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Fórmula 1

Assessora conta que teve de desmentir morte de Senna à família

Maurício Dehò*

Do UOL, em São Paulo

01/05/2014 13h17

No dia em que a morte do tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna, completou 20 anos, a assessora do piloto na época do acidente, Betise Assumpção, publicou um texto em seu site oficial relatando os acontecimentos do dia 1 de maio de 1994 em Ímola e como foram os contatos entre familiares de Senna, a FIA, Bernie Ecclestone e o médico oficial da categoria.

Motivada pela data, como contou ao UOL Esporte - leia entrevista no box abaixo - ela decidiu esclarecer como vivenciou o dramático momento. Betise conta que ouviu de Ecclestone e do médico Sid Watkins frases dizendo que Senna morreu na pista. À reportagem, ela explicou que a interpretação dada é de que ele "não sobreviveria", apesar de ainda ter pulso.

Betise contou que o chefe comercial da categoria, Bernie Ecclestone, chamou irmão de Ayrton, Leonardo Senna, para uma conversa depois do acidente. Ecclestone falou primeiro com a assessora, pois queria saber como dizer a Leonardo a informação que tinha, sendo que o irmão do piloto não falava inglês.

A conversa, então, aconteceu na presença de Betise, em uma sala reservada no motorhome. Ecclestone foi direto. “He is dead”. A assessora traduziu na sequência para Leonardo. “Leo, eu sinto muito ter que te falar isso, mas ele está dizendo que Ayrton está morto”, disse Betise, antes de abraçar Leonardo, que, segundo o relato, chorava copiosamente.

Ecclestone, na sequência, acrescentou. “Mas nós só vamos anunciar mais tarde para não parar a corrida”. Segundo Betise, Leonardo entrou em desespero, chorava alto e tremia. A assessora tentou acalmá-lo para que o irmão entrasse em contato com os pais no Brasil para dar a notícia. 

“Léo, eu realmente sinto muito", disse ela. "Nossa, de verdade. Nem sei mais o que dizer para você, mas uma coisa você tem que fazer. Você precisa se recompor e ligar para seus pais no Brasil. Eles devem estar desesperados e não posso ser eu a lhes dar esta notícia. Eles precisam ouvir isso de você. Tenho certeza de que vai ser mais reconfortante para eles também“. O próprio Ecclestone ofereceu o telefone do motorhome para o contato.

Bernie Ecclestone sempre negou ter dito a Leonardo que Ayrton estava morto. De acordo com o dirigente, houve um erro de tradução quando ele disse, em inglês, a frase “He’s got a bad bump on his head”, que significa “Ele tem um ferimento na cabeça”. A confusão teria sido entre as frases “He is dead” (“ele está morto) e “his head” (“a cabeça dele”).

Em seguida, de acordo com o relato, o assessor de imprensa da FIA, Martin Whitaker, chegou ao motorhome, conversou rapidamente com Ecclestone e se dirigiu a Betise. “O que eu disse na sala de imprensa é que Ayrton teve ferimentos na cabeça e foi levado para o hospital”, afirmou Whitaker.

Betise retrucou. “O Bernie acaba de nos dizer que o Ayrton está morto”, afirmou a assessora, sendo constantemente rebatida por Whitaker. “Não, o que eu disse para a imprensa é que ele teve ferimentos graves na cabeça”.

“Martin, eu acho que você não entendeu a delicadeza da situação. O Leo já contou pra família que o Ayrton morreu. Eles já estão lidando com uma dor enorme”, disse a assessora de Senna. “Betise, eu entendo isso. Mas eu disse à imprensa que ele tinha ferimentos na cabeça e foi para o hospital. Eu não disse que ele está morto”, respondeu Whitaker.

"Saí da sala , contei pro Leo. Ele telefonou para o Brasil novamente e disse a sua mãe Neyde e pai  Milton . Passei as próximas cinco horas traduzindo , organizando, transmitindo recados e lidando com as esperanças e dores de Leo no hospital e da família no Brasil.  Só quando o Dr. Sid Watkins chegou ao hospital  ficou tudo esclarecido."

Betise contou, em seguida, que teve uma conversa com o Dr. Sid Watkins, então médico chefe da Fórmula 1, que fez o primeiro atendimento a Senna e realizou ainda na Tamburello uma operação de traqueostomia para auxiliar a respiração do piloto. “Betise, não há esperança nenhuma. Ele já estava morto na pista”, teria dito o médico para dar dimensão da gravidade do quadro, além de descrever os detalhes da lesão na cabeça do piloto.

Betise Assumpção fala ao UOL Esporte

  • Por que você decidiu fazer este relato sobre o dia da morte de Senna?

    É aquela coisa. Chegou a data, os 20 anos e todo mundo quer que eu dê entrevista, quer saber... Então resolvi escrever. Havia muita coisa incorreta sendo divulgada e às vezes as pessoas não sabem. Então queria esclarecer. Foi assim que aconteceu.

  • Como foi este momento em que Bernie comunicou a vocês e disse que Senna estava morto?

    O Bernie falou com o Sid, foi na torre saber o que estava acontecendo. Ele nem ia procurar a gente e, com toda a loucura, acho que ele teve a consideração e falou: ‘vou contar’. Mas depois o assessor viu como as coisas estavam e se amedrontou, voltou atrás. Depois veio aquela história de confundir 'dead' (morto) com 'head' (cabeça), mas não tinha coisa nenhuma.

  • Quando você fala em morte, principalmente quando Sid diz que ele estava morto na pista, o que se quer dizer?

    O que o Sid quis dizer é que ele não ia sobreviver, que viu que aquilo não tinha volta. Ele fez a traqueostomia, conseguiu um pulso. O coração estava batendo e parou às 18h40, mas ele sabia que não ia voltar.

  • O seu relato muda algo na história que se tem dos últimos momentos de Senna?

    Acho que muda pouco, praticamente nada. Isso foi meia hora de um dia muito longo, dentro de uma história de cinco dias muito longos. Contei porque é algo importante e vou contar outras histórias que vão se conectar a essa.

 

Oficialmente, nunca ficou provado que Senna morreu na pista de Ímola. O piloto foi declarado morto às 18h40 (horário local), duas horas e 20 minutos depois do fim do GP de San Marino, no Hospital Maggiore de Bolonha. O anúncio foi feito pela médica Maria Teresa Fiandri. A autópsia apontou ferimentos múltiplos na base do crânio, edema, hemorragia e aumento da pressão intracraniana, além da ruptura da artéria temporal que causou parada cardíaca.

De acordo com as leis italianas, a corrida teria que ter sido suspensa e o autódromo interditado caso fosse constatada a morte de um piloto na pista. No sábado, dia 30 de abril de 1994, o austríaco Roland Ratzenberger também morreu após um acidente em Ímola, ao escapar da pista com sua Simtek a mais de 200 km/h. A morte dele também foi anunciada no hospital.

*Colaborou Allan Simon

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  • Capítulo 4

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  • Capítulo 5

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  • Capítulo 6

    Pressão sobre Senna teve até gravação comprometedora de Galisteu

  • Capítulo 7

    Dia 1º de maio de 1994: o pior dia na carreira de um jornalista

  • Capítulo 8

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  • Capítulo 9

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    Caixão de Senna veio ao Brasil na classe executiva; passageiros não sabiam

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