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Copa 90

Lazaroni, Maradona e uma seleção (talvez) injustiçada


Copa de 90: Brasil aderiu ao 'futebol moderno' e enterrou mágica de Telê

Igor Siqueira

Do UOL, no Rio de Janeiro

01/12/2021 12h00

O desenvolvimento do futebol brasileiro às vezes parece que acompanha o contexto do país. E isso não necessariamente é algo bom.

Na preparação para a Copa do Mundo de 1990 — como retrata o primeiro episódio da série "Copa 90: Lazaroni, Maradona e uma seleção (talvez) injustiçada" — é possível entender o paralelo ente o contexto político brasileiro, com a abertura de fronteiras para exportação de carros no governo de Fernando Collor, por exemplo, e a busca pelo futebol "moderno". O trabalho documental foi produzido por UOL Esporte e MOV.doc, selo de documentários de MOV, a produtora de vídeos do UOL, e está disponível no YouTube desde ontem (30).

Pela primeira vez, o Brasil se preparou para um Mundial adotando o esquema tático 3-5-2. A história do futebol mostra que essa formação, por si só, não é um problema. Tanto que o penta veio em 2002 com esse esquema tático. Recentemente, o Chelsea, campeão europeu, e outros times de ponta também têm recorrido a essa formação.

Mais do que a ordem dos números, o que se viu na preparação para 1990 foi um conceito de futebol que rompeu com o que a seleção brasileira tinha levado às Copas do Mundo anteriores, especialmente em 1982 e 1986, sob a batuta de Telê Santana. Com Sebastião Lazaroni no comando, a importação era a política da vez.

"Era o Brasil moderno. E o Brasil moderno tinha que jogar um futebol moderno. E futebol moderno era europeu", comenta Juca Kfouri, colunista do UOL, no primeiro capítulo.

A adoção do novo esquema tático veio após derrotas da seleção em um torneio amistoso na Dinamarca, ainda antes da Copa América 1989. Detalhe: Lazaroni não conseguiu levar os melhores jogadores, já que havia nomes atuando no futebol europeu e não havia a chamada data Fifa, para a qual os clubes são obrigados a liberar convocados às seleções.

"Tem um período concomitante a essa mudança tática que ainda era a continuidade da dificuldade na convocação. Era um período terminando uma geração 1982, 1986, e começando outra", lembra Lazaroni, que viria a ser campeão do torneio continental.

O escolhido para a função de líbero foi Mauro Galvão, que já tinha feito esse papel no Internacional. Os demais zagueiros preferiam um contato mais constante com os atacantes adversários.

"A imprensa sempre meteu o pau, não gostava. Porque era uma coisa muito retranqueira. E na verdade não era retranqueira. Os laterais marcavam mais em cima e você se fechava bem", argumenta o ex-zagueiro Ricardo Rocha.

A ruptura com Telê parece até que foi antevista pelo ex-técnico da seleção, quando a CBF anunciou a contratação de Lazaroni. O treinador pontuou ao jornal "O Globo" na ocasião: "Quando fui chamado, tinha experiência de dirigir clubes em vários estados do país, por todos os grandes centros, como Rio, Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul. O Lazaroni treinou apenas equipes cariocas e não conhece direito o que acontece nos outros estados. Vai sofrer com isso", profetizou. Rubens Minelli, à época no Grêmio, também não aprovou a escolha.

O ponto é que o Brasil pareceu querer imitar o que se fazia lá fora. Embora tenha conquistado um título nessa caminhada, chegou irreconhecível à Copa de 1990. A referência era dos anos anteriores. Não foi a única razão, como a série Copa 90 mostra, mas não dá para tirar o novo esquema do contexto da frustração no Mundial da Itália.