PUBLICIDADE
Topo

Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O ano de nossas vidas e um chamado para a esperança

O arcebispo Desmond Tutu ao lado da mulher, Nomalizo Leah Tutu, em foto de 1984 - AFP
O arcebispo Desmond Tutu ao lado da mulher, Nomalizo Leah Tutu, em foto de 1984 Imagem: AFP
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

03/01/2022 14h25

"Se você é neutro em uma situação de injustiça, você escolhe o lado do opressor"
Bispo Desmond Tutu

Eu não planejei que meu primeiro texto do ano de 2022 começasse com uma citação do bispo Desmond Tutu. Na verdade, vinha pensando em abrir meu ano com a reflexão de alguma intelectual negra. Mas no fim de 2021, nos últimos dias, perdemos uma das principais vozes contra desigualdades no mundo, e uma figura fundamental contra o apartheid e a perseguição de negros na África do Sul — o bispo sul-africano e vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1984, Desmond Tutu.

É claro que a principal frase que circulou nas minhas redes sociais foi sua fala icônica sobre injustiça, e quando falamos de injustiça nós geralmente pensamos em situações específicas e individuais, como alguém que foi acusado de um roubo mesmo sendo inocente, por exemplo. Neste ano o maior posicionamento que podemos ter nesse sentido sem dúvida será contra a injustiça que toda a população brasileira vem sofrendo desde que o atual presidente tomou posse em 2019. Essa é a maior injustiça que devemos enfrentar em 2022.

O desafio que está posto desde o primeiro dia do ano para nós é de nos posicionarmos firmemente contra qualquer tentativa de desrespeito às instituições democráticas, de novas violações de direitos humanos contra os cidadãos do nosso país. O desafio será conseguirmos derrotar o desemprego que tira o sono de milhares de famílias de Norte a Sul, derrotar quem flerta com ideias fascistas e que insiste em cultuar pensadores, imagens e pessoas que tanto nos feriram ao longo da história, como bandeirantes e traficantes de escravos. O desafio será não conceder ainda mais poder aos nossos inimigos e àqueles seus aliados, pessoas que nos últimos dois anos, com a pandemia de covid-19, riram da cara de familiares de mais de 600 mil brasileiros e brasileiras que perderam suas vidas. O grande desafio deste ano será reacender a esperança em cada coração, e retomar o país para todos nós.

Reconhecer e começar a agir nesse sentido não será uma tarefa fácil. Pelo contrário, para algumas pessoas isso pode significar apoiar quem também criticou nos últimos anos, como o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores. Mas enxergar suas contribuições para nosso país em um momento decisivo de nossa história e apoiar o retorno ao poder da única pessoa capaz de derrotar aquele que já tanto nos tirou será fundamental. Não me silenciei frente às situações de injustiças que vi o ex-presidente Lula passar: ir para a cadeia com um processo cheio de erros, conduzido por um aliado de seu principal adversário às vésperas das eleições presidenciais, sendo mais tarde foi inocentado de todos os processos, pela comprovação de uma ação política de juízes e promotores que estavam comprometidos com interesses próprios e não com a justiça, como era de se esperar.

Após a morte da minha irmã e os inúmeros ataques que sofri nas redes e até mesmo nas ruas, com minha filha criança no colo, percebi que me silenciar frente a situações de injustiça não irá me proteger. E desde então tenho usado minha voz para falar não apenas contra o que eu ou o que presos políticos sem a devida condução de processo legal passamos, mas para falar contra a injustiça que situações como essas representam para a vida de cada cidadão brasileiro.

Por tudo isso, hoje a minha primeira conversa com meus leitores é sobre algo que daqui a poucos meses irá mudar nossas vidas. Apesar de muito se especular sobre uma possível candidatura minha, filiação partidária ou ação direta nas eleições, reafirmo aos meus leitores mais uma vez que não serei candidata nestas eleições, não sou filiada a nenhum partido político e todas as vezes que falo aqui sobre este tema, falo de um lugar que é muito parecido com o seu que me lê: o lugar de cidadã.

O meu lugar é de pessoa que sempre acreditou que a população deve decidir o futuro de seu país e que deve poder cobrar de seus governantes. Meu lugar é o lugar de uma mãe, uma mulher negra que tem duas crianças e que preza todos os dias pelo futuro delas, que pensa sempre como garantir que o mundo seja melhor quando elas estiverem adultas. Meu lugar é de uma pessoa que viu o quanto o desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS) potencializado nos últimos anos afeta nossas vidas, ao não conseguir atendimento para mim e ver familiares padeceram em unidades lotadas. É o lugar de uma pessoa que sabe quem a crise climática mais atinge quando temos chuvas desastrosas em todas as regiões do país, é o lugar de quem sabe o que é não ter saneamento, o que é ter medo do desemprego e de não conseguir garantir comida e educação para suas crianças.

Meu lugar é de quem não tem medo de rever decisões e escolher o que é melhor para o futuro do meu país. Isso requer coragem, e um pouco de esperança em meio ao descrédito da política. Hoje, mesmo com doações de cestas básicas para famílias em situação de pobreza, mesmo com apoio direto àqueles que pediram ajuda em tempos tão sombrios como os que vivemos nos últimos anos, eu sei que não há contribuição maior que eu possa fazer senão ousar ter coragem, independentemente do que possam pensar de mim e de novos ataques que eu possa sofrer, e reafirmar meu compromisso com um futuro de esperança para nossas crianças e de direitos para todos nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL