PUBLICIDADE
Topo

Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Futuro de govtechs tem menos Black Mirror e mais metaverso; veja tendências

Getty Images
Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

15/01/2022 04h00

Qualquer declaração útil sobre o futuro deve, à primeira vista, parecer ridícula. Essa frase foi dita pelo professor e futurista Jim Dator, e pode descrever muito bem a minha sensação ao escrever um texto sobre as principais tendências para o ecossistema govtech em 2022.

Muito embora o futuro já esteja aqui, ainda que não distribuído uniformemente —outra frase, de autoria de William Gibson—, tentar antevê-lo é um exercício arriscado, muitas vezes desconfortável e incerto.

Vivemos tempos de encruzilhada, como escrevi aqui, nos quais a tecnologia cresce de forma exponencial e suas aplicações, que antes pareciam ser só possíveis em filmes de ficção científica —como Black Mirror— passam a se materializar em nossa vida.

Prospectar o futuro não é um exercício de "futurologia". Há método e rigor para essa reflexão. E as 5 tendências para o ecossistema govtech que apresento hoje foram construídas com base no trabalho do Institute for the Future (IFTF), uma organização que há mais de 50 anos trabalha com a agenda de foresight, ou prospecção de futuros.

Tendências para o ecossistema govtech 2022

1. Descentralização

A transição de um governo centralizado para uma governança distribuída avançará em 2022.

O setor público seguirá sendo um ator fundamental, mas precisará reconhecer a participação de outras pessoas, instituições e setores na construção de políticas públicas.

Esse movimento ficou evidente durante a pandemia, quando organizações de base se mobilizaram para garantir serviços e atendimento a quem estivesse sendo diretamente impactado pela pandemia. Esses atores ganharam expertise e, principalmente, confiança da população.

Diante deste cenário, algumas perguntas são fundamentais:

  • Como aproveitar e potencializar a contribuição desses atores?
  • Que ferramentas e soluções tecnológicas podem apoiar essas parcerias?
  • Quais devem ser os papéis e responsabilidades de cada grupo que faz parte dessa colaboração?

2. Metaverso

Sim, o metaverso é uma tendência e deve se consolidar em 2022. Mas sua aplicação vai muito além da talvez assustadora ideia de que teremos um universo imersivo e paralelo ao mundo "real".

A aplicação prática do metaverso é o que realmente importa. Com essa tecnologia, podemos combinar de forma inédita o mundo físico ao digital.

Imagine as infinitas possibilidades que surgem com isso: diferentes profissionais —de saúde a engenharia— podem trabalhar simultaneamente em projetos digitais que, ao final, serão implementados no mundo físico; comunicação entre órgãos públicos e cidadãos; além das múltiplas possibilidades de aprendizado e desenvolvimento de habilidades.

Ainda é cedo para mapear todos os desdobramentos e impactos do metaverso, mas não para nos prepararmos para a sua chegada.

3. Futuro do trabalho

A pandemia provocou uma transformação histórica no mercado de trabalho. Mudanças que levariam décadas para serem implementadas se tornaram realidade em semanas. E não há mais volta, mesmo que queiramos.

O trabalho remoto se tornou a síntese dessa revolução, e ele deve impactar a forma como os serviços públicos serão concebidos e oferecidos aos cidadãos. A digitalização será intensa e, com ela, surgem os diferentes desafios e demandas para pessoas e instituições:

  • Como oferecer serviços de qualidade em ambiente digital?
  • Que habilidades devem ser desenvolvidas para operar as diferentes tecnologias?
  • E como atender com qualidade quem ainda não utiliza intensamente as tecnologias?

4. Inteligência artificial, ética e justiça

A inteligência artificial já é uma realidade para diferentes setores e aplicações, inclusive para o governo. Em 2022, observaremos novas e surpreendentes aplicações desta ferramenta, mas a verdadeira transformação virá de nossa capacidade de enfrentar os desafios que dela surgem: vieses, falta de transparência e a exclusão de determinados usuários de sua produção e utilização.

Vivemos um momento de inflexão e sem criarmos propostas efetivas para a utilização dessa tecnologia, arriscaremos sua aplicação ética e justa no futuro.

5. (Des)informação, segurança cibernética e eleições

O Brasil terá eleições em 2022, em um contexto marcado por crise econômica, social e também pela polarização política em ascensão.

Será preciso desenvolver estratégias efetivas contra a desinformação, especialmente considerando a segurança cibernética —como já discuti aqui. As instituições precisarão estar atentas e combativas frente aos diferentes ataques ao nosso processo e sistema democrático.

___

Mesmo que assustador, o exercício de pensar sobre o futuro se torna cada vez mais fundamental.

Precisamos treinar o nosso olhar para identificar os sinais de mudança, entender como elas podem se consolidar nas mais diferentes áreas e, com isso, pensar estratégias para aproveitar as oportunidades que surgem —assim como enfrentar os desafios que podem se apresentar.

Temos a oportunidade de moldar e influenciar nosso futuro; mas precisamos estar conscientes e ativos para isso!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL