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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pela responsabilidade de incentivar a juventude a tirar o título de eleitor

Divulgação
Imagem: Divulgação
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

28/03/2022 06h00

Não posso negar que as últimas notícias sobre o número de adolescentes com título de eleitor ser o menor já registrado nos últimos anos me deixou aflita. Esse sentimento perpassa principalmente por entender a importância da participação política de todas e todos neste ano, que, insisto em dizer, é um ano decisivo para nós e para a democracia brasileira.

Lembro muito bem do dia que eu tirei meu título, ou até mesmo quando a Luyara, minha sobrinha, tirou o título. Ela tinha 16 anos e eram as eleições municipais, ano que a Mari se elegeu com a quinta maior votação. Fico refletindo sobre o porquê do desinteresse na política desses jovens. E acho que é sintomático de uma geração que passou nos últimos anos por crises de cunho político, econômico, social e sanitário, por um golpe que destituiu uma presidenta eleita do poder, e atualmente está passando por um governo que o tempo todo vai contra as instâncias democráticas e fragiliza o nosso sistema democrático. Uma geração que não pôde viver as diretas já, a redemocratização e a chegada de um proletário no poder que instituiu políticas públicas de redistribuição de renda, reparação e ações afirmativas.

Diante de todo esse contexto, é compreensível que o entendimento sobre a importância do voto fique perdido. Então, como estimular que jovens tirem seu título de eleitor e votem pela primeira vez? E mais: como incentivar que seja um voto consciente para o futuro do Brasil que queremos? É sobre isso também que venho refletindo sobre o que podemos fazer. Os dados evidenciam que não são apenas os jovens que têm tido esse distanciamento com a política. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), no Rio de Janeiro cerca de 700 mil pessoas estão com o título de eleitor cancelado. E o contexto do atual governo e das diversas crises colocadas são também pistas que nos levam a entender o motivo.

Nosso papel é de fomentar que as pessoas, em especial jovens, possam estar aptas e aptos para as eleições de outubro deste ano. Nos últimos dias, começou uma campanha intensa nas redes sociais para que jovens tirem seu título de eleitor. Entre os perfis, até a cantora Anitta já se manifestou. Coletivos e organizações, como o Levante Popular da Juventude, que fez um conteúdo mostrando como tirar o seu título de eleitor em 5 minutos, e a UNEAFRO, que vai fazer uma campanha ampla nos seus cursinhos pré-vestibulares para falar sobre a importância do voto e do título de eleitor, são algumas das organizações pretas e de base que estão nessa frente. Nós, pelo Instituto Marielle Franco, também fizemos um passo a passo explicando como fazer o título. É online, gratuito e rápido.

Na viagem que fiz pela Colômbia e pelo Chile, encontrando e conectando com movimentos negros e movimentos feministas, vi muitos jovens afrocolombianos e jovens feministas chilenas que estão lutando pelos seus territórios, pelos direito às suas vidas, a contar a sua história, por uma vida digna, pela sua liberdade, pela justiça racial e de gênero. É assim, vendo essa luta, vendo a esperança estampada nos olhos da juventude latinomericana, que acredito que é a juventude brasileira, em especial a juventude negra e de mulheres, que vai estar ocupando as ruas e lutando por um outro Brasil em 2023.

Nós, que já não somos mais tão jovens, temos a responsabilidade histórica de mostrar que os ventos da esperança estão soprando pela América Latina e pelo Brasil e que o exercício e o poder do voto passam por isso. Temos a tarefa de estimular que a nossa juventude vá votar e esteja à frente dos processos de transformação para os próximos anos. Então convido você, leitora e leitor desta coluna, que fale com a sua sobrinha(o), prima(o), irmã(o), colegas, amigas e amigos para que ele vá votar - de forma consciente - em outubro deste ano e compareça nas urnas. Nos vemos lá!