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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Sucesso inesperado do BBB explica apagão, "rajada" e pirataria no Globoplay

Na noite da eliminação de Karol, o pico de consumo na plataforma de vídeos digitais da Globo foi de 2,3 milhões de acessos simultâneos - Reprodução/ Globoplay
Na noite da eliminação de Karol, o pico de consumo na plataforma de vídeos digitais da Globo foi de 2,3 milhões de acessos simultâneos Imagem: Reprodução/ Globoplay
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

03/03/2021 10h00

A experiência de quem acompanha o "BBB" 24 horas por dia não foi das mais tranquilas nas primeiras semanas da atual edição. Dificuldades de acesso ao Globoplay, travamentos e um apagão geral durante uma das festas chamaram a atenção e geraram milhares de reclamações. As situações, que provocaram sustos e estresse na Globo, são explicadas em razão do sucesso absolutamente sem precedentes do "BBB 21".

O UOL conversou com dois executivos da Globo para tentar entender o que aconteceu. "Estou feliz, mas de vez em quando fico bravo também, quando a nossa plataforma fica instável, cai. Fico chateado", diz Erick Brêtas, diretor de produtos e serviços digitais. "De vez em quando temos uns sustos, mas estamos trabalhando", diz Raymundo Barros, diretor de tecnologia.

Ainda que não divulguem números de assinantes, os executivos revelaram alguns dados que ajudam a dar a dimensão do impacto que o "BBB 21" está tendo sobre a plataforma de streaming da empresa.

Em termos de consumo de conteúdo digital, a atual edição começou maior que a melhor semana do "BBB 20". "O que surpreendeu a gente", diz Brêtas. "O BBB tem uma curva, que demora umas duas semanas para subir a rampa, mas ele já começou lá no alto, lá em cima. O que é muito bom, mas traz desafios de infra-estrutura".

Brêtas afirma que a Globo se preparou para uma edição que alcançaria o topo da audiência de 2020. "O que nos surpreendeu é ter sido mais que o topo da audiência de 2020 logo de cara".

Barros detalha que o momento de maior consumo de streaming em 2020 ocorreu na semana do paredão entre Manu Gavassi e Felipe Prior. "Este ano, nós abrimos o programa no dia 25 de janeiro com o dobro. E só faz crescer".

Outros dois números que expressam o tamanho da audiência digital: O papo do eliminado, da ex-BBB Ana Clara com Karol Conká, teve um pico de 1,2 milhão de acessos simultâneos na semana passada. Na mesma noite, o pico de consumo na plataforma de vídeos digitais (Globoplay principalmente) foi de 2,3 milhões de acessos simultâneos.

O fenômeno da "rajada"

Um dos principais problemas ocorre no momento em que termina o programa da Globo, na TV aberta, e os espectadores conectam no Globoplay. "Ninguém no mundo faz esse processo de transferência de audiência. O programa termina com gancho para internet. Migração de dezenas de milhões no mesmo minuto. É um fenômeno que a gente chama de rajada", diz Barros.

"Nosso problema não é sustentar milhões de pessoas na plataforma. O problema mais crítico é o suporte à rajada. É você ter no mesmo minuto, quando sobe o crédito na TV, milhões de pessoas acessando a plataforma simultaneamente", acrescenta.

"Claro que estamos preparados para isso, mas não abrimos o programa preparados para a dimensão de migração de audiência que passamos a ter este ano", completa Barros, mostrando um gráfico que expõe a "rajada" - o número de pessoas tentando entrar no Globoplay salta de 300 mil para 600 mil em um minuto. "Quer chegar a muito mais. É um fenômeno que você não encontrará paralelo em lugar nenhum".

festa  - Reprodução/ Globoplay - Reprodução/ Globoplay
BBB 21: Na madrugada, após o show de Daniela Mercury, um apagão tirou a transmissão do ar
Imagem: Reprodução/ Globoplay

O "apagão" na festa

Realizada na noite de sábado (20 de fevereiro) e madrugada de domingo (21), a festa "Olho no Olho" gerou um dos maiores traumas deste "BBB 21" na área de tecnologia. Pouco depois da 0h, as nove câmeras do serviço de streaming saíram do ar e deixaram os espectadores sem qualquer imagem do evento.

Menos de uma hora depois, as duas câmeras principais voltaram e, posteriormente, ainda de madrugada o serviço foi inteiramente restabelecido.

"Foi um problema nos Estúdios Globo", diz Barros. "Ele ficou ilhado do ponto de vista de telecomunicações por causa de um rompimento em fibra ótica. Não foi um problema no Globoplay ou nas câmaras", conta.

"Para o BBB foi o momento mais estressante. As rajadas sabemos que têm um impacto e uma perturbação que leva uns 10, 15 minutos e depois vai normalizar. Nós ficamos meia hora sem as duas câmeras principais e depois voltamos com a nove câmeras. Foi uma madrugada intensa".

"A gente sofre quando tem uma coisa dessas", diz Brêtas. "Foi um apagão de infra-estrutura. A gente tem muito conteúdo ao vivo e consumo simultâneo (futebol, BBB), diferentemente de Netflix e Amazon e outros serviços de streaming".

E acrescenta: "Na Netflix o consumo deve estar dividido entre 'Bridgerton', 'Cidade Invisível', os diferentes produtos deles. Vai todo mundo ver este conteúdo. Na época de 'BBB', o consumo fica muito concentrado em 'BBB'. E quando você tem prova do líder, festa, jogo da discórdia no digital, todo mundo só quer ver aquele conteúdo. Por isso a percepção de falha aumenta. Tem um efeito social muito grande, que não acontece com conteúdos sob demanda".

Pirataria e "conversa social"

A Globo tem tirado do ar vídeos do "BBB 21" reproduzidos em diferentes redes sociais. "Você nunca vai ver a Globo coibindo alguém que pegou um minuto do programa e postou no Twitter. Nunca. Não fazemos isso", diz Brêtas. "Tem gente que é cara de pau e pirateia o sinal ao vivo, faz uma operação paralela. E tem gente que posta 50 trechos de um minuto. Aí é um abuso".

"Pirata é o que está ganhando dinheiro. Não é o caso, às vezes, do cara que quer se tornar um influenciador em cima do barulho do BBB. Ele corta 50 trechos por dia, alguns longos. Ele quer construir fama com a distribuição de uma coisa que ele não paga. Mas a pessoa que está usando aquilo com moderação, a gente não interfere", diz o executivo.

"A pessoa que pegou três trechos de um minuto e colocou em diferentes momentos do dia faz parte da conversa social. O BBB gera muita conversa e o corte do trecho, para conversar em cima do trecho, é um fenômeno natural, que a gente gosta, inclusive", acrescenta.

Grupo - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
BBB 21: Primeira foto dos participantes da edição reunidos
Imagem: Reprodução/Globoplay

Edição das câmeras

Outra reclamação muito comum é sobre a edição de imagens nas câmeras do serviço de streaming. Brêtas diz que a responsabilidade é da área de produção, mas o executivo busca explicar o que ocorre "mesmo sem mandato para defendê-los".

"No início do programa, com 20 pessoas, você pode ter seis, sete focos de conversa. E duas câmeras principais. O diretor de TV corta e escolhe. Alguma escolha precisa ter. E tem câmeras fixas, que o áudio da pessoa precisa estar perto do microfone da câmera para ser captado também", diz.

"Não é possível, quando a casa está cheia, a gente mostrar todas as conversas que acontecem ao mesmo tempo. Tem o fenômeno do fã também. Às vezes, a decisão editorial de quem está fazendo o corte não coincide com o gosto do fã, que estava mais interessado na conversa que foi cortada. São decisões humanas e, como tudo, tem uma gama de subjetividade", diz Brêtas.

Espectador sazonal

Com um preço bem convidativo, R$ 22,90 mensais, o Globoplay tem atraído um número alto de assinantes, mas sabe que parte deles não permanecerá após o fim do "BBB 21". "De 2018 a 2021, a base de assinantes quadruplicou. O interesse da sociedade brasileira pelo BBB aumentou muito", diz Brêtas.

Para convencer este "assinante sazonal", que chega em janeiro e vai embora no final de abril, a não abandonar a plataforma, o Globoplay planeja duas rodadas concentradas de lançamentos em abril e maio. "Nossa aposta é conteúdo", diz o executivo.

Smart TVs desatualizadas

Assinantes do Globoplay que tem o aplicativo instalado em aparelhos de TV anteriores a 2015 não vão mais acessar a plataforma desta forma. A partir deste mês, a empresa vai começar a cortar.

"A primeira geração do nosso aplicativo é de uma época em que o próprio ambiente das smart TVs estava muito embrionário. Os sistemas operacionais eram muito frágeis. Antes de 2015. Frequentemente dão problemas de travamento", diz Brêtas.

"À medida que o tempo passou, nós fomos evoluindo e os fabricantes foram evoluindo. O app do Globoplay não vai mais servir em televisões mais antigas, pré-2015. Os grandes fabricantes não dão mais suporte nos seus sistemas operacionais. Vamos cortar", diz.