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Por que streamers chineses estão fazendo lives em pontes de bairros ricos

Criadores de conteúdo viajam até bairros ricos para burlar geolocalização que limitam lives que aparecem  - Reprodução/Twitter
Criadores de conteúdo viajam até bairros ricos para burlar geolocalização que limitam lives que aparecem Imagem: Reprodução/Twitter

De Tilt, em São Paulo

14/02/2023 12h25Atualizada em 16/02/2023 11h01

Dezenas de streamers estão se deslocando até bairros ricos na China para ganhar "gorjetas" maiores. A tendência ganhou fama fora do país após vídeos serem divulgados no Twitter pela influenciadora chinesa Naomi Wu, que destacou a estrutura da produção feita geralmente embaixo de pontes, com direito a ring lights, tripés para celular e outros aparatos.

Essa migração temporária acontece para burlar o filtro de geolocalização. A opção permite que os usuários vejam apenas lives gravadas em seus arredores. Em busca dos "presentes virtuais" do público mais rico — que se converte em dinheiro de verdade depois — os influenciadores se reúnem nas vizinhanças de luxo.

Mas mesmo os influenciadores que trabalham em bairros ricos mantêm outros empregos. Segundo Wu, é incomum encontrar pessoas que vivam exclusivamente das redes sociais nos encontros feitos embaixo das pontes. Hoje, além de uma fonte de renda extra, eles também são vistos como uma chance de socializar. Influenciadores dançam e cantam juntos nas lives — com as mais populares sendo os shows de talento como o canto e a pintura.

Na plataforma Huajiao, uma das mais populares do país, apenas 5% dos streamers conseguem ganhar dinheiro. Deles, apenas 0,2% — 0u 19.000 dos 10 milhões de usuários — consegue um valor acima de 10.000 yuans (R$ 7.558) ao ano, enquanto outros 465.000 arrecaram apenas 0,05 a 500 yuan (R$ 378), segundo dados divulgados em dezembro do ano passado pela Huafang, dona do serviço.

A Twitch, plataforma da Amazon para lives, não permite o acionamento de geolocalização por questão de segurança. Na China, ela perde em público para as locais iQiYi.com, da Baidu, qq.com, da Tencent, e Youku.com, da Alibaba, de acordo com o site de tecnologia Gearrice.

A China luta para conter gastos de fãs e sonegação dos streamers. O país regula a indústria do livestreaming desde junho de 2022, quando divulgou 31 comportamentos proibidos em lives. Na lista, divulgada pelo South China Morning Post, consta que os produtores de conteúdo não podem fazer referências políticas ou propagandear um estilo de vida extravagante, expondo produtos de luxo ou pilhas de dinheiro.

O maior livestreamer do país recebeu uma multa de milhões de dólares no final de 2021 por sonegação fiscal. Huang Wei, mais conhecido como Viya, chegou a se desculpar publicamente, mas perdeu as contas nas redes sociais e nunca mais voltou a fazer lives.

Outro influenciador popular desapareceu após fazer uma referência ao massacre na Praça da Paz Celestial. Austin Li Jiaqi, que tem 60 milhões de seguidores na Taobao, teria caído na censura feita pelas autoridades ao mencionar o episódio de repressão do governo chinês, que aconteceu m junho de 1989. Após três meses sumido, ele voltou às lives em setembro de 2022 e conseguiu 50 milhões de views em poucas horas.