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Vendido a R$ 161 mil, vinho mais caro do mundo é tudo isso ou só marketing?

Liber Pater 2015, o vinho mais caro do mundo Imagem: Reprodução/Instagram

Sergio Crusco

Colaboração para o UOL

20/02/2024 04h00

Imagine sentir o gosto de um vinho de 1855? É isso que propõe Loïc Pasquet, de Bordeaux. Ele causou escândalo ao apresentar a safra 2015 de apenas 500 garrafas dos vinhos Liber Pater, em 2019. A promessa é justamente a de que você terá o prazer de sentir o sabor dos tempos de Napoleão 3° (sobrinho do Bonaparte).

Que preço você está disposto a pagar para jantar com Napoleão?, Loïc pergunta, no final do documentário "The Most Expensive Wine in the World", de Klaas de Jong (recém-lançado no iTunes).

Isso já entrega que esse plano, obviamente, não sai barato. Superando o preço de lançamento de châteaus centenários, como Margaux, Lafite, Haut-Brion e Latour, célebres premier grand cru classés (vinhos de "primeira propriedade"), listados entre os melhores e que até hoje muito pouca gente é boba de recusar uma taça, o vinho que começou a ser produzido na década passada, sem nenhuma grande tradição por trás, sai por mais de 30 mil euros (cerca de R$ 161.332).

Este é o vinho mais caro do mundo.

Mas é preciso entender um pouco de história (antiga e recente) para tentar entender (se é que é possível) porque um vinho pode ser vendido a preço tão alto.

Cartaz do documentário "The Most Expensive Wine in the World", de Klaas de Jong (iTunes). Imagem: Divulgação

Praga e polêmica

Loïc é hoje uma das figuras mais controversas do mundo do vinho. Diz-se no documentário que, apesar de cobrar tamanha soma por seus rótulos, ele não tem carrão, não vive em mansão e reinveste tudo o que ganha na vinícola.Ele afirma que o sabor de Bordeaux se perdeu depois da grande praga do inseto filoxera.

Além disso, como fenômeno não natural mais recente, ele aponta a influência de críticos de vinhos e suas pontuações como a pá de cal para a perda das características que considera mais sublimes de Bordeaux.

A filoxera chegou à Europa no século 19, de carona com videiras levadas da América do Norte. Nas vinhas americanas, o inseto vivia lá numa boa, em harmonia com a planta. Já para as videiras de origem euroasiática, a filoxera revelou-se um pequenino monstro. O surto começou na França e espalhou-se por todo o continente europeu no modo catástrofe.

Charge do século 19 retrata a temida filoxera Imagem: Wikimedia

Até que alguém chegou à feliz dedução: se o inseto não atacava as raízes das videiras vindas de fora, por que não enxertar as europeias nas americanas?

O processo, chamado porta-enxerto, é simples: você pega um tronco de videira americana, faz um furinho e - pluf - encaixa ali o tronco da europeia. A técnica permitiu que a filoxera, embora ainda presente no ambiente, não matasse as plantas mais do que olho gordo de vizinha. Salvou-se, assim, o vinho na Europa.

Loïc, porém, planta videiras europeias em pé-franco (sem enxerto) e explica que a filoxera não penetra no terreno arenoso de sua pequena propriedade em Landiras, na subregião bordalesa de Graves. Consciente dos riscos que corre, porém, examina ostensivamente seus vinhedos para certificar-se de que o medonho não resolveu dar as caras por lá.

Vai além: postula que vinhos elaborados a partir de videiras em pé-franco traduzem de forma mais precisa e elegante o terroir. "O tronco americano atua como um filtro e não se pode fazer bons vinhos com ele", diz.

Há vinhos excelentes produzidos em todo o mundo, das mais diversas formas. Sobre o pé-franco melhorar a qualidade dos vinhos, que trabalho científico sustenta o palpite ou o chute de Loïc? Em ciência, não é necessária apenas uma evidência, mas cem evidências, rebate Mário Telles Jr., sommelier especialista em vinhos e destilados e mestre na Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP).

Loïc, no entanto, não está só e existe uma associação de defensores desse tipo de cultivo que, além dele, reúne produtores famosos como o português Luís Pato, a casa de Champagne Bollinger e o vinhateiro borgonhês Thibault Liger-Belair.

Uva Mancin, resgatada por Loïc Pasquet Imagem: Reprodução/Instagram

Mário Telles, mais uma vez, desconfia: "Já provei vinhos excepcionais e horrendos produzidos em pé-franco. A técnica é comum em vários lugares do mundo, em algumas regiões de Portugal, no Chipre, na Grécia, no Chile, país que se manteve isolado da praga. Mesmo assim, grandes produtores chilenos estão se rendendo ao porta-enxerto para evitar prejuízos".

Em busca de uvas perdidas

Se plantar em pé-franco talvez não garanta a elaboração de um vinho magnífico e supostamente muito caro, há outros detalhes que continuam a fazer de Loïc uma voz discordante, ao menos em Bordeaux.

Na ânsia de recuperar o sabor da região da época da classificação de 1855, Loïc fez um trabalho de detetive em busca de variedades de uvas menosprezadas pelos produtores de Bordeaux ao longo do tempo.

Vasculhou propriedades vizinhas e mais distantes em busca de uvas perdidas como Castet, Pardotte, Saint-Macaire, Camaralet, Lauzet, Mancin ou Cabernet Goudable. Quando ele fala em Petite Vidure, não se engane. Trata-se do nome arcaico da Cabernet Sauvignon, a Vitis vinifera mais plantada no mundo, que parece querer reinventar.

Várias dessas uvas estão nos cortes de Liber Pater e na linha mais "econômica" de Loïc, a Denarius (por volta dos 565 euros). Com elas, o produtor novamente afirma sua missão: salvar o sabor de Bordeaux.

Colheita de uvas do Liber Pater Imagem: Reprodução/Instagram

Embora seja um ponto bastante positivo no trabalho de Loïc, o resgate de uvas autóctones também não é novidade. A partir desse olhar para o passado, países e regiões produtoras firmaram sua identidade mais recentemente (e ganharam mercado).

Exemplos disso são a italiana Sicília, que só ganhou prestígio quando abraçou variedades regionais como as tintas Nerello Mascalese e Nero d'Avola ou a branca e sedutora Carricante. Na Grécia, idem. Os bons vinhos de lá dão um show de alegria e tipicidade. A Toscana, avalia Mário Telles, levou muito tempo até aprender a trabalhar suas uvas regionais e fazer vinhos singulares, hoje bastante reconhecidos.

Loïc Pasquet Imagem: Reprodução/Instagram

Até os anos 1980 ou 90, Chianti, uma das denominações mais famosas da Toscana, era reduto de vinhos mequetrefes, aqueles que vinham em garrafa coberta com palha trançada e enfeitavam o teto das cantinas italianas.

Na região espanhola da Catalunha, a vinícola Torres resgatou mais de 50 variedades de uvas "perdidas" e as consideradas mais especiais, como a tinta Pirene e a branca Forcada, já estão sendo vinificadas e lançadas no mercado.

Até o Novo Mundo do vinho estabaleceu novas identidades. O Chile recuperou castas patrimonais levadas pelos colonizadores, como Cinsault, País e Carignan.

Robert Parker, mocinhos e vilões

E para onde teria ido o sabor de Bordeaux, considerado perdido por Loïc Pasquet? Além do desperezo pelo porta-enxerto, ele põe quase toda a culpa no crítico americano Robert Parker.

Parker é americano, adora açúcar, gordura e álcool. Nós, os europeus, gostamos de elegância, acidez e finesse. Mas os chatêaus passaram a criar sabores para alcançar boas pontuações e esqueceram nossa herança, diz Loïc.

Ele considera grande parte do vinho de Bordeaux uma "sopa varietal", dominada pelo uso da uva Merlot. "Fazem vinho como Coca-Cola, não se pode fazer vinho fino dessa maneira."

Por meter a boca no que considera a total descaracterização da região, ganhou arqui-inimigos, alguns capazes de vandalizar seus vinhedos na calada da noite, arrancando videiras e jogando químicos no seu poço de água.

Por desobedecer as regras da apelação de origem controlada (AOC) de Bordeaux, Loïc foi processado pelo Instituto de Origem e Qualidade da França (INAO), que queria sentenciá-lo a seis anos de prisão. Culpado em primeira instância, recorreu e viu-se livre para fazer seus vinhos da maneira que bem entendesse.

Vinhos das linhas Liber Pater e Denarius Imagem: Reprodução/Instagram

A verdade está na taça

Mas o que o vinho de Loïc Pasquet tem de tão especial? A reportagem do UOL obviamente não o provou e nosso entrevistado tem curiosidade. "Claro que eu provaria um copinho, se me oferecessem", brinca Mário.

Recorremos a alguns relatos para tentar descrevê-lo. A autora inglesa Jane Anson, especialista em Bordeaux, explica que os bons vinhos destinados à longevidade da região têm uma "fruta intensa e musculosa" nos primeiros anos.

"A partir de 20 ou 30 anos de guarda, desenvolvem notas florais, finesse, elegância e suculência que chegam perto da ideia de um Pinot Noir da Borgonha", diz. Em sua avaliação, os vinhos de Loïc Pasquet apresentam as características de um Bordeaux evoluído já nos primeiros anos.

Jane não especifica que safras provou, mas o master of wine inglês Simon Field avalia o Liber Pater 2015 (o tal de 30 mil euros) como um vinho "diferente", que pouco lembra os rótulos da região de Graves.

Simon descreve o vinho como "banhado em madeira", com predomínio do perfil da Cabernet Sauvignon, apesar do uso das uvas menos conhecidas. Aponta notas aromáticas típicas da passagem por carvalho novo, como defumado e chocolate, além de iodo, notas terrosas, resinosas e herbais. E também sous-bois (aroma de terra molhada pela chuva).

Quer pagar quanto?

Diante de tantas informações e poucas certezas, por que o vinho em questão custa tão caro, afinal?

"Trouxa rareia, mas não falta, dizia o saudoso Saul Galvão", dispara Mário Telles sobre os que estariam dispostos a pagar tanto por um vinho tão desconhecido.

Loïc Pasquet é uma figura incongruente e o que faz é puro marketing. Sempre haverá um indivíduo que terá orgulho de dizer que bebeu um vinho tão caro. Esse sujeito necessariamente entende de vinho para apreciá-lo? Não. Procura entender? Também não. Liber Pater é feito para o cara da máfia russa e para o novo rico chinês. Fico feliz que Loïc Pasquet faça esse vinho para eles, porque merecem.

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