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Record dedica 71 minutos de ataques à Globo durante oito dias seguidos

A jornalista Christina Lemos apresenta uma das reportagens da série do "Jornal da Record" contra a Globo - Reprodução
A jornalista Christina Lemos apresenta uma das reportagens da série do "Jornal da Record" contra a Globo Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

21/09/2020 12h12Atualizada em 22/09/2020 14h53

Há oito dias, desde o domingo, 13 de setembro, a Record tem mobilizado esforços no combate ao que ela chama de "império": o Grupo Globo e os seus sócios principais, os irmãos Marinho. No que é possível caracterizar como uma campanha, já foram 71 minutos dedicados a um mesmo alvo, com reportagens explorando em sua maior parte temas já conhecidos, nos quais a empresa e seus donos são acusados de uma lista enorme de crimes.

De segunda (14) a sábado (19), o ataque se deu no "Jornal da Record", que apresentou uma série de reportagens intitulada "O lado oculto do império". Outros dois torpedos foram disparados nas edições do "Domingo Espetacular" dos dias 13 e 20.

Os 71 minutos gastos com as oito reportagens - uma média de quase 9 minutos por dia - superam, de longe, qualquer outro assunto tratado pelo jornalismo da Record neste período. Além de trazerem poucas informações novas, as matérias expõem repetidamente com destaque as mesmas fotos dos irmãos Roberto Irineu e João Roberto Marinho além de uma imagem aérea da sede da Globo.

As reportagens trataram de acusações de sonegação fiscal, suposto envolvimento com corrupção no futebol, um certo "pacto com Sergio Cabral" para transmissão dos Jogos Olímpicos de 2016, importação de cavalos de competição, imóveis de luxo que estariam em situação irregular e negócios com doleiros.

A imagem que ilustra a série é do doleiro Dario Messer. Em agosto, em delação premiada, ele teria afirmado ao Ministério Público Federal que, durante a década de 90, entregou "em várias ocasiões" quantias entre US$ 50 mil e US$ 300 mil a integrantes da família Marinho.

A Globo não tem respondido aos pedidos de "outro lado" feitos pela Record. Procurada pela coluna na manhã desta segunda-feira (21) para comentar a série de reportagens, a emissora ainda não respondeu.

O presidente Jair Bolsonaro tem compartilhado algumas das reportagens em suas redes sociais. Nesta segunda-feira (21), publicou o link da mais recente matéria do "Domingo Espetacular" com a seguinte observação: "Mais informações: A família Marinho (Globo), por décadas, no topo da cadeia alimentar da corrupção". Nas primeiras cinco horas, a postagem teve 81 mil curtidas e 36 mil compartilhamentos.

Consultada pela coluna, a Record não concorda que esteja fazendo uma campanha contra a Globo e os Marinho: "A Record está praticando jornalismo, informando sobre investigações que ainda estão acontecendo", disse a emissora.

Os ataques começaram exatamente um dia depois da edição de sábado (12) do "Jornal Nacional", da Globo. O telejornal divulgou com destaque (8 minutos) detalhes de uma acusação do MPE-RJ (Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro) envolvendo a Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus). Como se sabe, Edir Macedo, dono da Record, é o fundador e principal líder da igreja.

Segundo a reportagem, o MP afirmou que a igreja tem sido "utilizada como instrumento para lavagem de dinheiro fruto da endêmica corrupção instalada na alta cúpula da administração municipal" do Rio. O prefeito da cidade, Marcelo Crivella, é bispo licenciado da igreja.

Ainda segundo a reportagem, o MP menciona "movimentações bilionárias atípicas" da igreja e cita o suposto envolvimento de Mauro Macedo, primo de Edir Macedo, na trama. A igreja negou as acusações e acusou o grupo Globo e autoridades de promoverem um "ataque combinado" à instituição. "Não há nenhuma relação financeira entre Marcelo Crivella, suas campanhas políticas e a igreja", disse em nota.

Outro ataque recente

Não é a primeira vez que a Record utiliza o seu jornalismo para atacar rivais e concorrentes. Em setembro de 2019, o "Jornal da Record" exibiu três reportagens com ataques à MRV Engenharia, cujo dono, Rubens Menin, é também o principal sócio da CNN Brasil.

Os ataques começaram dias depois de a CNN anunciar a contratação de Reinaldo Gottino, então apresentador do programa mais bem-sucedido da Record, o "Balanço Geral". A MRV divulgou na ocasião uma nota dizendo que as reportagens eram "uma represália de baixo nível da direção da emissora à contratação do apresentador Reinaldo Gottino pela CNN Brasil".

Oito meses depois da contratação e dois meses após a estreia da CNN Brasil, Gottino deixou o canal e retornou à Record. Ele justificou o movimento dizendo que recebeu "uma boa proposta de trabalho".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL