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SP tem alta de 55% em temporais neste século; dá para reverter a situação?

Marginal Tietê, em São Paulo, ficou totalmente alagada por conta das chuvas que caíram em São Paulo  - HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO CONTEÚDO
Marginal Tietê, em São Paulo, ficou totalmente alagada por conta das chuvas que caíram em São Paulo Imagem: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO CONTEÚDO

Bárbara Forte e Paula Rodrigues

De Ecoa, em São Paulo

11/02/2020 13h20

Desde a tarde de domingo (9) não para de chover em São Paulo. Em um revezamento incansável entre garoas e temporais, a cidade amanheceu a segunda-feira contando prejuízo embaixo d'água: o rio Tietê transbordou e o Pinheiros atingiu o maior nível de água desde 1967. Em um dia, o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) afirmou ter chovido quase a metade do esperado para todo o mês de fevereiro — foram 113 milímetros, sendo a média mensal 250 milímetros.

Todas as notícias que pipocam sobre a situação da cidade parecem um grande flashback do que já foi falado no final de janeiro e começo desse mês sobre estados vizinhos, como os transtornos em decorrência das fortes chuvas em Minas Gerais ou o temporal que deixou o Rio de Janeiro em estado de atenção. De fato, recentemente, tem sido extremamente fácil encontrar informações sobre pontos de alagamento na região Sudeste após períodos de chuvas.

Um monitoramento realizado pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) revela uma crescente intensidade do volume de temporais na capital paulista desde os anos 60: foram três grandes precipitações (com mais de 80 mm de chuva em 24 horas) registradas entre 1961 e 1970; cinco, de 1971 e 1980; quatro, na década seguinte (1981 e 1990); nove grandes temporais entre 1991 e 2000 — mesmo número registrado entre 2001 e 2010. No levantamento mais recente, entre 2011 e 2020, a previsão é de que a década termine com uma média de 14 temporais com mais de 80 mm de chuva em um período de 24 horas.

Chuva em São Paulo será cada vez mais intensa  - Eduardo Anizelli / Folhapress
Chuva em São Paulo será cada vez mais intensa
Imagem: Eduardo Anizelli / Folhapress
Ou seja, só neste século, São Paulo teve um aumento de mais de 55% de chuvas intensas. O acompanhamento ocorre na estação meteorológica do Mirante de Santana, na zona norte.

Depois de ler isso, é possível que você esteja formulando alguma dessas perguntas na cabeça: Por que alaga tanto? Tem como culpar a quantidade de chuva? Seu vizinho que joga lixo na rua é um vilão? O piscinão que estão construindo ou prometeram construir no seu bairro vai ajudar? Como acabar com esses alagamentos? São muitas questões, então vamos lá.

O que aquecimento global tem a ver com isso?

Antes de culpar São Pedro por ter mandado tanta chuva, como fez o prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD), ao dizer que a "água vem do céu, não vem de incompetência administrativa", talvez seja uma boa ideia voltar algumas casinhas e entender melhor o motivo desta grande quantidade de água estar caindo no Sudeste.

É claro que fortes chuvas não são novidade. O que difere o momento em que estamos de episódios anteriores é a mudança no padrão desses temporais. Assim como o Inmet, o PMBC (Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas), em seu último relatório, apontou que chuvas com mais de 50 milímetros por dia acontecem de duas a cinco vezes na cidade de São Paulo. Até a década de 1950, porém, fenômenos como esse eram extremamente raros na capital paulista.

Segundo a urbanista Liza Maria Souza de Andrade, integrante do Grupo de Pesquisa Água e Ambiente, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UNB (Universidade de Brasília), as mudanças que percebemos nas grandes cidades têm relação direta com o aquecimento global, pois haverá cada vez mais variações na temperatura e, consequentemente, nas precipitações.

"Há lugares com mais chuvas, outros com menos. Ou quando vier um temporal, será com maior intensidade, como aconteceu recentemente em Belo Horizonte [e nesta segunda-feira em São Paulo]. A gente vai começar a não ter mais o controle da situação porque está perdendo a sazonalidade do ciclo da água", afirma a especialista, que também é responsável por um estudo sobre cidades sensíveis à água e soluções para torná-las sustentáveis.

Isso significa que esses períodos curtos de forte chuva passarão a acontecer mais frequentemente por causa do aumento da temperatura da Terra, causado por uma grande concentração de GEE (gases de efeito estufa) na atmosfera.

Tendência é que chuvas mais intensas provoquem alagamentos como o que ocorreu em SP  -
Tendência é que chuvas mais intensas provoquem alagamentos como o que ocorreu em SP

Um estudo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo), divulgado em 2019, apontou o aumento de 1.1º C na temperatura média da região Sudeste entre 1955 e 2004. Para os pesquisadores, isso deve-se ao efeito estufa causado por ações humanas durante o período.

"À medida que a gente mexe na atmosfera o ciclo é alterado. Conforme retiramos a vegetação, o ciclo na terra - no caso da infiltração do solo - também se modifica. As áreas urbanizadas vão sofrer muito com por causa da mudança de sazonalidade e intensidade das chuvas", explica.

Rios foram cimentados

O geógrafo Luiz Campos Jr explica que, antes de mais nada, é preciso entender que São Paulo, por exemplo, foi construída em cima de uma grande colina. É como se o centro histórico da capital ficasse no topo de um barranco. Se chove na parte de cima, a água precisa escoar para o local mais baixo.

"Só que a cidade era um lugar cercado de rios e áreas verdes com um solo que absorviam essa água. Hoje, nós estamos em uma das maiores áreas contínuas impermeabilizadas do mundo, isso significa que a gente cimentou tudo e a água não consegue mais penetrar no solo," explica.

Belo Horizonte também foi construída em uma região envolta de afluentes - era um sítio que abrigava 14 cursos de água. O geógrafo Alessandro Borsagli conta que, com exceção do Ribeirão Arrudas, todos os outros rios foram adaptados à planta geométrica da nova capital.

"A cidade foi planejada em cima desses rios, que foram adequados ao tecido urbano à medida que a cidade foi evoluindo. Então, vieram as canalizações. As enchentes existem antes da capital. O que ocorre é a potencialização desse fenômeno por causa das intervenções urbanas."

Tanto Luiz quanto Alessandro têm projetos parecidos em São Paulo e Belo Horizonte. Os dois pesquisam sobre a história dos rios urbanos. Sabe os famosos rios Tietê ou Pinheiros? Não é deles que estamos falando aqui. São, na verdade, os cursos de água que estão embaixo das calçadas, ruas, casas, praças, parques, e tantos outros espaços da cidade onde você caminha e nem deve imaginar que estão ali. Na capital paulista, Luiz co-criou o Rios e Ruas. Já em BH, Alessandro é o escritor de "Rios Invisíveis da Metrópole Mineira"(2017).

Os dois geógrafos afirmam que o problema foi a ocupação de construções urbanas em beira de rios, onde naturalmente inunda. Por exemplo, pode parecer difícil de lembrar, mas o rio Tietê ainda é um rio. E isso também significa que, com um grande volume de chuva, ele vai transbordar. Acontece que, atualmente, o único espaço que deixamos para essa água transbordar, é a pista da marginal. Esse acúmulo de água em áreas urbanas que não tem como ser absorvida pelo solo é o chamado alagamento.

Enchente é um processo natural, alagamento é um problema social" Luiz Campos Jr., geógrafo e co-criador do Rios e Ruas

Quando enchente vira alagamento

O Rios e Ruas estima que a cidade de São Paulo tenha coberto cerca de 30% dos 4.900 km de cursos de água existentes no município. Já em Belo Horizonte, Alessandro Borsagli trabalha com a estimativa de 200 km de rios canalizados. Os rios que tinham formas variadas, passaram a correr de forma reta por causa das canalizações. Uma tentativa de tirar a água do local onde ela caiu de forma mais rápida, evitando transtornos para a vida urbana.

"Os projetos de urbanização do passado visavam canalizar os rios para acomodar melhor o sistema viário. Grande parte das cidades do Brasil tem os rios canalizados e áreas de fundo de vale ocupadas. Com chuvas fortes, a tendência é encher essas áreas," explica a urbanista Liza Maria.

Pode-se dizer, então, que todos os processos para impermeabilizar o solo da cidade foram, na verdade, projetos. A urbanista e doutora em ciência ambiental Luciana Travassos vai além e diz que foram projetos desejados pela cidade.

Ela explica que a prioridade nunca foi preservar o meio ambiente para evitar que alagamentos como o de ontem, em São Paulo, ou os de Minas Gerais. Especificamente nas grandes metrópoles, o que imperou foi a ideia de privilegiar o deslocamento urbano, principalmente o realizado de carro.

Cidades grandes foram construídas sem pensar em drenagem -
Cidades grandes foram construídas sem pensar em drenagem
Para ela, o mais necessário não é só pensar em melhor soluções para lidar com o problema quando ele já está aqui, mas mudar toda a forma de pensar a cidade. É entender que o planejamento todo precisa ser modificado. E é algo que precisa ser compreendido rápido, para que exista uma melhor adaptação a mudanças climáticas.

"As cidades brasileiras não estão preparadas para quaisquer que sejam as consequências que as mudanças no clima terão em relação à água: seja a escassez ou excesso dela. Nós temos capitais pouco arborizadas, com tratamento inadequado das águas, estruturas de esgotos ausentes. Tem uma série de questões de infraestrutura que só vão piorar a vida do cidadão nesse novo cenário de crise climática."

Piscinões não são suficientes

Na primeira declaração sobre a situação dos alagamentos em São Paulo nesta segunda-feira (10), o prefeito Bruno Covas (PSDB) citou a construção de novos piscinões para lidar com o problema. A criação dos reservatórios é o carro chefe da prefeitura da cidade para combater os problemas de alagamento.

Porém, não tem sido suficiente. Para os especialistas ouvidos nesta reportagem o jeito como as cidades lidam com as consequências das fortes chuvas precisa ser repensado. "Dizer que vai resolver o problema das enchentes construindo piscinões é uma falácia. Com as construções desse reservatório, na verdade, estão impermeabilizando ainda mais a cidade," afirma o geógrafo e cofundador do Rios e Ruas, Luiz Campos Jr.

Ele explica que, apesar de acreditar que piscinões sejam boas soluções locais para pontos específico, na maioria dos casos são construções que só beneficiam o bolso de quem consegue contrato para construir e cuidar do local.

"As obras são extremamente caras, ocupam uma área muito grande da cidade e transformam o espaço em um não lugar, que as pessoas não podem utilizar em épocas de seca. Além disso, após períodos de chuva, muito lixo fica acumulado lá. Enquanto o piscinão existir, será necessário uma manutenção e limpeza. Ou seja, nós temos custos ambientais, urbanísticos e financeiros que são vitalícios."

Construção do jardim de chuva no Largo da Batata, na zona oeste de SP  - Arquivo Pessoal
Construção do jardim de chuva no Largo da Batata, na zona oeste de SP
Imagem: Arquivo Pessoal
E a solução, onde está?

Jardins de chuva, canais de infiltração, corredores ecológicos, tanques de armazenamento de água da chuva, telhados verdes - a lista de tecnologias criadas com o objetivo de ajudar grandes cidades a encontrarem soluções em meio aos alagamentos causados por temporais é extensa. Foi voltando-se à natureza que algumas regiões de São Paulo começaram a implementar mecanismos eficientes para reduzir os impactos das chuvas.

O ambientalista Nik Sabey é um dos precursores na implementação de jardins de chuva na capital paulista. Tudo começou com o plantio coletivo de árvores na região de Pinheiros, na zona oeste, por meio de mutirões, até que ouviu falar no termo pela primeira vez.

Um dos primeiros Jardins de Chuva foi construído em Pinheiros pelo ambientalista Nik Sabey -
Um dos primeiros Jardins de Chuva foi construído em Pinheiros pelo ambientalista Nik Sabey
"A solução parece simples, até óbvia. Os jardins captam a água da chuva, filtram, retendo parte dela, e separam a água da sujeira. Se uma latinha fosse jogada na rua e um temporal começasse, ela seria levada direto para os rios. Quando há o jardim, essa lata para no caminho", conta.

Com a ajuda da comunidade, Nik se aprimorou e desenvolveu 20 jardins que ajudam a combater as enchentes. O trabalho, que começou a ser feito em rotatórias do bairro de Pinheiros, foi sendo espalhado por Vila Madalena, Cidade Tiradentes, entre outros locais da cidade. "Não é caro, pelo contrário. Basta ter um jardim convencional, numa casa, por exemplo", defende o ambientalista.

O mais importante é provocar as pessoas a mudarem o olhar. A chuva precisa ser vista como protagonista e aliada, não como vilã"Nik Sabey, ambientalista

Em outros países, como a Austrália, há um programa nacional de melhoria da reputação das cidades por meio de ações como a de Nik, em São Paulo. Por lá, segundo a urbanista Liza Maria, há o que eles chamam de rede distribuída. "Você tem várias etapas em que a água vai infiltrando e sendo armazenada em vez da água chegar das enxurradas e seguir para os cursos de água. Você vai freando sua velocidade da água com um conjunto de técnicas", explica.

Segundo a especialista, o correto seria fazer o mesmo com com todas as cidades brasileiras, visando uma infraestrutura ecológica.

Ela lembra, no entanto, que não há cidades mais sustentáveis sem que haja redução da pobreza. Uma alternativa seria levar as populações que vivem à margem, em cidades como São Paulo, para o centro, onde há mais edifícios abandonados do que demandas habitacionais, por exemplo. "É preciso fazer isso com a ajuda do governo", finaliza.

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