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Portal

26/10/2007 17h55

Jogos de tiro em primeira pessoa nem sempre foi sinônimo de originalidade, por mais que venha sendo explorado ao longo dos últimos anos. Por outro lado, alguns conseguiram ultrapassar a barreira do "shooter" acéfalo para oferecer experiências mais densas e imersivas, como "Condemned" com seu terror psicológico e pouco enfoque no uso de armas e "Bioshock" e seu universo rico e detalhado.

"Portal", que está incluso no pacote "The Orange Box", entra para esse seleto grupo e oferece uma mecânica totalmente inédita, baseada na realização de quebra-cabeças que desafiam a lógica e o raciocínio. Na verdade, ele é remanescente do gratuito "Narbacular Drop", de 2005, que já trazia a idéia do uso de portais de teletransporte para a resolução de quebra-cabeças. O título serviu de inspiração para a desenvolvedora Valve, que inclusive contratou seus responsáveis para o desenvolvimento de "Portal".

Pensando com portais

O jogo é dividido em fases com dificuldade progressiva, sendo que cada uma delas oferece desafios de lógica e, algumas vezes, de habilidade. O jogador encarna na pele da jovem Chell, que acorda em uma câmara dos laboratórios Aperture sem saber de seu passado ou mesmo o que faz ali. Apesar de mínimo, o enredo existe (faz parte do extenso universo de "Half-Life"), mas se resume apenas às pistas encontradas em locais secretos do complexo de laboratórios e informações transmitidas pelo robô onipresente GLaDOS, dotado de uma voz eletrônica incrivelmente enigmática, além de um senso de humor que permeia entre o irônico e o bizarro.

Todos os desafios requerem o uso do Portal Gun, um dispositivo portátil para a criação de portais. Com ele é possível criar portas de entrada e saída em determinadas superfícies lisas, seja teto, parede ou chão. Um buraco aparentemente instransponível, por exemplo, poder ser ultrapassado facilmente com a arma, bastando a criação de uma entrada antes dele e uma saída do outro lado. Obviamente os quebra-cabeças vão muito além disto, envolvendo plataformas móveis, botões que abrem passagens, cubos necessários para a superação de obstáculos (como o insólito Cubo Companheiro), campos magnéticos e até mesmo canhões.

Os portais também preservam a inércia com a qual você os atravessa. Se criar um portal no chão, de cima de uma plataforma elevada, por exemplo, e pular para dentro dele, você será arremessado na mesma velocidade em sua saída - o que é necessário na resolução de muitos quebra-cabeças. Tais desafios exigem bastante habilidade com os controles e a capacidade de pensar rapidamente. Aos jogadores que sentem tontura facilmente com jogos em primeira pessoa, um aviso: "Portal" é uma das experiências mais vertiginosas de todos os tempos.

Novos elementos são adicionados a cada "puzzle", fazendo com que toda a complexidade da mecânica seja explorada ao máximo. O jogador terá que pensar quase que matematicamente para solucionar os enigmas das fases mais avançadas, que duram meia hora ou mais, dependendo do seu pensamento lógico.

O melhor de tudo é que, apesar da complexidade, "Portal" é muito intuitivo. Isto é, não se perde horas sem saber o que fazer. Cada quebra-cabeça traz uma série de indicações e ícones que ajudam o jogador a entendê-lo. Basta um pouco de raciocínio e algumas tentativas para que a solução apareça. E não há nada mais gratificante do que a sensação de chegar ao final da fase, tendo resolvido um complexo enigma por conta própria.

Entre a terceira e quarta dimensão

"Portal" não é apenas um jogo de quebra-cabeça. É também um verdadeiro marco para os jogos eletrônicos em termos de atmosfera. Seu visual clean e futurista foi sem dúvida inspirado no clássico da ficção científica "2001: Uma Odisséia no Espaço", enquanto o clima claustrofóbico e de mistério carrega um pouco do intrigante "Cubo".

Apesar da simplicidade dos cenários, que se resumem à áreas completamente fechadas e geralmente pequenas, o visual é impressionante, graças às belíssimas texturas. As superfícies refletem a luz de acordo com seu material de forma espetacular. Todos os objetos com os quais você interage são muito bem modelados, principalmente os arredondados, que não apresentam polígonos visíveis.

O robô GLaDOS, por sua vez, traz o humor ácido e inteligente de "O Guia do Mochileiro das Galáxias". Não vou citar suas frases para não estragar a surpresa, mas fique ciente que estamos falando de um dos personagens mais bem elaborados da história dos games.

Ao longo do jogo você encontrará algumas peças para o real quebra-cabeça: qual o motivo de sua presença nos laboratórios Aperture? Ou pior, o que seriam os tais laboratórios? Tudo isso ajuda a enriquecer ainda mais o intrigante universo de "Half-Life", ainda que muitas respostas fiquem a cargo da imaginação do jogador.

A trilha sonora não poderia ser mais adequada para transmitir o clima de mistério do título. O jogador se sentirá desolado num imenso vazio perturbador, enquanto encontra meios de sair do labirinto. As músicas ajudam a aumentar a tensão, com mantras eletrônicos sinistros e sons distorcidos nos momentos mais agitados.

Talvez seu único ponto fraco seja sua longevidade, visto que a experiência dura em média quatro ou cinco horas. Contudo, levando em consideração que se trata de um jogo de quebra-cabeça, ele possui a duração ideal, caso contrário, poderia cair na repetição. Para compensar, o fator "replay" do jogo é alto: existem fases extras, modo contra o tempo e a possibilidade de habilitar comentários dos desenvolvedores durante o jogo, que revelam curiosidades sobre seu processo de criação.

Nota: 9 (Excelente)

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