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God of War II

23/03/2007 19h28

Na vasta biblioteca de jogos para o PlayStation 2, "God of War", lançado em 2005, tem lugar de destaque, para dizer o mínimo. Ele é um dos melhores jogos de ação de sua geração, não apenas pelos combates que são uma montanha-russa de emoção, mas também pela produção excepcional e um enredo que bebe em fontes seguras - a mitologia grega, no caso. Assim, o personagem Kratos entra para o Olimpo dos videogames.

Fazer a seqüência um game de tanto sucesso - ganhou diversos prêmios de "melhor do ano" em várias publicações - não é uma tarefa fácil, ainda quando há troca de comando. Mas Cory Balrog, que sucedeu Davir Jaffe na direção da continuação, não decepcionou. É verdade que as bases já estavam sólidas - e a originalidade não é exatamente o ponto forte do game - o que garantiu muito da qualidade, mas o estúdio de Santa Mônica da Sony conseguiu melhorar onde houve espaço para isso: pouco no que se refere à mecânica de jogo propriamente dita e surpreendentemente muito na escala dos cenários.

Tragédia grega

O estilo de "God of War II" é exatamente igual ao do primeiro. A essência são os combates - numerosos, variados, intensos e violentos -, mas também tem muito de exploração e um pouco de quebra-cabeça. Equilíbrio e ritmo são as palavras de ordem. O game nunca deixa a peteca cair e praticamente não há momento em que você sinta que não esteja progredindo.

A história começa pouco tempo depois dos acontecimentos do primeiro episódio. Agora, Kratos é um deus, mas os poderes que ganhou em sua nova condição divina - nem a vingança contra o ex-deus da guerra Ares - não o livram do tormento de uma tragédia pessoal. Ele volta sua vida a comandar os exércitos de Esparta e conquistar cada vez mais regiões, e isso causou insatisfação de outras divindades, como Atena e o todo-poderoso Zeus, outrora aliados de Kratos.

Mas, como em toda tragédia que se preze, o amargurado personagem sofre novas perdas: ele morre. Mas deuses não são imortais? Sim, mas se trata de uma morte no plano divino, ou seja, ele volta a sua origem de humano. Para reverter isso, explicam os novos aliados do ex-general, os titãs, é preciso reverter a providência celestial. E, felizmente, como se está falando de mitologia grega, isso é mais concreto que se possa imaginar: há entidades que cuidam disso e atendem pelo nome de Irmãs do Destino.

O enredo não tem profundidade e nem pretende ser uma aula de mitologia grega, mas sim uma ficção com alguns dos personagens mais conhecidos pela civilização ocidental. Desta vez, a história não está focada no protagonista, mas na batalha entre os titãs e os deuses. Tudo regado com muito sangue, é claro.

Davi e Golias

David Jaffe já contou que não gosta muito de cenas não-interativas e, de fato, "God of War" tinha apenas o mínimo necessário desse recurso. Na continuação, há mais cenas assim, mas há um esforço muito grande para contar a história através do game em si. No início, Kratos é um deus e, sendo assim, começa com os poderes no nível máximo. Mas isso é só para dar o gostinho de sair estraçalhando tudo, pois em pouco tempo tudo isso fica para trás e ele terá de começar por baixo.

Como no primeiro game, a primeira fase funciona como cartão de visitas: tudo nela é calculada para causar a melhor impressão possível. Por isso, é uma seqüência de ação com adrenalina a mil: no caso, Kratos é perseguido por uma estátua gigante que ganha vida, o colosso de Rodes. Tem-se início uma alternância entre os combates ordinários e as batalhas contra o chefe, que não basta apenas bater, mas buscar o procedimento certo, como usar elementos do cenário, por exemplo. E aqui é o momento ideal para o minigame de pressionar os botões como aparecem na tela, concomitante com a seqüência de ação que rivalizam com filmes de Hollywood.

Passado esse primeiro momento de tirar o fôlego, é hora de ficar um pouco mais relaxado (e isso inclui o minigame erótico que está virando marca registrada da série), intercalando com cenas de exploração e quebra-cabeça, até quando surgir um novo chefe, que estão mais numerosos e variados: nem todos são gigantes, mas nem por isso deixam de ser fáceis. É sempre necessário rachar um pouco a cabeça para "sacar" a ação que tira a energia dos chefes. Enfim, parece que cada desafio pipoca na hora certa.

Os quebra-cabeças não são muitos: apenas suficientes para dar mais variedade, mas sem deixar cair muito o ritmo. A maioria é bastante simples, mas alguns podem exigem atenção. Porém, o mais difícil é conseguir achar ou alcançar os itens secretos. Eles não são obrigatórios (ou podem ser, dependendo do nível de dificuldade), mas facilitam muito a sua jornada. É um sistema relativamente amigável para novatos e recompensa aqueles que se dedicam mais.

Máquina espartana de retaliação

Os combates continuam fluidos e brutais como antes. Muitos dos golpes são herdados, mas há uma série de movimentos novos. Eles não mudam muito a maneira de jogar, mas que é um prazer para os olhos, isso é; em geral, os ataques parecem mais "irados". As batalhas também contemplam tanto novatos como experts: é possível avançar usando apenas um botão (menos contra os chefes), mas a eficiência aumenta quando se utiliza "combos" sofisticados.

A violência é desmedida e indubitavelmente constitui numa das atrações do game. Degolar a cabeça, desmembrar, arrancar olhos de ciclopes e enfiar a espada goela abaixo são algumas das ações brutais do anti-herói. E o show de carnificina fica mais radical contra os chefes. A representação gráfica de tais atos pode ser um choque, mas é amenizado pelo fato dos inimigos serem horrendos monstros sem escrúpulos.

Kratos tem novas armas a sua disposição, mas a exemplo do antecessor, a mais equilibrada e melhor em termos gerais é mesmo a inicial: as lâminas de Atenas. O sistema de melhoramento é idêntico: deposita-se almas vermelhas na arma desejada, que assim fica mais forte e libera novos movimentos. As magias também causam bastante estrago e cada vez que se ganha uma nova, a anterior fica um tanto ultrapassada.

Pequenos ajustes fizeram o game ficar ainda mais ágil. Agora, Kratos pode descer mais rápido quando estiver escalando uma parede, além de mover os objetos com mais rapidez e poder chutá-los mais longe. Outra novidade está nas partes em que o ex-deus usa sua corrente para se dependurar em certos locais e uma fase de vôo, montado num pégaso, bastante divertida.

Aventura retumbante

Não há como expressar a aventura de "God of War" sem usar a palavra épico. Os cenários são grandiloqüentes e traz novamente uma direção de arte soberba, misturando elementos da arquitetura clássica grega com a natureza imponente do mediterrâneo (ou o mundo imaginário da mitologia, como o inferno de Hades). Há mais tipos de ambientes como uma floresta e montanhas geladas (que traz um belo efeito de nevasca). Muitas vezes, os inimigos se confundem com o ambiente, já que alguns são enormes, como é o caso dos titãs e do colosso de Rodes.

Se não fosse a resolução padrão do PlayStation 2, "God of War II" poderia se passar por um game para PlayStation 3. Trata-se de uma realização técnica impressionante (aliada a já propalada qualidade artística), com muitos detalhes e efeitos, além de animar incrivelmente inimigos gigantes. A continuação ganha principalmente em atmosfera, mostrando partículas suspensas e efeitos de luz.

Em termos de design de personagens, nota-se claramente que há uma diferença de tratamentos entre "bonecos" masculinos e femininos. Enquanto Atenas e as mulheres da casa de banho são extremamente bem-feitas e polidas, Zeus e seus congêneres parecem um pouco toscos, apesar de isso acentuar sua rusticidade.

A aventura de Kratos tem um tamanho considerável: em torno de 15 horas. E o replay é definitivamente convidativo, pois grande parte dos extras só é aberta na dificuldade mais alta. O game traz um novo "Challenge of the Gods", que consiste em lutar numa arena com uma série de inimigos. Agora, é possível salvar cada fase (são sete no total). Passar de estágio não é tão difícil, mas o grande desafio é conseguir o melhor rank, e, conseqüentemente, liberar os melhores extras. Por falar nisso, há um DVD inteirinho somente com o "making of" do jogo.

O som continua magistral. O estilo da trilha musical ecoa o aspecto épico: todas as peças são orquestradas, às vezes rápidas e intensas, outras, mais calmas, sempre de acordo com a situação. Nos momentos de clímax, entra o inevitável coral, e isso quase sempre funciona. A dublagem também é excelente: os atores que cederam vozes para Kratos, Atenas e Zeus, por exemplo, fazem um trabalho impecável. No entanto, Michael Clarke Duncam (o Rei do Crime em "O Demolidor"), por exemplo, não fazem jus à fama.

Mais do excelente mesmo

"God of War II" é basicamente uma extensão do primeiro jogo. Isso quer dizer que continua excelente e ainda foi melhorado onde possível, principalmente na dimensão e intensidade da aventura. Não é o suficiente para compensar a perda de impacto - afinal o mesmo "truque" não funciona tão bem numa segunda vez -, mas o saldo ainda é muito positivo. Com uma produção primorosa, o título só não deve agradar quem não é afeito à ação e violência. É a melhor despedida que a série poderia ter no PlayStation 2.

Nota: 10 (Imperdível)

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