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Abraçaê: voluntários distribuem abraços grátis a candidatos do Enem

Lucas Velloso, idealizador do projeto Abraçaê, distribui abraços grátis a candidatos e candidatas do Enem em São Paulo - Rômulo Cabrera/Ecoa
Lucas Velloso, idealizador do projeto Abraçaê, distribui abraços grátis a candidatos e candidatas do Enem em São Paulo Imagem: Rômulo Cabrera/Ecoa

Rômulo Cabrera

De Ecoa

04/11/2019 12h44

Em momentos de aflição, quem não quer um carinho ou uma frase de apoio? Pois foi isso que um grupo de voluntários do projeto Abraçaê ofereceu aos candidatos que, neste domingo (03), prestaram a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino de Médio) nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em todo o país, mais de 5 milhões de estudantes participaram do primeiro dia de provas, em que foram aplicados os testes de linguagens, ciências humanas e redação.

Em meio à muvuca de pessoas que se concentrou em frente ao prédio da UNIP (Universidade Paulista), na rua Vergueiro, na capital paulista, um grupo de seis pessoas distribuiu abraços grátis e palavras de incentivo aos mais nervosos.

O idealizador do projeto, Lucas Velloso, de 27 anos, desfilava com um cartaz em mãos. Nele, estava escrito: "O que você deseja receber hoje?". Mais abaixo, cinco alternativas: "um abraço; um sorriso; um elogio; uma mensagem de incentivo; todas as alternativas anteriores."

"Mas, se eu pedir um abraço, vou chorar", confessou uma garota que, antes de seguir andando, cedeu. "Um 'boa sorte', tem?", perguntou outro, que corria para não chegar atrasado. "Eu estou ocupada agora, mas adorei a iniciativa", justificou uma jovem, que voltou a fuçar no aparelho celular.

Voluntários do projeto Abraçaê. Em pé: Isabela Bozza, Lucas Velloso e Beatriz Azevedo. Agachados: Arnaldo Carreto, Lydia Silva e Bianca Bomfim - Rômulo Cabrera/Ecoa
Voluntários do projeto Abraçaê. Em pé: Isabela Bozza, Lucas Velloso e Beatriz Azevedo. Agachados: Arnaldo Carreto, Lydia Silva e Bianca Bomfim
Imagem: Rômulo Cabrera/Ecoa

"As reações das pessoas são muitas", conta Velloso, que é professor auxiliar do ensino fundamental e estudante de pedagogia. "Algumas acham que estamos pedindo algo em troca, como dinheiro, e se fecham. Outras, por outro lado, entram no espírito da coisa e se abrem às possibilidades, ao abraço, à conversa descompromissada. O nosso trabalho é tentar entender esses sinais e ajudá-los de alguma forma."

Foi o caso de André Tomioka, 17, estudante do terceiro ano do ensino médio e que estava prestando pela segunda vez o exame. "Mesmo tendo feito inúmeros simulados na escola nos últimos dois anos, não consigo disfarçar o nervosismo, né?", brincou, enquanto mostrava as mãos trêmulas.

"Faz o seu melhor, cara. Vai dar tudo certo", desejou-lhe Velloso, antes de continuar sua peregrinação com os demais candidatos e candidatas daquela unidade.

Entre os voluntários da Abraçaê, estava também o professor de história e geografia da rede pública de São Paulo, Arnaldo Carreto, 44, que, ao oferecer acolhimento, diz receber algo em troca também.

"Fazer parte disso me trouxe um sentimento de gratidão, de missão cumprida, sabe? Um sentimento de brasilidade que não sei explicar, ainda mais em tempos sombrios como estes, quando o conhecimento é tratado com cada vez mais desdém", diz o professor.

Lydia Silva, voluntária do projeto Abraçaê - Rômulo Cabrera/Ecoa
Lydia Silva, voluntária do projeto Abraçaê
Imagem: Rômulo Cabrera/Ecoa
Gentileza gera gentileza

A Abraçaê pretende distribuir afeto para todo mundo, não apenas para candidatos de provas. "Acreditamos que um simples ato de gentileza como esse pode mudar o dia de uma pessoa e ela, por consequência, será capaz de mudar o dia de outras pessoas, como numa grande corrente do bem", conclui Velloso, que desde julho vem distribuindo abraços por aí.

Já foram feitas mais 20 ações, entre avenidas da capital, parques, hospitais, escolas, centros de reabilitação, museus e metrôs. O objetivo, agora, é expandir as atuações para outros estados do Brasil. No mês que vem, estão prometidas intervenções em Santa Catarina e na Bahia.

"Vivemos em uma sociedade que não tolera o fracasso. Somos incentivados, desde pequenos, a sermos os melhores. No caso do Enem, como os candidatos ficam muito tensos, estressados, acreditamos que esse tipo de acolhida seria bastante bem-vindo", afirma Velloso.

Lucas Velloso é educador do ensino básico e estudante de pedagogia. Ele idealizou o projeto Abraçaê em julho deste ano - Rômulo Cabrera/Ecoa
Lucas Velloso é educador do ensino básico e estudante de pedagogia. Ele idealizou o projeto Abraçaê em julho deste ano
Imagem: Rômulo Cabrera/Ecoa

O idealizador do Abraçaê cita dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) para justificar a importância de seu trabalho: "Estamos entre os países com os maiores índices de depressão e ansiedade das Américas."

De fato, um levantamento publicado pela organização em 2017 coloca o Brasil no segundo lugar das nações americanas com maior prevalência de depressão, atrás apenas dos Estados Unidos. Por aqui, 5,8% da população sofre da doença, o que significa mais de 11,5 milhões de pessoas.

"Buscamos acolher o maior número de irmãos e irmãs que farão a prova neste domingo. Nosso objetivo com isso é, mesmo com um gesto tão pequeno como um abraço, tentar reduzir a ansiedade e a tensão dessas pessoas", explica Velloso.

No mundo, pode até faltar "amor e interpretação de texto", como diz o blogueiro do UOL Leonardo Sakamoto. Mas, se depender dos voluntários do Abraçaê, para os candidatos do Enem, pelo menos um dos dois problemas pode estar resolvido.

Ecoa