Hora de escalar o topo

Conhecida por ter bons celulares intermediários, Asus entra na briga com os tops. Mas Jonney Shih quer mais

Rodrigo Trindade De Tilt, em Valência (Espanha) *

A meta do simpático Jonney Shih, de 66 anos, é ousada: disputar espaço com iPhones, Galaxy S e outros grandes celulares, em um momento em que as chinesas abocanham avidamente parte importante do mercado premium.

No comando da Asus desde 1993, Shih acompanha a história da taiwanesa desde o começo, quando ela era uma fabricante de placas-mãe de PC. Agora, cinco anos após ter apostar pesado no setor de smartphones, acredita que chegou a hora de entrar no ringue dos peso-pesados, com o desafiante Zenfone 6.

É uma cartada importante para a companhia. Depois de oito anos sem falar com a imprensa brasileira, ele conta essa história ao Tilt e explica como pretende cavar espaço e iniciar uma nova fase para a empresa --e qual o lugar do Brasil nessas ambições.

Desafio é ser tão bom quanto Apple e Samsung, e tão barato quanto as chinesas

Estávamos a poucas horas de ele revelar o Zenfone 6 ao mundo quando sentamos para conversar. Shih tinha uma serenidade no olhar, mas gesticulava empolgadamente --eram frequentes os "claps" causados por suas mãos batendo nas coxas. Depois ficou claro o motivo da ansiedade: a Asus lançaria seu primeiro celular top de linha.

Processador, câmeras, tela, memória RAM... tudo estava alinhado com os melhores (e mais caros) aparelhos do mercado. Para se sobressair, a empresa preparou algumas surpresas, como uma bateria gigantesca (de 5.000 mAh) e uma câmera que "pula" da parte traseira para tirar selfies de ótima qualidade.

Mas a principal aposta da empresa é no custo-benefício --e quem já testou o Zenfone 6 (lá no exterior, já que ele não está a venda no Brasil) diz que o celular atende bem nesse sentido. O aparelho está em pré-venda na Europa por a partir de 500 euros, enquanto os principais concorrentes custam pelo menos 120 euros a mais.

Ele chega para brigar também em um momento que começam a surgir os celulares dobráveis. Samsung e Huawei já apresentaram aqueles que serão seus produtos comerciais --embora poucas pessoas tenham tocado no Galaxy Fold e no Mate X.

Nós só sentimos um gostinho do Zenfone 6, mas podemos dizer que o caminho é longo. A taiwanesa ocupa somente a 11ª posição e detém pouco mais de 1% do mercado global de celulares, apesar de ser a que mais cresceu percentualmente dentre o top 11.

Não precisa ser o dobrável, tops de linha ainda têm muito a melhorar

Tilt - Estamos na sexta geração de Zenfones. Eles evoluíram desde o primeiro, lançado em 2014. Como foi entrar nesse mercado e se manter competitivo diante de tantos grandes concorrentes?

Jonney Shih - Começamos com os smartphones mais de entrada. Percebemos que hoje muitos players conseguem cuidar desse segmento, então pensamos que tínhamos que voltar para a alma da Asus. Gostamos de empoderar o luxo, para todo mundo aproveitar.

Acho que os desafios mais fundamentais dos smartphones hoje são a tela completa e a câmera. Para a tela, você pode ver [na concorrência] o entalhe, a gota ou o furo. Tentamos uma abordagem diferente, que tem a ver com a câmera. O Zenfone 6 é uma forma para despertar os olhos do smartphone. E ainda há muito espaço para continuar melhorando a inteligência das máquinas, não só os olhos.

A bateria também é uma parte muito importante, junto, é claro, com o desempenho --não só o [Snapdragon] 855: devemos tornar tudo rápido e suave. Cavamos fundo no framework do Android para conseguir o melhor tempo de resposta, seja em comparação com o [Google] Pixel 3, o [Samsung] Galaxy ou o [Xiaomi] Mi 9. Esse é o desafio completo.

Estamos tentando avançar as quatro coisas [tela, câmera, bateria e desempenho] em conjunto. Em design thinking, chamamos isso de conduzir os parâmetros. Acreditamos que entregamos o melhor da história, a solução mais extraordinária, no Zenfone 6.

Tilt - As vendas de aparelhos estão estagnadas. Mas há um motivo para isso: a cada dia que passa, menos pessoas compram seus primeiros smartphones. Em vez de incluir mais gente nesse mercado, a proposta passa a ser convencer a trocar o velho aparelho. Como a Asus vê isso?

JS - Para o segmento de entrada, esse fenômeno realmente aconteceu, por isso preferimos atender ao segmento dos melhores, que acredito que não está saturado ainda. Todos os players grandes hoje ainda têm preços bem altos. Acreditamos que podemos dar um custo-benefício bem melhor para esse segmento --quase todos os recursos do melhor tipo estão lá [no Zenfone 6] e providenciamos um preço bem atrativo. Isso também é empoderar o luxo. [O aparelho está em pré-venda na Europa por a partir de 500 euros; os principais concorrentes custam pelo menos 120 euros a mais].

Tilt - A Samsung lançou seu celular dobrável, Huawei irá lançar outro. Qual é a sua opinião sobre as telas dobráveis que existem hoje? É nesse sentido que os smartphones vão evoluir?

JS - Os celulares dobráveis e o 5G são definitivamente uma tendência inevitável. Disso não tenho dúvida. Você tem a mobilidade e a tela grande, não importa se você abre para um lado ou para o outro [Shih gesticula, como se abrisse o celular dobrável]. Eu acredito que os celulares dobráveis são o caminho a se seguir, porque, depois que tudo for resolvido - o custo, a confiabilidade -, esse é único jeito de se livrar do tablet.

Agora, o mais importante é julgar o timing e momento correto. A Samsung tentou fazer um recall [do Galaxy Fold], por causa da falta de maturidade ou algo assim. Somos bem cautelosos com relação a isso.

A Asus aposta em aparelhos "ao gosto" do Brasil

Desde 2014, a Asus adota uma abordagem especial para o Brasil: investe em aparelhos produzidos aqui e adaptados ao gosto dos brasileiros --já são 5 milhões de unidades feitas no país. Quando lançou o Zenfone Max Shot, em março, ela foi além ao apresentar o primeiro aparelho 100% desenhado e produzido pelo mercado local.

Tanto empenho em nos agradar tem um motivo: somos o terceiro maior mercado para o setor de smartphones da empresa.

No Brasil, a Asus ganhou espaço com celulares com cara de top, mas preço de intermediário. Uma boa tática foi trazer para seus aparelhos as inovações mais interessantes depois que elas já tinham se popularizado em outros modelos -- o que garantiu o custo-benefício como diferencial.

Isso aconteceu, por exemplo, com o Zenfone 5, de 2018, que era a cara do iPhone X (ou do "do Essential Phone, que fez isso antes", como disse na época o diretor global de marketing da Asus, o brasileiro Marcel Campos). Outro celular que chamou a atenção foi o Zenfone 3 Zoom, que tinha câmeras incríveis por menos de R$ 2.000.

Agora, mudou de tática com o Zenfone 6, que deve chegar ao Brasil somente no segundo semestre. A expectativa é que ele traga inovações próprias, mas mantenha o custo-benefício. Será que consegue? Para isso, teria de custar menos que o Huawei P30 Pro (R$ 5.499), o Xiaomi Mi 9 (R$ 3.999) ou qualquer aparelho da família Samsung Galaxy S10 (a partir de R$ 4.299). O recém-lançado LG G8S ThinQ (R$ 4.299) é outro aparelho a ser considerado nessa concorrência.

Futuro é da inteligência artificial, mas ela não vai matar humanos

Tilt - Às vezes, parece que nem percebemos que a inteligência artificial está nos ajudando. Ela já nos ajuda mesmo, está sendo implementada de um jeito eficaz, ou isso é algo para o futuro?

JS - Esse é um bom jeito de pensar sobre inteligência artificial, porque as pessoas pensam que a inteligência artificial vai matar humanos. Será como foi na revolução industrial --todos acreditamos que essa foi uma revolução muito importante, que serviu como uma extensão do poder humano. Dessa vez [com a inteligência artificial], é uma extensão da inteligência.

Por trás disso está o avanço da modelagem estocástica e da álgebra linear, esse tipo de matemática. Chamamos isso de descida de gradiente estocástica (SGD, do inglês stochastic gradient descent). É isso que nos fez descobrir muitas coisas que podem ser feitas por uma máquina --como os [softwares de inteligência artificial] AlphaGo e AlphaGo Zero [da empresa DeepMind, criados para jogar o "xadrez chinês" Go], que, sem experiência humana, podem vencer um campeão. Esse tipo de máquina tem uma função muito restrita e clara, com milhões de parâmetros e treinamento de big data para tentar alcançar um objetivo.

Por causa desse tipo de matemática, após três ondas de inteligência artificial, chegamos ao avanço --e não importa se na visão, reconhecimento de voz ou processamento linguístico natural, essas são as três áreas mais importantes.

Quando pensamos na direção autônoma, por exemplo, isso ainda é de "baixo nível", porque está limitado à visão e fala. Falta alcançar um nível mais alto de autonomia para realmente chegar à chamada inteligência artificial geral. Isso ainda está muito distante. Então não precisamos nos preocupar com a máquina que mata humanos.

Tilt - No futuro, o smartphone se tornará ultrapassado? Você imagina-o sendo substituído por dispositivos como óculos de realidade mista, que respondem por comando de voz?

JS - Isso vai, na realidade, contra o que eu acredito. Os smartphones vão continuar sendo uma das máquinas mais importantes para a nova era, inclusive com a realidade mista. Há muito espaço para o smartphone evoluir, com sensores 3D e colaborando com a realidade mista, por exemplo, nos óculos. Mas talvez o processamento fique baseado no smartphone. A Apple está fazendo essa abordagem, que talvez seja a mais apropriada, até esse momento, na minha visão.

Ainda há muitas coisas em que a inteligência da máquina pode nos ajudar. Temos mais de 500 engenheiros dedicados à inteligência artificial, por isso que estamos otimistas o que os smartphones ainda podem oferecer. Pensamos que há muito espaço, estou bem otimista.

Curiosidades sobre a Asus e Shih

Divulgação/Asus Divulgação/Asus

A Asus foi fundada em abril de 1989 por quatro engenheiros que trabalhavam na Acer e largaram tudo para criar uma startup. Foi justamente a partir de um papo com Shin, então chefe de pesquisa e design da gigante dos PCs, que o quarteto teve a iniciativa.

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Eles saíram para uma empreitada de sucesso, mas Shih, a pedido do CEO da Acer, ficou. Apesar disso, providenciou 60% dos fundos para que a startup saísse do papel. E ela logo se tornou um sucesso fabricando placas-mãe para computadores da IBM.

Divulgação/Asus Divulgação/Asus

Só em 1992, Shih finalmente se juntou ao grupo para não sair mais da Asus. Naquele ano, a empresa firmaria sua parceria oficial com a Intel. De uma das maiores fabricantes de placa-mãe do mundo, a Asus começou a fazer notebooks, periféricos e celulares.

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