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Rico Malvar


Usar IA para romper barreiras para quem tem deficiência deve ser prioridade

Rico Malvar

Henrique (Rico) Malvar é engenheiro e cientista-chefe do Microsoft Research. Nesse papel, ele supervisiona projetos colaborativos entre diversos laboratórios da empresa e também gerencia o grupo MSR NExT Enable, que busca ajudar pessoas com deficiência. Anteriormente, Rico foi diretor administrativo de Pesquisas da Microsoft em Redmond e, antes disso, foi pesquisador principal e fundador e gerente do grupo de Comunicações, Colaboração e Processamento de Sinais da área de Pesquisa da empresa. É inventor ou co-inventor de 119 patentes emitidas nos EUA e tem mais de 160 artigos técnicos em revistas, além de conferências, relatórios técnicos e contribuições de normas.

25/04/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Só uma em cada dez pessoas com deficiência tem acesso à tecnologia assistiva
  • Já existem muitos recursos, mas, com IA, barreiras maiores podem ser rompidas
  • A Microsoft destinou US$ 25 milhões para o projeto AI for Accessibility
  • O objetivo é achar formar de empoderar 1 bilhão de pessoas com deficiência

Nas últimas décadas, a tecnologia tem demonstrado seu potencial para transpor barreiras. Ela tem ajudado na transformação de importantes setores da economia, seja na chamada indústria 4.0 ou na saúde. Por outro lado, pensando além dos bits e bytes, ela está ampliando oportunidades de inclusão.

Com o apoio de recursos de inteligência artificial (IA) e novas interface humano-computador, o ser humano está ganhando e dominando novas habilidades, encontrando soluções para os problemas de quem mais necessita.

A reflexão sobre acessibilidade permeia todo o processo do desenvolvimento das tecnologias que hoje são parte do nosso dia a dia. Desde as suas primeiras versões, os principais sistemas operacionais, por exemplo, trazem recursos com essa finalidade, como a possibilidade de aumentar o tamanho de caracteres para melhorar a leitura, assim como recursos de interação por áudio.

Hoje, as versões mais atualizadas contam com recursos mais avançados, permitindo a interação completa por voz, sem a necessidade de uso do modo gráfico, para facilitar o dia a dia de pessoas com deficiências visuais.

Além disso, é possível converter áudio em texto e gerar legendas em legendas ocultas (closed captions). Da mesma forma, pode-se controlar o computador com os olhos, oferecendo uma nova forma de interação para deficientes físicos. Esses são somente alguns dos exemplos desenvolvidos até então. Hoje, essa questão precisa ser prioritária.

Com a tecnologia, pessoas com deficiências encontram o apoio necessário para superar eventuais limitações para ingressar no mercado de trabalho. De acordo com o International Data Corporation (IDC) em seu estudo de 2016, Keys to the Future: Align Workforce Readiness Skills to Ensure Student Success (Chaves para o futuro: alinhe as habilidades da força de trabalho para garantir o sucesso do aluno, em tradução livre), o domínio de Office é a quarta competência mais procurada por empresas dos Estados Unidos, com base na análise de mais de 76 milhões de anúncios de emprego.

Em outras palavras, tornar essas ferramentas mais acessíveis para todos é uma forma de garantir o acesso a áreas de atuação antes restritas para pessoas portadoras de deficiências.

Exemplos disso são as funcionalidades "Ler em voz alta" e "Ditar". Esses recursos foram desenvolvidos para oferecer apoio a pessoas com diferentes necessidades de acesso, de visão, audição e interação.

No mesmo sentido, as ferramentas de aprendizagem permitem o uso por indivíduos com necessidades especiais, auxiliando no processo de escrita e leitura. Esse é um complemento capaz de ajudar pessoas com dislexia, disgrafia e transtorno de déficit de atenção.

Indo além, a quebra da barreira da língua é também uma forma de aumentar a acessibilidade. Existem programas de apresentação que oferecem tradução em tempo real. O "Tradutor de Apresentações" permite que os usuários mostrem o seu trabalho para pessoas de diferentes idiomas em tempo real, por meio de legendagem e tradução simultânea. Esses recursos facilitam o acesso ao conteúdo para pessoas com deficiências visuais e auditivas.

Como a Inteligência Artificial pode ajudar

Considerando todo o potencial da IA, contudo, é preciso que a tecnologia esteja presente para facilitar a vida das pessoas em todas as esferas.

Com o aplicativo Seeing AI, pessoas cegas ou com baixa visão encontram uma nova forma de enxergar o mundo. Por meio de recursos de inteligência artificial e análise de imagem, a tecnologia auxilia na leitura de textos e até mesmo no reconhecimento de objetos. Como resultado, o usuário consegue identificar o que está a sua volta e interagir com maior naturalidade. Seja no reconhecimento de placas de rua ou na leitura de um cardápio, o aplicativo facilita a vida daqueles que precisam.

Divulgação/Microsoft
Imagem: Divulgação/Microsoft

Com todo o trabalho desenvolvido até aqui, fica claro que essas ferramentas podem acelerar o processo de inclusão social, mas ainda é preciso ir além.

Com a finalidade de empoderar pessoas com deficiência, desenvolvemos na Microsoft o projeto AI for Accessibility (IA para Acessibilidade). Como compromisso, o programa lançado em 2018 vai investir em cinco anos US$ 25 milhões em projetos de IA que facilitem a acessibilidade. O objetivo é beneficiar mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo, destinando recursos para desenvolvedores, universidades, ONGs e outros grupos que abordem a tecnologia como uma forma de gerar oportunidades e ajudem as pessoas em suas conexões humanas.

Em todo o mundo, somente uma em cada dez pessoas com deficiência tem acesso à tecnologia assistiva. Com a democratização de ferramentas de IA, esse projeto pode beneficiar comunidades de todo o mundo, incluindo o Brasil.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de 50,9 milhões de pessoas com necessidades especiais no país, o que representa 23% de toda a população. Consequentemente, o impacto no número de empregos para essa população é significativo - a taxa de desemprego de pessoas com deficiência é duas vezes maior do que a das pessoas sem deficiência.

A democratização da IA e de ferramentas de acessibilidade são formas de aumentar a inclusão no Brasil e no mundo. Enxergamos nesse caminho uma forma de reduzir desigualdades e colaborar com a construção de um mercado de trabalho sem restrições. Os recursos inteligentes podem empoderar pessoas a executarem as suas tarefas cotidianas com maior eficiência e conforto. Da mesma forma, esperamos que a IA, cada vez mais, ofereça condições mais igualitárias para todos.