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Por que cidades oferecem até US$ 7 bilhões para atrair nova sede da Amazon?

A sede da Amazon.com em Seattle acaba de ganhar esferas de vidro - Divulgação/Amazon
A sede da Amazon.com em Seattle acaba de ganhar esferas de vidro Imagem: Divulgação/Amazon

Fabiana Uchinaka

Do UOL, em São Paulo*

12/08/2018 12h14

Não sei se você sabe, mas existe uma megadisputa que envolve centenas de cidades norte-americanas para ver quem vai sediar a segunda sede da Amazon.com, conhecida como HQ2. E não é uma briga qualquer. 

Uma das concorrentes menos charmosas, Newark, tentou atrair a gigante da tecnologia com US$ 1 bilhão em incentivos fiscais. Trata-se da maior cidade do Estado de Nova Jersey, que, por sua vez, já ofereceu um pacote de US$ 7 bilhões para garantir a Amazon em seu território.

É um dos maiores pacotes de subsídios oferecidos pelas 20 finalistas, que incluem Los Angeles, Denver, Miami, Nova York, Boston, três áreas em torno na capital federal Washington, além de Toronto, no Canadá.

As outras autoridades locais não revelaram o que ofereceram, mas no caso de New Jersey sabe-se que a assembleia municipal deve aprovar isenções sobre a folha de pagamentos para qualquer empresa que criar mais de 30 mil empregos e investir US$ 3 bilhões na cidade nos próximos 20 anos, mesmo se a Amazon decidir construir seu campus de US$ 5 bilhões em outro lugar.

A briga é pelos 50 mil empregos de alta remuneração que a gigante do ecommerce deve trazer para sua nova residência.

A Amazon afirma que investiu mais de US$ 100 bilhões nos EUA, gerou 200 mil empregos e calcula que cada dólar seu investido em Seattle, onde fica a primeira sede, gerou US$ 1,40 para a economia da cidade.

Ao todo, 238 cidades fizeram ofertas. A disputa foi tão acirrada que St. Louis foi eliminada apesar de uma proposta de US$ 7,1 bilhões.

Entre as finalistas, se destacam Newark e o Condado de Montgomery, no Estado de Maryland, com um pacote de incentivo que pode chegar a US$ 6,5 bilhões.

Newark não tem as credenciais de Nova York ou Los Angeles, sedes de inúmeras grandes corporações. O que a cidade tem são quatro superrodovias, um porto grande, um aeroporto internacional e duas grandes estações de trem urbano que levam a Nova York. Além disso, os preços das casas são menores que na maior parte da região, e por ali está a sede da Audible, subsidiária da Amazon especializada em audiolivros.

Não, obrigado

Mas há quem critique essa batalha. Alguns economistas proeminentes --incluindo aí Edward Glaeser, de Harvard, e Alan Krueger, de Princeton-- assinaram uma petição pedindo que as comunidades rejeitem "incentivos fiscais indignantes" para a competição da Amazon.

O leilão público foi armado para que todos ficassem mais agressivos

Greg LeRoy, diretor-executivo da Good Jobs First, organização sem fins lucrativos que monitora ações de desenvolvimento econômico.

Para ele, essas ofertas tão vistosas tendem a criar lances e riscos maiores, eliminando os potenciais ganhos para o local.

Os incentivos comerciais mais que triplicaram desde 1990, segundo estudo da W.E. Upjohn Institute for Employment Research. Os governos estaduais e locais chegam a gastar US$ 90 bilhões por ano, mas essas reduções de impostos não parecem ter uma grande correlação com o crescimento do emprego nem com os níveis de renda, diz o instituto.

Em Nova Jersey, o governador Phil Murphy pediu uma auditoria de todos os programas de subsídios fiscais para ver se os custos compensam. O pacote foi elaborado por seu antecessor no cargo.

Alguns grupos de moradores também torcem o nariz para essas ofertas bilionárias. Eles veem o lado negativo de ganhar: desviar o dinheiro de escolas e outros serviços, tornar a moradia mais inacessível, entupir as ruas e dificultar o trânsito.

"Essa empresa provavelmente poderia gastar US$ 5 bilhões sem nenhum esforço", disse Rich Madaleno, senador democrata que é candidato a governador de Maryland. Em sua opinião, as autoridades deveriam investir esse dinheiro em faculdades.

Em San Antonio, o prefeito Ron Nirenberg, juntamente com o juiz do condado de Bexar Nelson Wolff, publicou uma carta aberta dizendo que acreditava que a Amazon já sabia onde instalaria sua nova sede e que estava usando o processo de ofertas para criar uma enorme guerra comercial.

Com amor, Little Rock

Mas nenhuma cidade foi tão amável quanto a pequena Little Rock, que nunca teve chances com a Amazon de todos modos. "Não é você, somos nós", dizia um anúncio de página inteira do jornal Washington Post, assinado com amor pelo município do Arkansas, para informar que a cidade não apresentaria proposta.

Com a carta, publicada sob o título "Ei, Amazon, precisamos conversar", a cidade aproveitou o oba-oba para fazer um pouco de marketing. "Ficamos felizes em saber que muitas grandes empresas consideram irresistível a nossa boa aparência natural, combinada com os nossos cérebros para os negócios." 

"Se surgir outra oportunidade de expansão e você estiver pronta para se unir aos visionários, sonhadores, românticos e idealistas que sabem que o maior nem sempre é o melhor, ligue para nós", disse a carta de término de relacionamento da cidade. "Desejamos a você todo o sucesso do mundo."

Outros governos assumiram diferentes táticas. O prefeito do subúrbio norte-americano Stonecrest, Jason Lary, disse que sua cidade usaria 140 hectares de uma área industrial para criar uma nova cidade chamada Amazon.

O presidente-executivo da varejista, Jeff Bezos, seria seu prefeito eterno, disse Lary.

A companhia informou que vai tomar a decisão até o fim do ano. (Com Bloomberg e Reuters)