PUBLICIDADE
Topo

Anielle Franco

Conexões que inspiram

Crianças que participam do espaço Recreação Infantil Estrelinha, no Complexo do Alemão - Arquivo pessoal/Carolina Marinho
Crianças que participam do espaço Recreação Infantil Estrelinha, no Complexo do Alemão Imagem: Arquivo pessoal/Carolina Marinho
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

04/01/2021 04h00

Quero utilizar este espaço para demonstrar que é possível ocupar espaços acadêmicos com nossas vivências. Ingressei no mestrado em Relações Étnico-Raciais em 2019, um curso que desestabiliza a lógica colonial de que a academia só pode pertencer à branquitude, com 90% de alunos(as) negros(as), nossas vivências e narrativas se (re)conectam.

Ao cursar as disciplinas, conheci a Carolina Marinho, cria do Complexo do Alemão, filha de Rosangela Marinho, a famosa tia Rosangela, mulher preta de território. Nascida na localidade da Grota, primogênita de uma família de 10 irmãos pretos. Ela desde aos 11 anos se dedicou aos cuidados deles, assumindo precocemente a função de mãe. Tal fato dialoga com a pesquisa "Girlhood Interrupted: The Erasure of Black Girls' Childhood" feita em 2017 pela Instituição Georgetown Law Center on Poverty and Inequality que constatou que as meninas negras acumulam mais cedo funções de adultos, sofrendo o processo de "adultização", quando comparadas a meninas brancas.

Mesmo sofrendo um processo de "adultização", tia Rosangela utilizou da sua experiência para criar e subverter está lógica que impacta a vida das crianças negras. Isso porque, mesmo assumido "o papel da maternidade" aos 11 anos, cuidando de seus irmãos, ela só foi "mãe biológica" aos 27 anos, após muito planejamento.

Depois da gravidez, do nascimento de suas filhas e do fim da licença maternidade ela ficou desesperada, porque não tinha uma instituição ou uma pessoa na qual confiasse para cuidar de suas meninas para retornar ao trabalho. Diante desta angústia, Rosangela passou a pensar que a falta de acesso às creches era um problema recorrente na vida das mães faveladas.

Então, perante este cenário ela decidiu dedicar dois cômodos de sua casa, na área 5, no Complexo do Alemão para atender as mães solo da comunidade, oferecendo o serviço de alfabetização e atividades pedagógicas para crianças de zero a seis anos, possibilitando que estas mulheres-mães pudessem retornar a rotina de trabalho e aos estudos, não restringindo a vida da mulher a maternidade e garantido a esta crianças o direito à infância.

O espaço recebeu o nome de Recreação Infantil Estrelinha e atua há 31 anos no Complexo do Alemão.

No período da pandemia, as atividades na instituição foram suspensas e não foi aderida a educação à distância, porque os(as) alunos(as) não tem acesso a energia e a internet constantemente. Neste contexto de "matabilidade", que escancarou os abismos sociorraciais que atravessam a sociedade brasileira, tia Rosangela mais uma vez tentou reverter este quadro, e neste período junto a sua filha Carolina, passou a captar recursos para compra de cestas básicas para manter 100 famílias que permanecem sem trabalho ou em atividades informais.

Para além de alimentos, as cestas básicas da instituição vêm acompanhada de um ingrediente especial: os livros. Mensalmente, são distribuídas obras de literatura infantil que trabalham a valorização da negritude para as 153 crianças atendidas pela instituição. Esta iniciativa surgiu após relatos das mães sobre o alto índice de ansiedade das crianças e estopim disso foi quando um aluno subiu no telhado para " brincar".

Diante deste cenário preocupante, tia Rosangela sugeriu que sua filha Carolina postasse em suas redes sociais um pedido de ajuda sobre doações de livros e desenhos para colorir, a fim de promover um pouco de entretenimento para os(as) pequenos(as) na quarentena. Após o post, o escritor Otávio Júnior, vencedor do prêmio Jabuti, conhecido como livreiro do Alemão, entrou em contato com Carolina para perguntar se ela teria condições de administrar um clube literário na quarentena com o acervo pessoal do autor. Após esta proposta, Carolina e Rosangela aceitaram imediatamente e o clube literário foi batizado de Clube Literário Infantil Rosangela Marinho, em homenagem a pedagoga que alfabetiza há 31 anos em nossa favela.

A instituição continua recebendo doações e somando forças para se manterem vivas e fortalecidas. Comecemos o ano com histórias que nos movem e nos impulsionam a seguir em frente. Para entrar em contato com a escolinha, envie um e-mail.