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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O dia em que me encontrei com Lula

Anielle Franco e o ex-presidente Lula - Ricardo Stuckert
Anielle Franco e o ex-presidente Lula Imagem: Ricardo Stuckert
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

12/07/2021 06h00

Nas últimas semanas, tenho utilizado este espaço para refletir sobre o retrato da realidade brasileira que nos atravessa, quase sempre, de forma contínua. Desde o exercício de minha maternidade, ao projeto político das mulheres negras, das ações de combate ao vírus, a fome e os tiros que os corpos negros magnetizam no Brasil. Neste julho das pretas, o Instituto Marielle Franco, organização que lidero junto à minha família, tem produzido expertise, publicações e mobilizações em torno do tema de fortalecimento de mulheres negras, defesa da memória, legado e - principalmente - na construção de um imaginário incendiário onde nós possamos estar na frente das mudanças.

Foi este arcabouço coletivo que me motivou a estar com o ex-presidente Lula no último mês, em uma de suas visitas à cidade do Rio de Janeiro. Naquele encontro, organizado por dirigentes partidários do Partido dos Trabalhadores (PT), a ideia era reunir algumas das principais lideranças comunitárias do Rio na discussão sobre uma agenda política e pública para 2022. Imaginem, uma sala repleta de corpos negros e favelados que, por muito tempo, tiveram sua participação política negada pelos mesmos partidos políticos que - agora - identificam a necessidade de se impulsionar as "bases sociais" para guiarem os caminhos de transformação no país.

Sim, cara(o) leitora, foi nesta situação, num sábado ensolarado, que pude estar com Lula apontando as contradições e sinergias do discurso que acredito ser aquele que pode nos salvar de um Brasil de mortes, de desesperança e corrupção. A premissa a qual me preparei para discursar não nasceu de mim, quem dera eu diria, ela brota da construção histórica de mulheres negras como Sueli Carneiro, Vilma Reis, Benedita da Silva, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, entre tantas outras.

Foi minha referência Sueli Carneiro (2003) que ressaltou que o movimento de mulheres do Brasil é um dos mais respeitados do mundo e referência fundamental nos temas do interesse das mulheres no plano internacional, também é um dos movimentos com melhor performance dentre os movimentos sociais do país. É este movimento que se destaca pelas decisivas contribuições no processo de democratização do Estado brasileiro, que produziu e produz até hoje, inovações importantes no campo da promoção de políticas públicas e transformação social.

É neste repertório flexível de atuação e ressignificação da luta política brasileira, que Luiz Inácio Lula da Silva também impulsionou na sua campanha vitoriosa em 2002, de onde parti para dialogar naquele dia com - talvez - os responsáveis pelo desenho de um projeto com reais chances de derrotar o genocida que nos governa neste momento.

A preleção, aquele momento onde seu treinador reúne toda equipe para escolher os titulares e conversar sobre o futuro do jogo e dar as últimas instruções, é talvez o momento mais importante antes de se disputar um campeonato que pode mudar sua vida. Talvez este encontro que tive com o ex-presidente tenha sido a primeira ponte para o manual de instruções, liderado por mulheres negras e faveladas, que acredito que precisa ser seguido para a virada de jogo do Brasil.

O dia em que encontrei com Lula, foi o dia em que reforcei que a radical imaginação política das mulheres negras brasileiras é o caminho para colher os aprendizados e dificuldades do passado, impulsionando novos processos transformativos do futuro. A ponta de lança do reconhecimento das soluções para o nosso povo deve partir desse acúmulo ancestral, com nós no centro, na ponta e em todas as direções.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL