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Aquecimento global

O que significam as demissões de autoridades do Ministério do Meio Ambiente

Vista aérea de áreas queimadas e focos de incêndio na Amazônia, na cidade de Nova Bandeirantes, Mato Grosso - Victor Moriyama/Greenpeace
Vista aérea de áreas queimadas e focos de incêndio na Amazônia, na cidade de Nova Bandeirantes, Mato Grosso Imagem: Victor Moriyama/Greenpeace

Bárbara Forte, Diana Carvalho e Paula Rodrigues

De Ecoa, em São Paulo

03/03/2020 04h00

A demissão de autoridades de alto escalão que atuavam no combate às mudanças climáticas do Ministério do Meio Ambiente, na última quinta-feira (27), comprovam o que ambientalistas e economistas já especulavam desde que Ricardo Salles foi chamado por Bolsonaro para ser ministro: o Brasil não só estagnou sua política a favor do meio ambiente, mas vem boicotando tentativas de conter o aquecimento global.

A medida é apenas a última de uma série de cortes que já estavam sendo feitos na pasta desde o ano passado — entre eles, bloqueio de 96% de recursos que seriam destinados à Política Nacional sobre Mudança do Clima Até dezembro de 2019, o UOL havia contabilizado ao menos 29 cargos vagos no ministério — de posições de coordenação até chefia de gabinete. Além disso, Salles foi o responsável por extinguir a Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas, em 2019.

Em entrevista à Folha de S. Paulo em 2018, antes mesmo de assumir o cargo, Salles afirmou que o aquecimento global é uma discussão secundária, porém, para especialistas ouvidos por Ecoa, este é o assunto de maior relevância para o debate político internacional — e que pode afetar o país, inclusive, economicamente.

Ariaster Chimeli, professor doutor do departamento de Economia da Universidade de São Paulo, explica que o comportamento do governo relacionado à preservação do meio ambiente pode fazer o Brasil perder um valioso poder de barganha em futuras negociações com outras nações.

"Ao sair da conversa sobre clima, podemos esperar desconfiança de investidores. As empresas começam a pensar duas vezes antes de investir em um lugar onde a imagem delas estará associada à destruição ambiental."

Caos climático

Se economicamente as consequências podem ser impactantes para o Brasil, para a saúde do planeta elas são ainda maiores.

Quando comparamos os números de desmatamento da Amazônia Legal em janeiro deste ano com o mesmo período em 2019, é possível identificar um crescimento de 74% de áreas desflorestadas, segundo último relatório da ONG Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). Além disso, a degradação ambiental saltou 1.382% entre janeiro de 2019 e o primeiro mês deste ano.

A situação é urgente para Alexandre Araújo Costa, climatologista e professor da Universidade Estadual do Ceará:

Não há nada que possa ser mais grave do que aumentar a exposição global a um caos climático."

O especialista refere-se aos inúmeros efeitos do aquecimento global: de alterações no padrão de chuvas à perda de ecossistemas fundamentais para o bem-estar do meio ambiente.

Por isso, quando um ministro opta por descontinuar o trabalho de uma autarquia que tem como principal dever pensar ações para combater as consequências da crise climática, o debate perde força, e o resultado é sentido por quem mais sofre: a população brasileira, em especial sua parcela mais vulnerável.

"O impacto é direto para o agricultor que está perdendo suas safras por extremos climáticos, para os habitantes de metrópoles que alagam ou ficam sem água, para as pessoas mais expostas a doenças transmitidas por insetos que proliferam no calor. E, pior que tudo, quem mais sofre é exatamente a parcela empobrecida da população," afirma o ambientalista Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Futuro incerto

Ameaçado pela política de não enfrentamento do aquecimento global, o compromisso do Brasil de reduzir 37% de emissões de GEE (gases de efeito estufa) até 2025, assinado em 2015 no Acordo de Paris, é colocado em xeque.

Há falta de vontade política para estabelecer medidas efetivas para alcançar as metas do pacto global, como sinaliza Astrini: "O atual governo não apenas enterrou os planos de combate ao desmatamento como atuou para seu crescimento, passando a mão na cabeça de criminosos ambientais. Acrescentar a palavra 'clima' ao nome da Secretaria de Relações Internacionais não muda esse quadro".

A essa altura do campeonato, mesmo uma mudança brusca de atuação não tiraria o Brasil de uma posição de atraso em comparação com outras nações — enquanto potências econômicas convergem para uma economia mais limpa, o que o momento pede é que o país pense em reações, e não ações.

Apesar do modo controverso com que as ações de Ricardo Salles e do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) vêm sendo recebidas ao redor do mundo, o ambientalista Marcio Astrini e o climatologista Alexandre Araújo Costa concordam que há solução. Logo de cara, no controle do desmatamento e, a longo prazo, no investimento em tecnologias de redução de carbono na agropecuária.

"O Brasil é um dos países com mais condições de oferecer largas áreas para captura de carbono, seja via reflorestamento, seja via agricultura de carbono negativo, como no caso de agroflorestas. Poderíamos, ainda, marchar na perspectiva de avanço de energias renováveis", finaliza Alexandre.

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