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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Há uma revolução silenciosa nas universidades. O Brasil vai aproveitar?

Candidatos fazem a prova da Fuvest, na Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo (SP) - Ronaldo Silva/Futura Press/Estadão Conteúdo
Candidatos fazem a prova da Fuvest, na Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo (SP) Imagem: Ronaldo Silva/Futura Press/Estadão Conteúdo

Rodrigo Ratier

27/06/2022 06h00

Há uma mudança profunda no ensino superior brasileiro. Ela não tem nada a ver com propostas eleitoreiras sobre cobrança de mensalidade em instituições públicas, nem com supostas denúncias de doutrinação de quem, no fundo, lucra política ou economicamente ao manchar a reputação das universidades. Esses falsos debates escondem um trabalho silencioso e paciente, uma política pública que entra em vigor em 2023 e que tem o potencial de multiplicar - e muito - o efeito benéfico das universidades na sociedade.

A novidade atende pelo nome de extensão universitária. A rigor não deveria ser algo inédito, porque a extensão compõe, junto com a pesquisa e o ensino, a chamada "tríade acadêmica", que norteia a atuação das instituições de ensino superior. A Constituição estabelece que as três atividades devem ser indissociáveis. Mas, na prática, a extensão - que reúne projetos, cursos e oficinas, eventos e prestação de serviços da universidade à comunidade - sempre foi a perna mais magra e esquecida do trio. Não é o coração da educação (ensino) nem o que aponta para a inovação e dá prestígio (pesquisa). Mas isso está para mudar.

A partir de janeiro de 2023, todos os cursos de graduação do país devem dedicar 10% de sua carga horária para atividades de extensão. A alteração é uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) e teve prazos e diretrizes fixados por uma resolução de 2018 do Conselho Nacional de Educação. O impacto é enorme. Para um curso como jornalismo, com carga horária de 3 mil horas, isso significa que cada aluno deve dedicar 300 horas para a prestação de serviços à comunidade. Cerca de meio semestre de aulas. Multiplique esse total pelos cerca de 8,6 milhões de graduandos brasileiros para ter uma ideia do alcance da medida.

Os exemplos de atividades extensionistas são inúmeros: cursinhos populares preparatórios para a universidade, organização de eventos culturais, melhorias em moradias, assistência jurídica, vivências e prestação de serviços nas diversas áreas da saúde. "É a mais profunda reforma no ensino de graduação que vamos ter", afirma Sandra de Deus, professora de jornalismo e ex-pró-reitora de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "É uma mudança fruto do tensionamento nas universidades para que o conhecimento que elas produzem - ainda elitista - estabeleça um diálogo com os saberes dos movimentos populares".

A ideia é que a extensão modifique não apenas a comunidade atendida, mas também o próprio aluno em formação. "O que deve pautar as ações extensionistas e o próprio currículo é a formação de cidadãos", diz Sandra. A especialista defende que é por meio das atividades de extensão que os estudantes efetivamente conhecem a sociedade brasileira. "Há um encantamento. O aluno que vai para a extensão para além da sala de aula volta diferente, tem outro aprendizado, percebe o alcance mais amplo de sua futura profissão."

O desafio de chegar aos 33 mil cursos de graduação

Sandra afirma que um conjunto de Universidades Federais faz excelentes trabalhos de extensão. "Na UFRGS, ainda como pró-reitora de extensão, chegamos a contabilizar algo em torno de 2.500 atividades extensionistas." A tarefa, agora, é estender as boas práticas para os 33 mil cursos de graduação em mais de 2.300 instituições de ensino superior.

O desafio é grande, a começar pela implementação a toque de caixa. "Houve 3 anos para preparar os currículos, mas muitos cursos só se deram conta da mudança recentemente e estão discutindo de forma apressada", diz Sandra. Levar a extensão para os cursos a distância, modalidade que cresce vertiginosamente, é outra questão: como tirar os alunos de sala de aula se cada um estuda na sua casa? É possível, ainda, que ocorram mudanças apenas cosméticas no currículo, com a criação de disciplinas de extensão. "É um equívoco, porque extensão se faz na comunidade e com ela", pontua a especialista.

A potência da transformação está aí, mas dificilmente será pauta eleitoral - fruto do tratamento inconsistente sobre o tema educação na esfera pública. Espera-se muito dela, mas falta densidade na discussão das ações concretas - e que já estão na mão, como é o caso da curricularização da extensão. "Não sei se vamos ter candidaturas com suporte suficiente para apresentar esse tipo de debate. Para a educação, seria muito importante", finaliza Sandra.