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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Dependente conta como é tratamento com ibogaína: 'Faz repensar a vida'

Polêmica, ibogaína não é liberada pela Anvisa, mas uso é permitido em tratamentos específicos e prescritos por médicos Imagem: iStock

Do VivaBem, em São Paulo

11/01/2023 04h00

O tratamento da dependência química é complexo, e ainda sem medicações específicas contra muitas substâncias. Por isso, opções alternativas despontam como possibilidades. É o caso da ibogaína, derivada da planta africana iboga e tradicionalmente usada em rituais de iniciação da religião buiti, em países da bacia do Congo.

No Brasil, a substância não é liberada pela Anvisa, mas a agência permite importá-la para tratamentos específicos —principalmente para dependência química e depressão—, prescritos por médicos. Nova Zelândia e África do Sul têm o mesmo modelo de uso.

O economista André*, 52, já optou pelo tratamento três vezes. Ele convive com a dependência química há 20 anos e passou por ciclos de internações, medicamentos, terapia e grupos de apoio.

O primeiro contato com as drogas foi aos 19 anos. Primeiro a maconha, depois a cocaína. "Comecei com a cocaína de maneira mais comedida, de fim de semana, até que chegou o momento em que vi que queria usar mais."

A cocaína te reinsere socialmente, com uma potência muito forte. Você vira tagarela, fala sobre tudo e com todos. Ter aquela intensidade a noite inteira era um potencial fantástico, extremamente sedutor. E eu não fazia ideia do que estava se desenhando na minha vida.

André veio de uma criação "tradicional". Nunca quis se desviar do caminho e, quando começou com as drogas, ainda tinha a consciência de parar. Sabia a hora de voltar para casa, dormir e acordar descansado para trabalhar no dia seguinte.

Casou aos 27, e ficou com a esposa por três anos e meio. Um dos motivos da separação foi a dependência. O momento culminou com outros reveses: a morte precoce do pai, a saída da empresa na qual estava há 10 anos e a necessidade de voltar à casa da mãe —o que a ajudou a descobrir a doença após encontrar drogas nas coisas dele.

"Fiquei extremamente recaído, deprimido e entrei no fundo do poço. Os próximos 14, 15 anos foram os mais difíceis da minha vida, pela imersão nas drogas. Tudo aconteceu, fiquei muito tempo desempregado, acabou o dinheiro, estava bem mal", diz o economista.

Na pior fase da dependência e sem resposta aos tratamentos, sua psicóloga mencionou a ibogaína.

O que é a ibogaína?

A iboga, um arbusto cujo principal derivado é a ibogaína Imagem: Reprodução
  • A ibogaína é um psicodélico, substância que causa mudanças nas sensações físicas e psíquicas.
  • As suas possíveis propriedades contra crises de abstinência foram identificadas em 1962 pelo jovem Howard Lotsof, de 19 anos. Ele era usuário de heroína e experimentou a ibogaína junto com amigos.
  • Após a experiência, cinco dos sete amigos ficaram sem usar drogas por pelo menos seis meses.
  • A substância também estava no antidepressivo Lambaréné, vendido na França entre 1939 a 1970. Mas o seu uso foi abandonado pelo risco de arritmias cardíacas.
  • Na década de 1970, os EUA classificaram a ibogaína entre as substâncias sem potencial terapêutico e com propriedades nocivas.

Ibogaína no Brasil

  • A substância não é liberada pela Anvisa, mas não é proibida.
  • A importação segue o modelo chamado de uso compassivo: apenas na dose indicada, justificada como uso pessoal, e não para fins comerciais.
  • A administração é via oral, com comprimidos. Deve ocorrer preferencialmente em hospitais e o acompanhamento leva entre 24 a 48 horas --tempo de duração do efeito da substância.

Quanto custa o tratamento?

  • Em geral, as aplicações custam entre R$ 10 e 12 mil. O valor flutua de acordo com o dólar e pode incluir o custo das sessões de terapia, exames e o acompanhamento durante o tratamento.

Tratamento exige preparação física e psicológica

  • Após o pedido, a substância costuma demorar entre 30 e 40 dias para chegar ao país.
  • Este tempo é ideal para preparar a pessoa para a aplicação.
  • Primeiro, porque o protocolo de clínicas especializadas determina abstinência de 30 dias --a reação com drogas pode causar complicações, inclusive morte. É normal testar a urina dos pacientes para comprovar a ausência de substâncias.
  • É recomendado fazer terapia antes, pois é comum reviver momentos traumáticos na experiência, sobretudo da infância e da adolescência.
  • O acompanhamento com psicólogos também é importante depois, para processar as informações.
  • Há ainda a realização de exames para avaliar as condições físicas, em especial cardíacas, explica o clínico geral Bruno Rasmussen Chaves, diretor médico da Clínica Beneva (SP).

Chaves estuda a ibogaína desde 1994, quando uma pessoa conhecida fez o tratamento nos EUA. Já atendeu mais de 2 mil pacientes no interior de São Paulo desde 1997. Ele também integrou um estudo da Unifesp, conduzido pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da instituição.

A pesquisa foi publicada em 2014 no periódico Journal of Psychopharmacology e acompanhou 75 dependentes que usaram a ibogaína, incluindo André. Após cinco meses, 61% permaneceram abstinentes.

O protocolo envolvia terapia depois do uso da substância, e os pesquisadores analisaram que a aderência ao acompanhamento foi essencial para o sucesso da intervenção.

Quem pode usar a ibogaína?

  • A recomendação da ibogaína é para quem já tentou outros tratamentos, até porque ficar 30 dias sem usar drogas antes de começar o tratamento é difícil.
  • Geralmente, quem adere ao protocolo já passou por ciclos de internação e está cansado desse tipo de abordagem.

O tratamento é vetado para pessoas com:

  • Problemas cardíacos, no fígado e no rim;
  • Históricos cerebrais, como de aneurismas e/ou derrames;
  • Doenças psiquiátricas: psicose, esquizofrenia e alguns tipos de bipolaridade;
  • O tratamento é descartado para quem não tem interesse nele.

Quais os riscos da ibogaína?

  • Arritmia de torção das pontas, potencialmente fatal.
Efeitos da ibogaína são descritos como um 'sonhar acordado' Imagem: iStock

'É como se fizesse 10 ou 15 anos de terapia em 12 horas'

André fez a aplicação de ibogaína pela primeira vez em abril de 2011. Conta que, durante a ingestão, ficou parado por 12 horas com receio de vomitar, já que os enjoos são um efeito comum e a aplicação é feita em jejum. Não queria perder nada do que a substância poderia proporcionar.

"No começo, a sensação física é como se você entrasse em uma centrífuga, tivesse uma crise de labirintite muito grande. Depois, vem o estágio de perguntas e respostas", diz André.

A experiência é descrita como um "sonhar acordado", ou onirofrenia no termo científico. Essa sensação revisita sentimentos e lembranças da vida toda. Cada pessoa descreve de uma forma, mas é comum retornar a momentos marcantes da vida, como telespectador da situação.

A minha experiência é como se tivesse um boneco sentado no cérebro. Ele pega um milhão de folhas e analisa cada uma. Vinham tópicos como: ir para bar, conversar com amigos, jogar conversa fora. E a pergunta: 'O que é isso pra você?'. A reposta: 'Lixo'. Foi um exame de consciência de uma vida toda em segundos.

O senso crítico é preservado e, ao ver a vida passar pelos olhos, é natural que a pessoa note os seus erros. Com isso, repensam comportamentos e pensamentos destrutivos, explica o psicólogo Bruno Ramos Gomes, que estudou a ibogaína no doutorado na Unicamp.

Isso facilita mudar hábitos e rever conceitos. "Era como se existisse outro eu dentro de mim me alertando sobre todos os comportamentos, no intuito de me prevenir. A ibogaína te faz repensar a vida toda. É como se fizesse 15 anos de terapia em 12 horas", afirma André.

O que acontece no corpo?

  • Médicos que estudam a ibogaína explicam que o uso aumenta a produção do hormônio GDNF (fator neurotrófico derivado da glia), que favorece as conexões cerebrais.
  • Isso é descrito como um "reset do cérebro", porque causaria reequilíbrio dos neurotransmissores (substâncias que fazem a comunicação entre os neurônios), como adrenalina, serotonina, noradrenalina e ocitocina. Cada um tem sua função e, quando estão em harmonia, promovem o bem-estar.
  • Especialistas também afirmam que o cérebro adota o padrão anterior ao início do uso de drogas.
  • Os efeitos induzem maior sensibilização às drogas. Por isso, há a indicação de reduzir a quantidade caso vá usá-las novamente, para minimizar os riscos de overdose.
Uso da ibogaína deve ser feito em ambiente hospitalar Imagem: iStock

Piloto automático contra recaídas se dissipou

André sentiu efeitos intensos da ibogaína por três anos. Diz que um piloto automático o acompanhava, como uma voz para indicar quais comportamentos eram arriscados. "Era uma proteção para lembrar que tudo o que você coloca para dentro molda a sua vida."

Com o tempo, isso se dissipou. Em 2016, ele teve alta da psicóloga. Foi um reforço à autoestima e, depois de anos de tratamento, permitiu-se relaxar. As sirenes diante de comportamentos perigosos deixaram de soar.

Se eu via um bar, que remetia a todo o vício, instintivamente eu atravessava pro outro lado da rua. Se assistia a um filme e surgia algo que remetia à adicção, eu mudava de canal. Após dois, três anos, acabava cedendo. Pequenas coisas começam a entrar e você não percebe.

Em 2017, após seis anos abstinente, André voltou a usar cocaína. Era uma fase em que os focos estavam no trabalho e na vida conjugal, ambos à frente da dependência.

Fui entrando em um ritmo de vida acelerado, trabalhando muito e, quando vi, eu experimentei novamente. Foi a grande besteira. Vinha a memória eufórica da droga, em nenhum momento associei à 'desgraceira', como chamamos entre os dependentes. Tudo o que era de muito ruim e dilacerante estava apagado, porque nunca fiquei tanto tempo limpo.

Ele usou a ibogaína mais duas vezes após a recaída. A primeira não surtiu o efeito esperado. André se internou para tentar cumprir o tempo de abstinência em 2022 e, em abril, fez o tratamento de novo. Ele não usou drogas desde então.

O clínico geral Bruno Rasmussen Chaves diz que o primeiro uso da ibogaína costuma ser eficaz, sem necessidade de reaplicação. Por isso, não há diretriz para casos secundários. "Mas quem tem quadro muito grave ou não respeitou o protocolo da primeira vez após 30 dias já é possível tomar novamente."

O que diz a Associação Brasileira de Psiquiatria

  • Procurada, a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) afirmou que são necessários mais estudos para assegurar a eficácia e a segurança da ibogaína no tratamento da dependência química.
  • A psiquiatra Carla Bicca, coordenadora da Comissão da Psiquiatria das Adicções da ABP, disse que a substância "ainda não tem estrutura científica que dê comprovação de uso ".
  • Segundo ela, também é preciso estabelecer melhor os protocolos para casos de readministração do tratamento.

É um tratamento que tem seus riscos, principalmente a toxicidade cardíaca. Os riscos ainda são maiores do que os benefícios, mas na área das dependência química sabemos que temos poucas medicações. Carla Bicca

*Nome alterado a pedido da fonte.

Fontes: Bruno Ramos Gomes, psicólogo, doutor em saúde coletiva pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas); Bruno Rasmussen Chaves, clínico geral e diretor médico da Clínica Beneva (SP); Carla Bicca, psiquiatra, coordenadora da Comissão de Psiquiatria das Adicções da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e mestre em ciências médicas pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra, doutor em psiquiatria e psicologia médica pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), professor da EPM (Escola Paulista de Medicina), da Unifesp

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