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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Autoteste: os desafios da tecnologia que pode ajudar a vencer a pandemia

Autoteste de covid-19  tem sido encarado como uma poderosa estratégia para enfrentar a pandemia - chandlervid85/ Freepik
Autoteste de covid-19 tem sido encarado como uma poderosa estratégia para enfrentar a pandemia Imagem: chandlervid85/ Freepik
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

05/02/2022 04h00

Nas últimas semanas, temos observado um assustador aumento de casos de covid-19 no Brasil e no mundo, especialmente em virtude da variante ômicron, que é mais contagiosa e tem se mostrado prevalente no país.

Com mais casos, o resultado imediato é o aumento da pressão sobre os sistemas de saúde. Cenas que eram vistas em um passado longínquo, retomam os jornais, e voltamos a ver centros de saúde cada vez mais lotados.

A crise atingiu inclusive a testagem para a doença. Se você buscou um teste entre o Natal e o ano novo, provavelmente encontrou dificuldades: os laboratórios não tinham vaga ou faltavam kits de testagem, inclusive para casos com claros sintomas da doença.

Uma medida divulgada na última semana promete transformar esse cenário: a Anvisa, agência responsável pela política de vigilância sanitária no Brasil, aprovou os chamados autotestes.

Mas o que são eles? Por que são importantes? E que preocupações ainda existem?

Os autotestes não são uma tecnologia nova. Em algumas localidades, como o Reino Unido, ela já tem sido utilizada desde meados de 2020. Conhecido internacionalmente como RAT —rapid antigen test— o chamado autoteste é um exame que pode ser realizado em casa, pelo próprio indivíduo, com um resultado que fica pronto em poucos minutos.

O autoteste não é tão preciso quanto o chamado PCR —descrito por diversos especialistas como o "padrão ouro"—, mas tem sido encarado como uma poderosa estratégia para enfrentar a pandemia.

Em teoria, ter acesso a testagem que pode ser feita em casa permite uma prevenção mais efetiva, permitindo que uma eventual contaminação seja identificada e o isolamento seja feito desde os primeiros sintomas.

A aprovação dos autotestes tem sido muito celebrada, mas ela é apenas um primeiro passo para a utilização dessa tecnologia.

Primeiro, porque as empresas que queiram vender os produtos nacionalmente deverão registrá-los e, portanto, os autotestes devem estar disponíveis somente em fevereiro no Brasil.

Mas além disso, a jornada será longa caso queiramos que os autotestes funcionem como uma política pública eficaz de prevenção à pandemia.

É o que mostram as experiências de outros países que tiveram que lidar com múltiplos desafios para implementar essa estratégia: a disponibilidade dos testes, uma política de preço acessível —sendo que algumas nações passaram a estipular tetos máximos de cobrança— assim como a garantia da qualidade do teste.

E dentre todos esses desafios, dois me parecem especialmente preocupantes.

Estratégia nacional de testagem

A realização de testes é uma ação em um conjunto de medidas que deveria ser tomado para o controle da pandemia. Isso significa que não basta somente liberar o acesso a essa tecnologia sem que haja uma estratégia para a testagem.

Os órgãos responsáveis pela gestão da saúde —ministério, secretarias e órgãos reguladores— precisam trabalhar conjuntamente para a construção dessa estratégia, que deve incluir critérios de uso, a garantia de que os testes estarão conectados a um atendimento médico adequado, além da utilização de dados epidemiológicos para direcionar a melhor utilização dos autotestes —que, muito embora estejam disponíveis para a utilização em casa, têm uma quantidade limitada.

Especialmente, os governos devem prever ações de comunicação claras e que possam orientar a população sobre a utilização dos testes.

Isso envolve criar campanhas de amplo alcance, combinadas ao acompanhamento realizado por profissionais de saúde, assim como a garantia de que seu acesso seja algo possível a maior parte da população, especialmente a quem mais precisa.

E esse será o nosso segundo maior desafio.

Os preços e a disponibilidade serão uma barreira para que grupos vulneráveis socioeconomicamente possam acessar os testes. Vimos isso em outros países, em que aqueles que mais precisam —idosos, doentes crônicos e pessoas em vulnerabilidade— não têm acesso aos testes, como na Austrália e Estados Unidos.

Não custa repetir: vivemos uma pandemia, e isso significa que enquanto não estivermos todos protegidos, ninguém estará. Disponibilizar autotestes para poucos e, principalmente, para aqueles que podem pagar, não será efetivo.

Será preciso criar estratégias —compra subsidiada, distribuição gratuita— para que os testes sejam acessíveis e bem utilizados pelo maior número de pessoas.

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Não há dúvidas de que a aprovação da Anvisa pode representar um importante avanço para combater a pandemia, especialmente em um cenário com o aumento de casos.

Mas trata-se de um primeiro passo e, para que sua efetividade de fato aconteça, outras decisões precisam ser tomadas.

O nosso atraso relativo na adoção desta medida, se comparado a outros países, pode ser um trunfo —se soubermos aprender com as boas experiências e também com o que deu errado.