PUBLICIDADE
Topo

Chileno que ficou cego por tiros protagonizará série sobre protestos de 2019

19/04/2021 15h34

Santiago (Chile), 19 abr (EFE).- Gustavo Gatica, o jovem que ficou cego devido à violência policial no Chile, será o protagonista de uma série que busca "despertar a consciência internacional" a respeito da violação dos direitos humanos durante os protestos de 2019 no país, disse à Agência Efe o diretor da obra, Hernán Caffiero.

"El estallido", produzido pela mexicana BTF Media, abordará o processo de reconstrução vivido por Gatica e sua família desde que, no dia 8 de novembro de 2019, o jovem foi atingido no rosto por dois tiros de um agente a poucos metros de distância, no contexto da maior crise vivida no Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet.

"Gustavo é uma pessoa que teve de viver um acontecimento muito brutal, mas, graças à família, o assumiu de uma forma que nenhum de nós teria assumido, abstraindo-se de qualquer tipo de ódio ou raiva", detalhou Caffiero.

O diretor, que ganhou o Emmy em 2018 pela série "Una historia necesaria", afirmou que Gatica se tornou uma espécie de "ícone nacional" e que a nova série quer contribuir para a busca de justiça e ajudar a sociedade a "curar através da verdade".

"Os direitos humanos são irrefutáveis e não têm cor política, não há leituras duplas", acrescentou o cineasta.

"POUCA CONDENAÇÃO INTERNACIONAL".

Em outra entrevista à Efe, no dia 5 de abril, Gatica havia lamentado a falta de condenação por parte de outros governos da região contra a repressão brutal com a qual as forças de segurança reprimiram os protestos, que deixaram cerca de 30 mortos e milhares de feridos, incluindo mais de 400 olhos mutilados.

"Há uma falta de condenação em nível mundial. Talvez se as organizações estrangeiras tivessem se manifestado mais fortemente, as coisas não teriam sido assim", disse o estudante de Psicologia de 23 anos.

Agora, ressaltou que tem "o objetivo de expor o que aconteceu aqui (no Chile) e que a justiça seja feita a partir do exterior".

"Falei disso com muitos sobreviventes da revolta e gostaríamos que houvesse um julgamento internacional e que o (presidente Sebastián) Piñera fosse preso", declarou.

O caso de Gatica provocou, contudo, duras críticas de várias organizações internacionais, como ONU e Anistia Internacional, que acusaram as forças de segurança de graves violações dos direitos humanos.

Além do estudante universitário, outra pessoa que perdeu a visão é Fabiola Campillai, uma mulher de 36 anos que foi atingida por uma bomba de gás lacrimogêneo enquanto esperava que um ônibus a levasse para o turno da noite no seu emprego em Santiago.

Os agentes que dispararam foram acusados, mas as vítimas e as organizações de direitos humanos denunciam que a maioria dos casos ficarão impunes.

"El estallido", de seis episódios, ainda está sendo filmada. Os produtores negociam com diferentes plataformas em todo o mundo para a exibição, conscientes de que se trata de uma série que "deixará as autoridades chilenas desconfortáveis".

"Os artistas têm de se responsabilizar pelo momento histórico em que vivem", opinou o diretor da série.