Topo

Índia lembra 100 anos do massacre que mudou opinião de Gandhi sobre ingleses

13/04/2019 06h00

David Asta Alares.

Nova Délhi, 13 abr (EFE).- O avô de Mahesh Behal foi em 13 de abril de 1919 a uma praça da cidade indiana de Amritsar para protestar contra os colonizadores britânicos e retornou com duas balas no corpo, depois que as tropas do exército inglês dispararam contra uma grande manifestação, matando centenas de pessoas, fato que será lembrado neste sábado por ocasião de seu centésimo aniversário.

O massacre de Jallianwala Bagh, como foram chamados os fatos e que dá nome ao parque onde ainda são vistas marcas de disparos, se tornou um momento decisivo para a luta pela independência da nação asiática que fez o pacifista Mahatma Gandhi perder a fé no sistema legal inglês.

Mahesh Behal contou à Agência Efe como seu avô, Hari Ram Behal, se uniu a uma multidão de milhares de pessoas - seis mil, segundo o cálculo inglês da época, muito mais segundo historiadores indianos - no parque, apesar do toque de recolher imposto pelos ingleses.

O general de brigada britânica Reginal Dyer ordenou às suas tropas que abrissem fogo contra o grupo de manifestantes desarmados, provocando a morte de pelo menos 400 pessoas e ferindo outras mil.

"O carniceiro Dyer disparou tantas vezes que centenas de pessoas morreram", afirmou Behal.

O próprio Dyer indicou, durante a investigação britânica sobre o ocorrido, o número de cartuchos gastos: cerca de 1.650.

Os soldados dispararam diretamente contra uma multidão presa em um parque sem uma saída evidente, já que os soldados bloquearam a porta principal e algumas das secundárias permaneciam fechadas, o que provocou mortes por ferimentos de bala, mas também pela correria dos que tentavam se salvar.

Houve até os que se lançaram no agora conhecido como Poço dos Mártires para fugir do fogo dos fuzis britânicos.

Hari Ram Behal foi levado para casa com vida, explicou o neto, mas "assim que lhe deram água para tomar, sucumbiu aos ferimentos".

Naquele dia há cem anos, Dyer buscava sangue, disse à Agência Efe Kishwar Desai, autora de um recente livro sobre o massacre e administradora de um museu sobre a partilha do subcontinente.

A intenção não era dispersar a multidão e o general nem se incomodou em lançar uma advertência às pessoas reunidas, ressaltou.

Três dias antes do massacre, em 10 de abril, aconteceu um confronto entre soldados do exército britânico e manifestantes, no marco de uma agitação maior lançada por Gandhi na região de Punjab, onde se encontra Amritsar.

"Nesse mesmo dia, cerca de 20 ou 25 indianos morreram (...) por disparos dos ingleses. Então a multidão, bastante enfurecida, incendiou propriedades britânicas e também mataram cinco europeus, enquanto uma mulher foi atacada", explicou Desai.

Os ingleses queriam vingança e decidiram "dar uma lição" ao povo de Punjab, segundo a autora, o que terminou no massacre.

O número preciso de mortos varia segundo a fonte. Em um primeiro relatório elaborado pelos ingleses, foi afirmado que morreram 200 pessoas, enquanto um relatório de uma organização indiana cifrou as vítimas mortais em 379.

Por sua vez, Desai fixou os mortos em 502 depois que a equipe do museu examinou durante quase dois anos documentos e testemunhos históricos.

Jallianwala Bagh foi um "momento decisivo" para o movimento de independência indiano e fez com que Gandhi "se voltasse completamente contra os ingleses" ao descobrir a amplitude da tragédia.

De acordo com a autora, o político "costumava ser bastante admirador dos ingleses, acreditava que tinham um bom senso da justiça. Até esse momento não era hostil, mas o massacre mudou sua opinião".

Os eventos de comemoração do centenário foram limitados pelas eleições gerais indianas, que começaram na quinta-feira e se desenvolverão em várias fases durante as próximas seis semanas, pelo código de conduta do pleito que impede a participação de altos cargos do governo neste tipo de atos.

Uma marcha à luz das velas na sexta-feira e um evento oficial no sábado no qual é esperada a participação do vice-presidente indiano, Venkaiah Naidu, bastarão para honrar a memória dos mortos em Jallianwala Bagh, onde foi erguido um monumento como forma de homenagem.

O primeiro-ministro britânico David Cameron visitou Jallianwala Bagh em 2013 e classificou os fatos de "profundamente vergonhosos", enquanto a atual governante, Theresa May, expressou na quarta-feira seu pesar pelo sofrimento "causado".

Mas, por enquanto, e apesar do pedido do Partido Trabalhista britânico, a Índia não recebeu uma desculpa formal.EFE

Mais Tilt