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Rodrigo Ratier

REPORTAGEM

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"É pagar aluguel ou comida", diz padre Lancellotti sobre busca por marmita

Retrato do padre Júlio Lancellotti durante distribuição de alimentos na Paróquia Sao Miguel Arcanjo, no bairro da Móoca - Ricardo Matsukawa/UOL
Retrato do padre Júlio Lancellotti durante distribuição de alimentos na Paróquia Sao Miguel Arcanjo, no bairro da Móoca
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Rodrigo Ratier

10/05/2021 06h00

"Crise humanitária em São Paulo". Legenda recorrente nas postagens do padre Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua, a frase descreve imensas filas à espera de comida no centro de São Paulo. Da cozinha industrial da Casa de Oração do Povo de Rua, no bairro na Luz, saem até 3 mil marmitas diárias. Distribuídas em pontos como a praça Princesa Isabel, a 500 metros da cracolândia, as refeições atraem um grupo variado de pessoas que Lancellotti define como "refugiados urbanos". "São pessoas que lutam pelo almoço sem saber se vão jantar. Perambulam pelas 'bocas de rango' da região e, quando não encontram nada, precisam procurar no lixo".

A demanda por alimentação aumentou, e a pandemia não foi o marco inicial. Lancellotti situa no "golpe de 2016" um processo de empobrecimento progressivo que levou mais e mais gente a morar nas ruas do centro de São Paulo. A estimativa de 24 mil pessoas vivendo nas vias públicas caducou. "Tanto que a prefeitura está contratando um novo Censo da população de rua. O governo não conhece esse universo." Contingente em expansão — o padre estima que a distribuição de comida na rua tenha aumentado até 30% neste ano — e cada vez mais diverso. Além de pessoas em situação de rua, a distribuição de marmitas tem atraído cada vez mais moradores da região central. Nas palavras de Lancellotti, são pessoas que precisam escolher entre "pagar o aluguel ou comprar comida".

"São aposentados, gente que perdeu o emprego ou ficou sem o auxílio emergencial, pessoas prejudicadas pela inflação dos alimentos e que agora não consegue assumir essas duas despesas básicas. Alguns precisam bancar vaga em pensão ou quarto e precisam de apoio para a alimentação". O pároco diz que a oferta da prefeitura é insuficiente — daí a necessidade de ações como a da pastoral que, segundo ele, "sobrevivem sem um tostão do poder público". Por ali, a solidariedade não rareou no segundo ano da pandemia. "Ao contrário, observamos uma oscilação positiva na doação de cestas básicas. O drama da volta da fome impactou muito a opinião pública".

Há aspectos que passam despercebidos por quem não vive de barriga vazia. A mais evidente é o tamanho das porções. "Para quem não sabe quando vai comer de novo, há uma grande diferença entre um prato de 200 gramas e de 500 gramas, que é o que fazemos da pastoral", diz Lancellotti. Cardápios de opção única são outro complicador. Pessoas com problemas de dentição, que se beneficiariam de dietas mais líquidas, acabam comendo o pouco que conseguem do que estiver disponível. Outros pontos são a validade dos alimentos e seu valor nutricional. De olho nesses aspectos, a cozinha da Casa de Oração produz um pão mais doce e gorduroso, bom para consumo em até 5 dias. O açúcar mascavo e o cacau dão energia, a farinha integral ajuda na saciedade, a manteiga atua como conservante. Por dia, a fornada chega a 1.500 pães.

E há a negação do prazer. "Comer é um ato prazeroso, mas essa dimensão é interditada quando não se pode escolher do que se alimentar". Lancellotti fala do fastio com a onipresente salsicha e da alegria quando o cardápio inclui sardinha. "Eles pedem muito o 'peixinho na lata' como 'mistura' para acompanhar o básico: arroz, feijão, macarrão e farinha". O padre diz ter proposto a faculdades de nutrição que construam um cardápio que considere os gostos de quem vive na rua. O uso de álcool leva a uma perda no paladar e exige sabores mais picantes. As preparações, diz o pároco, poderiam considerar esses e outros aspectos da população atendida.

De volta ao dilema "ou o teto ou o estômago", Lancellotti encara as distribuições de comida como uma iniciativa incontornável diante da crise, mas insuficiente. "Não se pode considerar a questão da alimentação de forma isolada. É preciso combiná-las com políticas de locação social e de renda básica". Para o padre, é o clássico caso em que um gasto se transforma em investimento. A maioria da população de rua sabe cozinhar, e ter condições de fazê-lo em casa é um caminho para a construção da autonomia e saída da situação de vulnerabilidade em que se encontram. "Infelizmente, temos visto as coisas andarem no sentido oposto". E a fila aumenta

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Imagem: Arte/UOL