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Grandes nomes da mídia brasileira apontam 9 tendências para o futuro da TV

Nos 70 anos da TV no Brasil, diferentes protagonistas deste mercado refletem sobre o seu futuro  - Arte/UOL
Nos 70 anos da TV no Brasil, diferentes protagonistas deste mercado refletem sobre o seu futuro Imagem: Arte/UOL
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

18/09/2020 04h01Atualizada em 18/09/2020 22h36

É natural olhar para trás e festejar as muitas glórias alcançadas nestes 70 anos da televisão no Brasil. Mas nunca foi tão necessário olhar para a frente e procurar entender para onde ela está indo.

A televisão vive neste momento a maior transformação em sua história. A revolução digital provocou uma disrupção nos modelos até então vigentes de criação, produção e distribuição de conteúdo.

"É um período de enormes mudanças e a velocidade das mudanças se acelera. Por isso, fica mais difícil fazer projeções num horizonte muito longo", diz Alberto Pecegueiro, diretor-geral da Globosat por 25 anos. "A gente vive uma transformação radical, isso é indiscutível, mas não há uma definição sobre qual é o modelo que vai prevalecer", observa. "O júri ainda está reunido; não temos clareza", brinca ele.

O UOL reuniu um "júri" de notáveis para debater este assunto - para onde está indo a televisão. Os oito entrevistados apontaram os caminhos que enxergam em suas áreas. Do confronto destas opiniões, resultaram nove tendências, apresentadas abaixo.

O "júri" foi formado por Carlos Henrique Schroder, diretor de criação & produção de conteúdo do Grupo Globo; José Félix, presidente da Claro Brasil; Maria Angela de Jesus, diretora de produções originais da Netflix no Brasil; Felipe Neto, um dos mais importantes youtubers brasileiros; Fabio Porchat, um dos criadores do Porta dos Fundos; Alberto Pecegueiro, diretor-geral da Globosat entre 1994 e 2019; Letícia Muhana, uma das criadoras dos canais de televisão a cabo GNT, GloboNews e Viva; e Gabriel Priolli, jornalista, crítico de TV e professor de comunicação.


1. A TV aberta está longe do fim

Eis uma profecia muito repetida que ainda não se cumpriu: o fim da TV aberta. Mas será que este dia chegará? Ainda que perceba que "a televisão vai para a internet; já foi e irá cada vez mais", o professor Gabriel Priolli aposta na permanência da TV aberta. Por uma razão política. "Não consigo imaginar que os canais de TV deixem de existir. São uma mídia unidirecional, uma voz emissora falando para milhões de pessoas. O poder precisa desse tipo de ferramenta. A fragmentação e o caos da internet não atendem totalmente às suas necessidades de controle social".

Priolli evoca a série "The Expanse" (Amazon Prime Video), cuja ação se passa no século 23. "Todo o sistema solar foi colonizado. Há holovisão, 'internet das coisas' 50.0, comunicação avançadíssima. E a televisão sobrevive, falando da Terra para todos os planetas. Considero uma aposta muito realista".

Alberto Pecegueiro também vê o fim da TV aberta ainda distante. Ele cita Rupert Murdoch, que vendeu quase todo o seu conglomerado para a Disney, com exceção dos canais Fox, Fox News e Fox Sports nos EUA. "São canais que têm características muito próximas da TV aberta. Ele enxergou que com este formato e com o conteúdo de programação destes três canais, eles continuariam sendo relevantes e continuariam tendo peso suficiente para gerar um negócio lucrativo por muito tempo. E isso está sendo comprovado. Está indo muito bem."

No Brasil, lembra Pecegueiro, ainda há um agravante: "O ritmo do processo no Brasil não é o de mercados mais desenvolvidos, onde a penetração da banda larga é quase total e o hábito da TV aberta já não era tão grande. Aqui você ainda tem que lidar com o hábito, muito arraigado", diz.

Por este motivo, José Félix, presidente da maior operadora de TV por assinatura do país, também enxerga ainda uma longa vida ao modelo atual. "Este modelo que a gente conhece de TV deve durar muitos anos, enriquecido pela interatividade que os recursos de internet propiciam e que só recentemente estão começando a ser explorados pelo pessoal de criação e produção".

Para o youtuber Felipe Neto, é preciso se adaptar para sobreviver. "Para os canais de TV aberta, o caminho mais óbvio é o de criação de plataformas próprias (como a Globo fez com Globoplay) ou integração em plataformas já existentes (como o SBT fez com o Youtube)", diz.


bbb18 - Reprodução - Reprodução
No "BBB18", ao vivo, Paula e Jéssica descobrem que Gleici voltou de um paredão falso
Imagem: Reprodução


2. Programação ao vivo é um trunfo

Um dos sinais mais evidentes da vitalidade da TV aberta é o poder de magnetizar plateias com programação ao vivo. Esta vocação da TV para o ao vivo, presente desde o seu nascimento, segue firme, registra Carlos Henrique Schroder, diretor do Grupo Globo

"A experiência do consumo de um conteúdo ao vivo, seja de esporte ou de grandes coberturas de jornalismo, é muito rica. E no Brasil vemos esse fenômeno se repetir de maneira muito interessante no entretenimento, especialmente com os realities e com as novelas", diz o executivo.

Concordo com Schroder que, mesmo disponíveis em outras plataformas, posteriormente, "assistir ao episódio, aos capítulos, às grandes cenas pela primeira vez, ao mesmo tempo em que todo mundo, é uma experiência insubstituível".

Alberto Pecegueiro observa algo semelhante: "A televisão enquanto exibidora de conteúdo gravado, mais frio, teve que se transformar em função de outros modelos de entrega de conteúdos, mas a televisão baseada no conteúdo quente, jornalismo, esporte, ao vivo, ainda tem um papel muito significativo".

3. Fim das barreiras geográficas

Félix destaca uma outra mudança fundamental: "Uma das grandes transformações silenciosas que já aconteceu e é pouco percebida é no modo de distribuição. Muito parecido com o rádio, onde a recepção só era possível na região atingida pela área de cobertura da sua antena, o que se vê hoje é que com a internet as barreiras geográficas foram derrubadas", diz.

"Uma determinada estação de TV passa a ter uma cobertura regional, nacional e até internacional, caso assim deseje. Antes tão fundamentais, os sistemas de transmissão, de um momento para o outro, sem alarde, perderam de forma significativa sua importância", observa o executivo.


4. Modelos mais acessíveis ao consumidor

A revolução digital, ora em curso, afeta frontalmente as operadoras de TV por assinatura. Com perda de assinantes de forma contínua desde 2015, o setor inicialmente atribuiu o problema à crise econômica. E, mais recentemente, começou a citar a migração para o streaming como um problema.

Diz José Félix, CEO da Claro: "Sabe-se que o brasileiro gosta e consome TV, tanto de conteúdo sob demanda, quanto de programação linear na TV por assinatura ou aberta. Assistir seus programas favoritos em diferentes telas, em casa e fora de casa, no horário que preferir, é também um avanço espetacular. O desafio é encontrarmos, junto com as programadoras, novos modelos, que agreguem valor e sejam mais acessíveis para o consumidor. Assim como a TV, seguimos ouvindo o cliente e evoluindo".

Carlos Henrique Schroder também entende que é necessário ouvir as necessidades do espectador. "Temos que oferecer uma combinação entre o melhor conteúdo e a melhor conveniência para que ele defina como e onde quer consumi-lo. Por isso acreditamos em uma oferta multiplataforma, que acompanhe o público em toda a sua jornada".

Felipe Neto - Divulgação - Divulgação
O youtuber Felipe Neto não enxerga como os canais de TV por assinatura vão sobreviver
Imagem: Divulgação
"Como diz o Milton Nascimento, todo artista tem que ir onde o povo está. A televisão também", diz Alberto Pecegueiro.

Felipe Neto é mais pessimista. "O problema está nos canais da TV a cabo. Para esses, mantenho o que venho falando há anos: o futuro da TV por assinatura como conhecemos é o encerramento das atividades. Aqueles que conseguirem se adaptar à nova realidade, em que cada pessoa assina exatamente aquilo que quer assistir, conseguirão se manter, como a HBO vem fazendo muito bem", prevê .


celular e criança - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
A criança hoje tem experiências de consumo de entretenimento sozinha, longe dos pais
Imagem: Getty Images/iStockphoto


5. De nichos para indivíduos

Em resposta à TV aberta, que fala para todos os públicos indistintamente, a TV por assinatura procurou atender a nichos de audiência, com canais voltados para públicos específicos (mulheres, crianças, esportes, aventura, culinária etc). Letícia Muhana, que participou da criação de alguns canais da Globosat, enxerga um novo passo provocado pelo streaming. "Esse exercício de fazer conteúdo para nichos acabou sendo absorvido pela própria audiência. E com a ferramenta do streaming, as experiências são muito próprias, de identidade própria. É como se o usuário montasse o seu próprio canal", diz.

"Diferentemente da TV aberta ou da TV por assinatura, hoje a experiência do usuário é uma experiência dele, não é uma experiência de família, de casal, não é uma experiência de pai e mãe com seu filho", acrescenta. "O filho busca a sua experiência do ponto de vista de consumo de entretenimento sozinho. E ele busca o seu conteúdo, ele não busca canal".

Maria Angela de Jesus, da Netflix no Brasil, também vê este mesmo movimento. "Acredito que a televisão vai prosperar à medida que possa atender à crescente vontade das pessoas de controlar totalmente suas experiências de entretenimento. As pessoas querem poder assistir aos seus conteúdos favoritos onde, como e, principalmente, quando quiserem", diz. "O futuro da televisão passa por esse tipo de inovação e pela liberdade que os consumidores querem", diz a diretora do maior serviço de streaming em atividade no país.


6. O conteúdo independe dos meios

"A televisão já não é mais televisão", diz Fabio Porchat, um dos criadores do Porta dos Fundos. "As televisões que a gente tem em casa são caixas que passam conteúdos vindos de todos os lugares. É televisão porque assim se convencionou, mas aquilo que a gente conhecia já não existe mais", diz o comediante.

"O significado da expressão televisão merece ser questionado", concorda Alberto Pecegueiro. "Porque antigamente era o aparelho onde você via as coisas. Depois, talvez, fosse o canal de televisão. Hoje em dia, televisão é uma palavra que para algumas gerações já não faz muito sentido. Durante muito tempo, a gente viveu um protagonismo do canal, do meio. E isso está revertendo muito rapidamente para um protagonismo da mensagem. Conteúdo independente do meio, o que é ótimo", diz.

Felipe Neto expressa algo semelhante: "A primeira grande tendência é o fim do 'zapear'. O novo 'zapear' é navegar nas plataformas para decidir o que assistir, não mais ficar pulando de canal para canal vendo o que está passando ao vivo. A TV deixa de ser o fim para se tornar o meio."

Entre todas as mudanças ocorridas nestes 70 anos, diz Carlos Henrique Schroder, permanece imutável, "em qualquer plataforma, o conteúdo de qualidade, que emociona, informa e contribui para uma sociedade melhor para todos, continua absoluto e é o que conecta o público".

Porta dos Fundos - Reprodução - Reprodução
Gregório Duvivier e Fábio Porchat no especial "A Primeira Tentação de Cristo", uma criação do Porta dos Fundos para a Netflix
Imagem: Reprodução


7. Mais liberdade para criar

Criando conteúdo para TV por assinatura, serviços de streaming e internet, o Porta dos Fundos sinaliza claramente que a aposta em ousadia e originalidade vale a pena. "Sinto que sem a competição absoluta pela audiência, você consegue ser mais livre para criar novos conteúdos, conteúdos diferentes", diz Fabio Porchat.

"Como o streaming está arriscando com dez produtos ao mesmo tempo, ele pode sentir mais a médio prazo se a coisa funciona. E não mais imediato. A gente consegue fazer um conteúdo com um pouco mais de dedicação e qualidade", avalia. "O avanço da tecnologia, o avanço das plataformas, significam o avanço do conteúdo".

Marielle, documentário - divulgação/Globo - divulgação/Globo
Marinete, mãe de Marielle Franco, em cena do documentário sobre o assassinato da vereadora, lançado pelo Globoplay em 2019
Imagem: divulgação/Globo


8. Não-ficção em alta

Uma das pioneiras da implantação da TV por assinatura no Brasil, Letícia Muhana entende que "independentemente da tecnologia, de hoje ou daqui a alguns anos, a televisão vai trabalhar em cima do interesse de entretenimento e informação do usuário".

E qual é este interesse? Séries de ficção, claro. "A gente tem um futuro brilhante, não só por causa da influência americana, mas também porque estamos na infância ou adolescência da produção de séries no Brasil", prevê.

E séries de não-ficção. "Com o streaming, os documentários ganharam atenção maior, de Netflix e Amazon, seguindo uma tendência incipiente que apareceu no início da TV por assinatura. Hoje você vê documentários da mais alta qualidade sendo consumidos. O conteúdo de não-ficção hoje tem uma atenção e um carinho maior do usuário do que há 30 anos. A gente trabalhou bastante para que esse gênero tivesse aceitação", diz ela.


9. A busca por relevância

Com tantas opções hoje disponíveis ao consumidor, vale observar como a principal empresa brasileira produtora de conteúdo enxerga essa "guerra" por mercado. "O nosso maior desafio é nos mantermos relevantes em meio a tantas - e cada vez mais - opções disponíveis no mercado", diz Schroder.

E um dos traços distintivos que a empresa vê como um trunfo é justamente o fato de ser brasileira: "A Globo oferece ao público uma combinação muito poderosa de uma dramaturgia que reflete brasilidade com qualidade equiparada a das melhores produtoras do mundo", diz o executivo.

Felipe Neto pensa de forma parecida: "É hora de voltar todas as forças para a qualidade de produção daquilo que será oferecido. É hora de criar chamarizes que façam as pessoas decidirem: 'vale a pena assinar isso' ou 'vale a pena parar uma hora do meu dia para ver isso'", diz.

"A Amazon Prime está investindo US$ 1.25 bilhão apenas na criação da série 'Senhor dos Anéis'. Essa é uma das novas realidades do conteúdo e caberá às produções brasileiras decidir se irão tentar competir de alguma forma ou ver o bonde passar e o povo se voltar inteiramente ao conteúdo de outros países", diz o youtuber.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL