PUBLICIDADE
Topo

Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem medo do golpismo e mobilizadas frente a novas ameaças

No centro do Rio de Janeiro, manifestantes contrários ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se reúnem no "Grito dos Excluídos" - Marcela Lemos/UOL
No centro do Rio de Janeiro, manifestantes contrários ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se reúnem no "Grito dos Excluídos" Imagem: Marcela Lemos/UOL
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

13/09/2021 06h00

Na terça de 7 de setembro, data que tradicionalmente eu, minha irmã e nossos pais, junto a lideranças da Igreja Católica e de favelas nos reunimos para participar do Grito dos Excluídos, precisei ficar em casa. Meu sentimento naquele dia foi de preocupação. Preocupação por não saber ao certo o que poderia acontecer caso eu saísse de casa e fosse para as ruas, preocupação com minha sobrinha, filha da Marielle que estava nas ruas e preocupação por todas as amigas e amigos que foram disputar com uma extrema-direita o espaço que sempre ocupamos.

Mesmo não podendo ir às ruas, acompanhei e apoiei de casa e com preocupação, e hoje quero usar meu espaço nesta coluna para refletir os acontecimentos da última semana. O que aconteceu no feriado, com Bolsonaro fazendo três discursos em tom absolutamente antidemocrático, ameaçando o Supremo Tribunal Federal ao dizer de forma clara em plena avenida Paulista que "qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá" é um absurdo. Essa fala o enquadra, mais uma vez, em crime de responsabilidade, segundo nossa Constituição, e dá mais um motivo (entre tantos) para que seja aberto um pedido de impeachment contra o mesmo.

Mesmo assim, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, parece não se importar e está disposto a tudo para manter seu apoio ao governo Bolsonaro. Nada disso me surpreende, já que como falei em algumas colunas, o presidente da Câmara dos Deputados e toda a base de partidos políticos que vão do centro à direita, são igualmente responsáveis e coniventes com os atos que vimos na terça, dia 7 de setembro.

Logo após o episódio, a partir da reação da sociedade brasileira e dos chefes do poder judiciário, o presidente voltou atrás em seu pronunciamento e tentou diminuir o que havia dito, contando ainda com a ajuda do ex-presidente golpista Michel Temer (PMDB). A partir daí vimos acontecer o já conhecido jogo de morde e assopra do presidente.

De qualquer forma, nenhum pedido de desculpas em formato de carta poderá desfazer a ameaça que o mesmo tem representado para a democracia brasileira desde que foi eleito, e o peso que suas ações tem na vida de milhares de pessoas que lutam diariamente pelo que deveria ser essencial: saúde, trabalho, educação e valorização da vida.

Hoje, mais uma vez, nós, defensores de direitos humanos, ativistas e representantes do movimento negro brasileiro temos o dever não apenas de consolidar e apresentar o projeto político de país que queremos daqui para frente, mas também de garantir um ambiente para que ocorram as eleições onde nossas candidatas e candidatos poderão concorrer com condições justas.

É necessário seguirmos em um movimento que defenda a democracia brasileira e garantam as condições necessárias para sua efetivação, sem perder de vista a agenda política que defendemos, onde a proteção da vida, a participação popular e a equidade de gênero e raça estejam disponíveis para todos. É necessário alcançarmos esses objetivos sem perdermos de vista o que defendemos em prol de um suposto objetivo maior e sem aceitar alinhamentos com frentes que não compreendam e nem se comprometam com a vida das pessoas negras para o fortalecimento da democracia brasileira.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, o dia 7 de setembro caiu em uma terça-feira, não domingo. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL