar um desktop clicável."

Demonstração do Cyberverse, criado pela Huawei, que pode ser acessado por meio de celulares - Divulgação/Huawei
Demonstração do Cyberverse, criado pela Huawei, que pode ser acessado por meio de celulares
Imagem: Divulgação/Huawei

As informações vistas no Cyberverse podem ser divididas em dois grupos: dados estáticos, como por exemplo explicações contextuais ao lado de obras de um museu; e dados que mudam dependendo da situação. Alguns casos para este último são:

  • Rota de navegação: setas tracejadas em azul indicarão na tela do celular qual caminho seguir;
  • Meio de transporte: setas amarelas indicarão aonde ir para pegar ônibus, metrô, barco etc. e qual deles faz o percurso mais rápido;
  • Serviços hospitalares: em um hospital, ele indica onde está o médico procurado, o que ele está fazendo e qual a melhor rota para chegar até ele;
  • Comércio: na rua, será possível ver opções como o menu de um restaurante, as roupas disponíveis de uma loja de vestuário; ou preço, tamanhos em estoque e histórico de roupas expostas na vitrine de um shopping;
  • Compreensão do entorno: pessoas, plantas, animais, carros e textos serão reconhecidos pelo sistema.

Privacidade

O recurso de exibição de informações de redes sociais sobre uma pessoa pode virar mais uma afronta à já desgastada privacidade online. Isso não passou despercebido na apresentação --já pensou em estranhos olharem para você na rua e descobrirem o que você comeu na noite passada ou suas preferências políticas, graças ao que postou no Facebook?

Demonstração do Cyberverse, criado pela Huawei para unir os mundos físico e digital; na cena, uma pessoa tem suas interações em redes sociais exibidas - Divulgação/Huawei
Demonstração do Cyberverse, criado pela Huawei para unir os mundos físico e digital; na cena, uma pessoa tem suas interações em redes sociais exibidas
Imagem: Divulgação/Huawei

"A Huawei valoriza as proteções de privacidade dos usuários", afirmou Wei, acrescentando que "os usuários poderão não ter seus dados expostos nessa ferramenta se não quiserem". Wang Yue, chefe da área de inovação do serviço de computação em nuvem, reafirmou o respeito à privacidade, mas também disse que "a Huawei está disposta a discutir novas regras para um novo mundo".

Polêmicas à parte, a plataforma ainda vai demorar para ganhar vida. Até o fim de 2019, será testada em cinco lugares dentro da China. No quarto trimestre de 2020, o plano é que chegue a 1.000 locais.

Múltiplas realidades

Para ampliar os serviços e as possibilidades do Cyberverse, a Huawei quer convencer outras empresas a se tornarem parceiras da plataforma para criação de aplicativos e fornecimento de dados.

Na essência, o Cyberverse une conceitos como realidade aumentada (AR), realidade virtual (VR) e realidade mista (MR), como fazem o game Pokémon Go; os óculos Rift, do Facebook; e o Hololens, da Microsoft, respectivamente. Recentemente, o Google liberou um recurso no Maps que abre a câmera do celular e mostra qual a direção correta a se tomar, com setas virtuais aparecendo nas ruas --um recurso similar à proposta do Cyberverse.

O Cyberverse, porém, será algo diferente do que propõem essas abordagens, afirma a Huawei.

Todas as opções dessas empresas são apenas uma parte do que estamos pensando no Cyberverse. Para nós, todos os conteúdos de realidade virtual, realidade aumentada e realidade mista são fragmentos. Precisamos de uma plataforma para conectar tudo isso e fazer com que a vida seja aumentada
Luo Wei, chefe de engenharia de câmera de Huawei

Foco no 5G

Para criar o Cyberverse, a Huawei conta que diversas tecnologias operem juntas, como mapeamento em 3D de ultradefinição, computação espacial para identificar onde fica cada coisa no mundo real, máquinas que compreendam o que a câmera está captando e a alta capacidade de transmissão de dados do 5G.

Black Mirror: quão distante estamos do futuro da série tecno-paranoica?

As invenções recentes

Por ser a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, e também líder de uma das fornecedoras de boa parte da infraestrutura de 5G de vários países, a Huawei tem as cartas na mão para viabilizar o Cyberverse mas mãos de muita gente. A terceira parte desse quebra-cabeça é o serviço de computação em nuvem, área em que a Huawei não é dominante --no mundo, fica atrás de Amazon, Microsoft, Google e IBM e, na China, do Alibaba.

Isso, diz Wang, é crucial para esse novo mundo digital sair dos servidores de computação em nuvem, ser transmitido por redes ultravelozes de internet e chegar aos smartphones. "A Huawei pode ultrapassar outras companhias de internet, porque pode prover tecnologia melhor e melhor infraestrutura", aposta.

Se a previsão da gigante chinesa se concretizar, a ideia do mundo virtual de Black Mirror alimentando constantes avaliações entre as pessoas, corre o risco de virar uma ideia realista. "No futuro, os usuários não poderão dizer o que é real e o que não é", diz Wei.

* O jornalista viajou a convite da Huawei

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