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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Relatório retrata professor brasileiro como 'fornecedor de aula'

Ana Paula Bimbati/UOL
Imagem: Ana Paula Bimbati/UOL

15/11/2021 06h00

Que as condições de trabalho dos professores brasileiros estão longe do ideal é algo costumeiro de se dizer. Um estudo recente confere contornos mais nítidos às dificuldades e aponta caminhos para superá-las. Realizado pela Fundação Carlos Chagas (FCC) e pela organização D3E, o relatório Volume de trabalho dos professores dos anos finais do Ensino Fundamental traz uma comparação da docência em quatro países: Brasil, Estados Unidos, França e Japão. Como era de se esperar, o retrato brasileiro é o mais preocupante dos quatro.

A sondagem avaliou aspectos como forma de contratação dos professores, número total de alunos, carga horária e tempo disponível para planejamento e avaliação. "Decidimos focar esses temas pela percepção que eles não têm merecido a atenção devida", afirma Gabriela Moriconi, pesquisadora da FCC e uma das autoras do estudo. O relatório mesclou cruzamentos de bases de dados nacionais e internacionais com entrevistas a gestores e educadores dos quatro países.

Na comparação com as situações dos três outros países, os brasileiros são os que são os que mais precisam atuar em mais de uma escola (45%, contra 1,7% nos EUA, 4,7% na França e 2,7% no Japão), em mais de uma etapa de ensino (61%, contra no máximo 36% nos EUA e 0% na França e Japão) e em mais de uma rede de ensino (30%, exclusividade brasileira).

Parte significativa dos professores brasileiros têm elevado número de turmas — 44% dos docentes de Língua Estrangeira lecionam para mais de 10 turmas — e total de alunos — 14% dos professores de Matemática e 39% dos de Língua Estrangeira dão aulas para mais de 300 estudantes. Embora as cargas horárias semanais dos brasileiros em uma escola sejam as menores do grupo de países (36h, em comparação com 47h nos EUA, 39h na França e 59h no Japão), somos líderes no quesito tempo em sala de aula (28h, mesmo valor dos EUA e superior às 19h na França e 18h no Japão).

As consequências das condições desafiantes de exercício da docência vão de tempo gasto em deslocamento à menor atenção aos alunos, da escassez de atividades extraclasse a planejamento e avaliação mais frágeis. "É de se esperar que a qualidade do trabalho seja afetada. A visão é que os professores brasileiros são fornecedores de aula e não docentes efetivamente integrados a uma unidade escolar", diz Gabriela. A pesquisadora aponta um equívoco em reduzir a atividade docente à sala. Há ricas possibilidades de atuação na escola que não se restringem às aulas: reuniões de equipe, atendimento a pais e alunos, cursos de formação continuada, projetos extracurriculares e atividades de mentoria. "Todas essas são ações que ampliam a sensação de pertencimento do docente à escola", diz Gabriela.

Parte das diferenças se explicam pela estruturação dos sistemas de educação. Nos EUA, França e Japão, as escolas funcionam em turno único. Professores trabalham em tempo integral. "No Brasil, as redes contratam em tempo parcial porque a grande maioria das matrículas são desse tipo. Muitos acabam dobrando a carga."

Embora a questão salarial não tenha sido objeto do estudo, Gabriela diz que não há como separá-la da discussão sobre condições de trabalho. "São os baixos vencimentos que fazem os professores assumirem cargas volumosas em mais de uma escola", diz Gabriela. "Os salários deveriam ser compatíveis com outras profissões de mesma formação."

Também é fundamental prever tempo na escola fora de sala para que o docente possa planejar, avaliar e participar de atividades extraclasse. No Japão, por exemplo, uma das funções extras que um professor assume no equivalente ao Fundamental 2 é acompanhar e orientar uma turma em específico.

Há exemplos virtuosos no próprio Brasil. O Distrito Federal possui jornadas de 40 horas com reserva de um terço da carga horária fora da sala de aula, como pede a chamada Lei do Piso. As redes de Espírito Santo, São Paulo e Ceará têm a figura do professor coordenador de área, responsáveis pela articulação do ensino de uma disciplina nas diferentes séries. O Ceará, inclusive, possui o professor diretor de turma, que orienta estudos e leciona uma disciplina de formação para a cidadania. Como se vê, há pouco espaço para voluntarismo. As soluções para o problema precisam ter um caráter coletivo. "E sistêmico, considerando conjuntamente aspectos como jornada de trabalho, carga horária extraclasse e remuneração", finaliza Gabriela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL