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Importância de Maria Alice Vergueiro vai bem além do "Tapa na Pantera"

A atriz Maria Alice Vergueiro (1935-2020), que teve grande carreira no teatro e ficou famosa por um vídeo na internet - Reprodução / Internet
A atriz Maria Alice Vergueiro (1935-2020), que teve grande carreira no teatro e ficou famosa por um vídeo na internet Imagem: Reprodução / Internet
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

03/06/2020 13h53

Na sua "autobiografia não-autorizada", publicada em 2008, Maria Alice Vergueiro, morta nesta quarta-feira (03), aos 85 anos, já intuía o que os obituários diriam sobre a sua trajetória: "Depois de Tapa na Pantera surgiu essa fama... Após cinco décadas de teatro, foi como se meu passado não existisse".

O filme, um trabalho de conclusão do curso de cinema na Faap de três estudantes (Esmir Filho, Rafael Gomes e Mariana Bastos), se tornou um dos primeiros "virais" do You Tube. "Depois dizem que maconha vicia... Eu fumo há 30 anos, todos os dias. Todos os dias, não perco nenhum, e não tô viciada", ela diz no filme, divulgado em 2006.

No livro, publicado dois anos depois e chamado "Tapa na Pantera na íntegra", Maria Alice Vergueiro (1935-2020) conta bastidores do curta-metragem. "Tínhamos acabado de tomar sorvete. A câmera estava ligada... E saiu. Mas o resultado final se deve à edição. Eu fiquei impressionada".

E acrescenta: "Foi uma brincadeira que deu certo. O texto do filme é um apanhado de piadas antigas, conceitualmente (re)significadas. Era assim: 'Eu bebo há 30 anos e não estou viciado'. No filme, só troquei o vício".

Apesar de lamentar que a fama causada pelo filme tenha deixado em segundo plano a sua carreira, Maria Alice reconhece: "O 'Tapa na Pantera' teve duas funções importantes para a sociedade: tratou do tema da maconha sem hipocrisia, além de me apresentar para as gerações mais jovens, que não me conheciam".

Sobre a acusação que a brincadeira faz apologia ao consumo de maconha, ela diz: "Por trás do filme 'Tapa na Pantera' está a felicidade. É a risada e não o discurso. Não há nenhuma apologia à droga. O que existe é algo que extrapola o cômico, há um certo cinismo, uma certa ironia dialética".

Nesta última frase, Maria Alice deixa transparecer a grande referência que a influenciou como atriz: o dramaturgo Beltolt Brecht (1898-1956). Foi professora de teatro na USP e viveu em Lisboa, onde desenvolveu estudos sobre a obra do dramaturgo alemão.

Nos anos 1970, Maria Alice trabalhou com José Celso Martinez Correa, no Teatro Oficina, e fundou, em 1977, junto com Cacá Rosset e Luiz Roberto Galizia, o grupo Ornitorrinco. Também foi dirigida por Luís Antonio Martinez Corrêa, Gerald Thomas, Felipe Hirsh, Rubens Rusche, entre outros. Ficou conhecida como "musa do underground".

No cinema, Maria Alice atuou em "O Rei da Vela", dirigido por Zé Celso, e também em dois filmes de Sergio Bianchi, "Maldita Coincidência" e "Cronicamente Inviável", e em "Condomínio Jaqueline", de Roberto Moreira, entre outros.

Na televisão, fez pouca coisa. Silvio de Abreu escreveu um papel especialmente para ela em "Sassaricando" (1987), a Lucrécia Abdalla Varella, revivida por Claudia Gimenez em "Haja Coração" (2016), o remake de Daniel Ortiz. A atriz também atuou na minissérie "O Sistema" (2007), de Fernanda Young e Alexandre Machado.

Maria Alice não gostou das experiências: "A televisão pede apenas um intérprete. E eu sou uma artista brechtiana, preciso estar ligada no todo. Tenho que saber o que estou falando, preciso estar, também, conivente com o autor. É raro que isso aconteça na TV".

Ela também diz, no livro: "A TV é uma família, E eu, mesmo tendo ficado pouco tempo lá dentro, permaneci o tempo todo emburrada, criticando tudo. Lógico que eles percebem. Então, já que não virei uma superstar, me assumi como uma substar, indo trabalhar em caves, cabarés e, literalmente, em porões".

E completa: "Então também começaram a me chamar de dama dos porões, musa da marginália. E eu passei a achar que esses 'títulos' me doavam uma força, uma espécie de troféu. Assim eu podia ser contrária a alguém".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL