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Convenção de Bruxas retorna a Paranapiacaba: rituais, magia e até casamento

Convenção de Bruxas e Magos realizou sua 17ª edição Imagem: Reinaldo Ferrigno

Camila Eiroa

Colaboração para Universa

21/05/2022 04h00

Depois de dois anos adormecida por conta da pandemia, a Convenção de Bruxas e Magos, evento idealizado pela bruxa natural Tânia Gori, fundadora da Casa de Bruxa, invadiu Paranapiacaba, em São Paulo. Cerca de 15 mil pessoas durante os dias 13, 14 e 15 de maio lotaram as ruas rústicas do vilarejo. Entre chapéus de bruxa, capas pretas e vestidos medievais, diversas atrações e convidados aproveitaram a energia da Lua cheia de maio para celebrar uma espiritualidade diversa, inclusiva e baseada na natureza.

O evento, que está em sua 17ª edição, carregou um ar de saudosismo e de libertação, frente a um momento mais flexível em relação ao Covid-19. Palestras, rituais, aulas e muitos expositores esotéricos ajudaram a compor a aura já mística da cidade.

Procissão de abertura reuniu diversas bruxas e bruxos Imagem: Edna Barros

Entre as atrações estavam Claudiney Prieto, com uma palestra sobre Magia com Tarô, tema de seu último livro lançado; Adriano Camargo, conhecido como O Erveiro, que levou a sabedoria do reino vegetal e ervas para presentear o público; e Silvia Duarte, astróloga que palestrou sobre o segredo dos astros.

"Acredito que a Convenção é um evento único que atinge vários pontos importantes. O primeiro deles é uma desmistificação da magia. Depois, proporciona uma união entre as várias tribos a partir do respeito a visões diferentes. Por fim, colabora com o desenvolvimento econômico da vila de Paranapiacaba. Foram muitas emoções, muito trabalho e cuidado com todos", diz Tânia Gori, idealizadora do evento.

A Vila de Paranapiacaba

Paranapiacaba é um distrito de Santo André, cidade da Grande São Paulo. A vila, que fica no alto da Serra do Mar, foi construída para abrigar os funcionários da São Paulo Railway durante a concessão da estrada de ferro Santos - Jundiaí, em 1860. O vilarejo é cercado de Mata Atlântica nativa e tem suas construções históricas tombadas. Com casas de madeira, ruas calmas, instalações ferroviárias e até mesmo uma réplica do Big Ben fabricada no Reino Unido, o pequeno povoado reúne cerca de 3 mil habitantes e diversas lendas com um tom de mistério.

Big Ben brasileiro fica em Paranapiacaba (SP) Imagem: Edna Barros

A neblina recorrente passeia entre as partes alta e baixa da cidade, atravessando a ponte metálica destinada à travessia de pedestres e ciclistas. Além disso, a vila é cercada por unidades de conservação como o Parque das Nascentes e o Parque Estadual da Serra do Mar. Trilhas levam a paisagens estonteantes e cachoeiras de água cristalina. Além disso, há dois museus, sendo o mais famoso uma construção vitoriana onde morou o engenheiro superintendente da São Paulo Railway. Com diversas histórias assombrosas, o Castelinho foi cenário para performances de terror durante a Convenção.

Procissão à luz de velas

Como tradicionalmente acontece na abertura da Convenção de Bruxas e Magos, a primeira atração do evento foi uma procissão à luz velas conduzida por Graça Azevedo, a Senhora Telucama, suma sacerdotisa da Tradição Telucama, um templo de Bruxaria Tradicional natural da Bahia. Como de costume, a caminhada foi na sexta-feira. Desta vez, uma sexta 13.

Graça Azevedo, a Senhora Telucama e os bruxos do Templo Casa Telucama, da Bahia Imagem: Lázaro Freire

Durante a noite, moradores da vila de Paranapiacaba e frequentadores do evento, que lotaram as hospedagens, caminharam rumo a um grande caldeirão para abrir a egrégora, ou seja, a energia do evento. "As pessoas estavam bastante saudosas e carinhosas. Acredito que esses dois anos que adormeceram a Convenção trouxeram várias reflexões, fazendo as pessoas crescerem espiritualmente", diz Tânia Gori.

Sobreviventes da pandemia

Daniel Atalla, astrólogo e fundador da Escola Esotérica, que fica em São Paulo, é frequentador e colaborador da Convenção de Bruxas e Magos desde a primeira edição. Neste ano, esteve presente com um ritual de prosperidade que atraiu centenas de pessoas no sábado. "Acredito que, além de mostrar que tudo está para o bem e tudo busca a união e o amor, traz um grande manifesto contra a intolerância religiosa", diz Atalla, que acredita que o evento é importante para conscientizar e mostrar a diversidade de fé.

Abertura do evento foi na sexta-feira 13 de maio, pré-eclipse Imagem: Edna Barros

Para o astrólogo, foi emocionante realizar a Convenção depois de dois anos sem o evento. Sua escolha por levar um ritual ao som dos tambores, com risadas e diversão, foi para movimentar a energia que ficou entristecida durante o período pandêmico.

"Minha sensação é a de que temos que crescer e valorizar cada vez mais a vida. É o que eu falei no ritual: somos sobreviventes de uma pandemia pesada que, na verdade, não acabou. Por isso, devemos a cada dia ter mais consciência sobre o valor que a vida tem para todos nós. Afinal de contas, muitos perderam pessoas importantes. É importante dar valor a essas situações."

Eu vi gnomos!

Victor Valentim, fundador do Bosque dos Gnomos e figurinha carimbada na Convenção de Bruxas desde a adolescência, também esteve presente no evento com uma palestra sobre magia elemental, um ritual com dança circular para criar uma conexão com a terra e as forças da natureza, além de uma vivência para lá de descontraída: a torta na cara da bruxa.

Na gincana, um quiz mágico deveria ser respondido para que os participantes ganhassem prêmios. Caso a resposta fosse errada, a pessoa levava uma torta (bem gostosa, por sinal) na cara. Participaram da atração Amanda Celli, autora do livro Tempero de Bruxa, e Gabi Violeta, autora do livro Naturalmente Bruxa. Victor fez questão de abordar suas atrações de uma forma simples, para que as pessoas percebam que a magia faz parte de todo mundo.

Bruxas e bruxos reunidos para gincana com Victor Valentim Imagem: Divulgação - Bosque dos Gnomos

"Para mim, a Convenção é um evento maravilhoso porque desmistifica o preconceito com a bruxaria. A bruxa não é um ser maligno, ela é uma pessoa como todas as outras e que tem sua crença na natureza, principalmente. A sensação de voltar a Paranapiacaba depois de dois anos de pandemia foi indescritível! A Convenção é um evento que eu aguardo todo ano, um momento mágico, por isso sempre faço questão de estar presente", diz.

Teve até casamento

Beatriz Tereza, professora, e Mateus Ramos, enfermeiro, se casaram em uma cerimônia pagã durante a Convenção de Bruxas e Magos deste ano. A cerimonialista foi Adri Salles, celebrante de casamentos celtas e também consteladora familiar. Beatriz conta que ela e Mateus estavam com planos de se casarem em maio, no civil. No entanto, se depararam com uma série de burocracias que fizeram o sonho ir por água abaixo. "Mas, como a Adri disse, às vezes algumas coisas dão errado para outras darem certo", disse a noiva.

Segundo ela, o fato de serem escolhidos para realizar o casamento no evento foi um verdadeiro presente do universo. Afinal, ao abrir o Whatsapp para mandar mensagens para o cartório, Beatriz viu o anúncio da Casa de Bruxa procurando noivos para casarem na Convenção. Ela prontamente respondeu, passou por entrevistas com Mateus e foram os escolhidos para este momento.

Casamento de Beatriz e Mateus, conduzido por Adri Salles Imagem: Arquivo pessoal

"Foi uma sensação única, espetacular e mágica, envolvida pelo amor de todas as pessoas ali presentes. Nos casamos no domingo, dia de eclipse lunar total, envoltos de tudo que eu acredito ser divindade: a natureza. Fizemos os nossos votos em segredo, agradecemos o nosso encontro e nos comprometemos um com o outro. Tudo foi feito com muita responsabilidade, amor e cumplicidade."

A família de Mateus é evangélica e não esteve presente durante a cerimônia. Já a família da noiva marcou presença e a caráter: com chapéu de bruxa e um visual mais místico. "Eu sou espiritualista e me considero pagã, pois acredito em diversos deuses e na força da natureza. Minha família, além de saber, respeita minha escolha e participou de toda a cerimônia."

Adri Salles foi a cerimonialista do casamento celta Imagem: Arquivo pessoal

Moradores da Mooca, Beatriz é frequentadora antiga de Paranapiacaba e marca presença na Convenção de Bruxas há cerca de 15 anos. Já Mateus conheceu a charmosa vila durante a convenção. "Cada vez que eu vou lá, sinto uma energia única. A conexão com a natureza é muito forte. Meu parceiro nunca havia ido, mas sentiu uma familiaridade tão grande que era como se ele já tivesse pisado naquele lugar antes", revela a noiva.

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