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"Vazamento" de carbono aqueceu a Terra e favoreceu civilização, diz estudo

30/07/2018 15h28

Redação Central, 30 jul (EFE).- Um "vazamento" de dióxido de carbono pode ter sido responsável pelo aquecimento do planeta durante o Período Holoceno, que começou há cerca de 11 mil anos e se estende até o presente, devido à atividade do Oceano Antártico, o que teria propiciado o desenvolvimento da civilização humana, diz um estudo publicado nesta segunda-feira na revista especializada "Nature Geosciences".

Os oceanos são os depósitos mais importantes de CO2 atmosférico em escalas de tempo que vão de décadas a milênios, uma capacidade que se vê afetada pelo comportamento do Oceano Antártico, daí que um aumento de sua atividade "poderia explicar o misterioso calor dos últimos 11 mil anos".

O calor deste período estabilizou-se pelo aumento gradual de CO2 na atmosfera e é por isso que entender o motivo deste aumento é "de grande interesse", afirmou um dos autores do estudo da Universidade de Princeton (Estados Unidos), Daniel Sigman, que colaborou com o Instituto Max Planck de Química da Alemanha.

Embora os cientistas tenham proposto diversas hipóteses que explicassem o aumento de dióxido de carbono, até agora a causa ainda era desconhecida.

No entanto, o novo estudo indica que "um aumento da circulação no Oceano Antártico permitiu um vazamento de dióxido de carbono para a atmosfera", explicou Sigman.

As descobertas desta equipe de pesquisadores sobre as mudanças oceânicas também podem ter implicações nos prognósticos sobre como o aquecimento global afetará a circulação dos oceanos e quanto CO2 atmosférico será elevado às camadas superiores devido à queima de combustíveis fósseis.

Os especialistas sabem há anos que o crescimento e o declínio do fitoplâncton bombeia dióxido de carbono para as profundezas dos oceanos, um processo conhecido como "bomba biológica" e que se reverte perto dos polos, onde o CO2 é expulso para a atmosfera, explicou Sigman.

A equipe de especialistas descobriu que um aumento das aflorações do Oceano Antártico (o deslocamento vertical das águas profundas, mais frias e densas, para a superfície) poderia ser o responsável pela estabilização do clima do Holoceno, um período que começou 10 mil anos antes da revolução industrial.

A maioria dos cientistas coincide em afirmar que o calor do Holoceno foi "fundamental para o desenvolvimento da civilização humana, um período quente que supôs a redução das geleiras, abrindo espaço para os humanos, e com maior concentração de CO2 na atmosfera, o que tornou a agricultura mais produtiva.

Na atualidade, há correntes científicas que consideram que o Holoceno terminou e que estamos entrando em um novo período geológico denominado Antropoceno, que indica que grande parte das mudanças do planeta têm origem nas ações humanas.

Durante o Holoceno o clima foi "atipicamente estável" e com concentrações de dióxido de carbono na atmosfera que passaram de 260 partes por milhão no início do período para 280 partes por milhão na época tardia.

"Este pequeno, mas significativo aumento" de 20 partes por milhão teve - segundo o cientista - "um papel fundamental em prevenir um esfriamento progressivo durante o Holoceno, o que pôde facilitar o desenvolvimento de civilizações humanas complexas".

Em comparação, desde o início da industrialização e até hoje a concentração de CO2 na atmosfera passou de 280 para mais de 400 partes por milhão, devido ao uso de combustíveis fósseis.

"Se essas descobertas sobre o Holoceno podem ser usadas para prever aflorações do Oceano Glacial Antártico no futuro, isto melhorará nossa capacidade de prever as mudanças no CO2 atmosférico e, com isso, o clima global", considerou Sigman.