Haja paciência

Como Ime Udoka transformou o Boston Celtics e virou o expoente de uma nova geração de técnicos da NBA

Arthur Sandes Do UOL, em São Paulo Brian Babineau/NBAE via Getty Images

Ime Udoka precisou personificar o próprio nome para se tornar técnico de basquete. O prenome significa "paciência" em um dos idiomas da terra natal do pai, a Nigéria, e foi fundamental para o atual treinador do Boston Celtics chegar onde está. Ele agora disputa as finais da NBA em seu primeiro ano no cargo, após várias entrevistas de emprego frustradas. Sabe aquele: 'a gente te liga?".

Com paciência, Udoka se tornou um expoente da nova geração de pretos técnicos da NBA, que pela primeira vez na história tem 15 não brancos no comando das 30 franquias da liga. A representatividade finalmente deu um salto nos últimos dois anos, sendo um dos reflexos da forte pressão dos jogadores e dos próprios treinadores após a morte de George Floyd e o aumento da violência policial contra negros nos Estados Unidos.

O treinador dos Celtics superou não apenas obstáculos esportivos, como as lesões que marcaram sua carreira de jogador, mas também pessoais, incluindo um acidente na infância e a perda do pai justamente no dia em que faria sua estreia pelo time do coração de ambos, o Portland Trail Blazers. Hoje, carrega consigo não só a memória de quem lhe apresentou ao basquete, mas também o simbolismo das conquistas em Boston, uma cidade marcada por mentes brilhantes e conhecida por universidades renomadas, mas que convive com as tristes marcas do racismo.

O Boston Celtics de Udoka lidera as finais da NBA por 2 a 1 e enfrenta os Warriors em casa, no jogo 4, a partir das 22 horas (de Brasília) de hoje (10). Em seguida a série volta a San Francisco para o jogo 5, na segunda-feira (13). Se necessários, os jogos seguintes estão marcados para quinta (16) e domingo (19) da semana que vem. Os jogos têm transmissão da ESPN, Star+ e Band.

Brian Babineau/NBAE via Getty Images
Matt Stone/MediaNews Group/Boston Herald Matt Stone/MediaNews Group/Boston Herald

O racismo em Boston

Há décadas a cidade de Boston, Massachusetts, é acusada de ser "a cidade mais racista dos EUA" e não por falta de motivos, históricos e atuais. O Boston Red Sox foi o último time de beisebol do país a integrar negros no elenco, em 1959; ainda hoje há vários relatos de ofensas racistas a jogadores dentro de estádios e ginásios esportivos.

O problema é conjuntural. Não é à toa que a população branca, que reagiu violentamente às leis de proibição de segregação racial em 1974, hoje tem riqueza familiar média 30 vezes maior à de uma família negra bostoniana: 247 mil dólares, contra apenas 8 mil dólares -os dados são do jornal Boston Globe. A representatividade nas principais universidades locais não passa de 5%, e quase não há negros em cargos de chefia ou em hospitais. Em uma pesquisa de 2017, mais da metade das pessoas negras entrevistadas (57%) disseram que Boston não é um lugar acolhedor.

Foi nesta mesma cidade que um torcedor jogou uma garrafa em Kyrie Irving em uma noite de playoff da NBA, há pouco mais de um ano; um comentarista da ESPN já disse que foi a única cidade em que um agressor lhe xingou com termos racistas, frente a frente; uma apresentadora de TV pediu demissão por não aguentar mais o racismo em Boston. A lista continua.

Nem mesmo os Celtics escaparam. Na época em que Bill Russell - dono de nada menos do que 11 títulos da liga - jogava, o time de basquete nem de perto era o mais popular de Boston. Era normal ver assentos vazios no ginásio, mesmo com tantas glórias. De acordo com o ex-jogador, a franquia fez uma pesquisa para saber o que poderia ser feito para melhorar a presença do público. Mais da metade das respostas apontaram o alto número de jogadores pretos no time como principal motivo para não irem aos jogos.

O episódio mais chocante em Boston aconteceu quando um vândalo invadiu a casa do astro, deixou mensagens racistas nas paredes e defecou sobre sua cama.

É neste cenário que Ime Udoka, suas raízes nigerianas e seu espetacular início de carreira como técnico colocaram os Celtics, por muito tempo o maior campeão da NBA, de volta às finais. Ele pode se tornar o quarto homem negro a ser campeão como treinador do time de Boston, após o pioneirismo da lenda Bill Russell em 1968 e 69, e K.C. Jones (1984 86) e Doc Rivers (2008) ganharem os três últimos títulos da franquia.

Kevin C. Cox/Getty Images

Final como estreante após muitos "a gente te liga"

Udoka demorou para receber o primeiro convite para ser treinador. Nos últimos anos, pelo menos três times preferiram outros candidatos após o entrevistarem para o cargo: Detroit Pistons, Indiana Pacers e Cleveland Cavaliers, segundo ele próprio revelou. Foi decepcionante, porque ele já se via pronto, mas deu tudo certo quando os Celtics apareceram. Em vez de um time em reconstrução, o mais novo treinador chegou em uma equipe cheia de expectativas.

A temporada não foi fantástica desde o começo. O time demorou a se adaptar a um novo conceito de defesa, e as coisas foram mal até a virada do ano. O Boston Celtics perdeu quatro jogos seguidos em outubro e abriu janeiro cercado por incertezas, mas uma sequência de nove vitórias em fevereiro recolocou o time nos trilhos. Em dois meses, o time que chegou a ser o 11º do Leste fez a maré virar, recuperou-se e fechou a temporada regular em segundo na Conferência.

Nos playoffs, os Celtics varreram o badalado Brooklyn Nets e passaram com emoção por mais dois adversários duros: o atual campeão Milwaukee Bucks e o Miami Heat. Foi assim que Ime Udoka se tornou o primeiro técnico estreante da história da NBA a ganhar duas séries de sete jogos e levou o time ao título do Leste e às finais da NBA pela primeira vez em 12 anos. Nada mal para quem era sempre entrevistado, mas nunca contratado.

Tem sido divertido. Ele nos ensinou algumas coisas, nós também o ensinamos outras. Por ser o primeiro ano dele, sabíamos que seria assim, que não seria fácil. As coisas são como elas são, e nós todos absorvemos esta mentalidade dele. Ele nunca disse que seria fácil, nunca reclamou das circunstâncias, só continuou conosco e seguimos em frente. Com um treinador assim, é difícil não segui-lo.

Marcus Smart, armador do Celtics e eleito Defensor do Ano na NBA

Amo ter Ime aqui. Nós começamos mal e foi turbulento, com altos e baixos, mas penso que era parte do processo. Ele definitivamente me treina mais duro e todos ficam responsáveis pelos seus atos. Isso é algo que precisávamos. Temos uma política de porta aberta: todos podem dar opinião, o melhor ou o 15º jogador, se têm algo a dizer, então vai lá e diga. Isso com certeza nos tornou melhores nos últimos meses.

Jayson Tatum, ala e principal jogador dos Celtics

Kevin C. Cox/Getty Images

Como a representatividade tem crescido na NBA

Desde que adotou a integração racial em 1950, a NBA gradualmente se transformou em uma liga majoritariamente negra, mas nada igualitária. A porcentagem de jogadores negros gira em torno dos 75% há pelo menos 30 anos, quando levantamentos do tipo passaram a ser feitos pelo Instituto de Diversidade e Ética nos Esportes (TIDES). Entre técnicos e presidentes, no entanto, a proporção é muito diferente (compare nos gráficos abaixo).

O primeiro técnico negro da NBA foi Bill Russell, ídolo do Boston Celtics e uma das lendas da liga. Após três brancos recusarem o cargo, ele foi anunciado como sucessor do lendário Red Auerbach em 1966, apenas dois anos depois do fim das leis de Jim Crow, que impunham a segregação racial no sul dos EUA. Russell foi bicampeão atuando como jogador e treinador dos Celtics (1968 e 69), os últimos de seus 11 títulos.

O sucesso de Russell abriu caminho para mais técnicos negros serem contratados nos anos 70, inclusive com mais títulos ganhos, mas a proporção nunca chegou perto daquela entre os atletas (75%). Com o anúncio de Darvin Ham pelos Lakers nesta semana, é a primeira vez na história que os treinadores não brancos são maioria na NBA (15 negros e um hispânico em 30 franquias).

Resta ainda um degrau na integração. No nível executivo, só há três negros em 46 posições de CEO ou presidente dos times (veja a evolução no gráfico abaixo). A baixa diversidade em cargos de comando é um fenômeno comum a sociedades estruturalmente racistas. Entre as 500 maiores empresas dos EUA listadas pela revista Fortune, por exemplo, apenas seis têm CEOs negros (1,2%). No Brasil, uma pesquisa desta semana da USP não encontrou um negro sequer entre os CEOs de 69 empresas públicas brasileiras e apenas seis entre 727 membros de conselhos (0,82%).

Apesar de ainda não ter reflexo no alto escalão da NBA, a pressão dos jogadores após a morte de George Floyd deu resultado, a ponto de o próprio comissário da liga, Adam Silver, reconhecer a demora para os avanços.

"Isso não é algo apenas da NBA, e aprendi de outros negócios, é que precisamos falar sobre esses problemas o tempo todo", afirmou em entrevista coletiva antes do jogo 1 das finais desta temporada. "Se você se preocupa com diversidade e inclusão em seu ambiente de trabalho, você precisa olhar os números. Você precisa constantemente levar isso a seus colegas, aos chefes de departamentos, aos times, e isso virou o foco. É meu trabalho dizer que isso é prioridade para a nossa organização."

"Ao mesmo tempo, enquanto eu particularmente estou orgulhoso dos números e quase 50% dos nossos técnicos agora são negros, o objetivo é que isso não seja notícia e quando alguém for contratado, que a primeira reação não seja sobre a cor da pele. Eu não quero ser ingênuo, mas sei que o nosso trabalho na liga é importante de forma simbólica, não apenas para os esportes, mas para outras indústrias e para as pessoas que nos assistem ao redor do mundo."

Já entre os jogadores, o discurso segue mais firme em relação ao posicionamento do comissário da NBA. Um dos principais nomes dos Celtics, Jaylen Brown, diz não saber os motivos da demora para a liga ter metade dos técnicos não brancos.

"Eu não entendo por que demorou tanto, para ser honesto", disse. "Claro, agora é ótimo ver muitos técnicos que estão tendo a oportunidade de aparecer nesses momentos. Ime é um produto disso. Primeiro ano como técnico e está nas finais. Acho que isso é um exemplo, não apenas na NBA, mas para toda a sociedade. Apenas uma oportunidade é o suficiente."

Arquivo Pessoal

Basquete surgiu como distração da pobreza

O pai, o rádio e a cidade de Portland transformaram o ainda menino Ime Udoka em um pequeno obcecado por basquete, uma rara opção de lazer na realidade em que viviam. A pobreza era quase um segredo de família, mas os amigos notavam quando Ime, nas peneiras de basquete, enchia a mochila com garrafas d'água para levar para casa.

Vitalis Udoka havia emigrado da Nigéria para estudar e trabalhar, mas não parava em um emprego por causa do racismo que sofria. A pobreza atravessou cada uma das lembranças marcantes de Ime, e a necessidade de ser autossuficiente desde cedo deixou marcas: aos quatro anos, foi atropelado após saltar do ônibus e atravessar uma avenida. Estava sozinho porque a mãe, Agnes, estava no trabalho e o pai ia atrás um emprego. A cicatriz na nuca está lá até hoje.

Ime cresceu no basquete sempre em Portland, primeiro o colegial, depois os dois últimos anos como universitário, em Portland State. Lamentavelmente, Vitali não pôde ver o filho jogar pelo time do coração dos dois, os Trail Blazers, pois faleceu bem no dia em que seria a estreia, em 2006. Defendendo a Nigéria do pai, Ime Udoka foi bronze duas vezes em Campeonatos Africanos e pavimentou o caminho para o crescimento de sua seleção - desde então o time foi campeão continental, jogou Mundiais, disputou três Olimpíadas seguidas e venceu os EUA em amistoso.

Sam Forencich/NBAE via Getty Images

Jogador na NBA; técnico e faz-tudo nas horas vagas

Udoka nunca foi uma estrela dentro da quadra, mas parecia destinado a se tornar treinador. Era um ala promissor e de defesa forte, mas sofreu com lesões de joelho seguidas e teve uma única temporada como titular na NBA -no Portland Trail Blazers, o time de sua cidade natal, em 2006-07. Em vez de impulsioná-lo como jogador, o melhor ano da carreira plantou nele a semente de técnico.

Como jogador, ele nunca foi draftado. Perdeu a chance em 2000 por causa de uma lesão e depois disso rodou por times da liga de desenvolvimento da NBA, aventurou-se na Europa, passou rapidamente por Lakers e Knicks e, quando finalmente teve uma chance real, precisou impressionar os Trail Blazers sob o luto da perda do pai. Em sua primeira temporada completa como jogador, investiu o tempo livre em experiências na beira da quadra.

Ele criou um time amador de basquete em Portland, o I-5 Elite, que passou a jogar torneios de recrutamento pelos EUA e assim ser o primeiro passo para jovens atletas chegarem ao esporte colegial e universitário. Mesmo ainda jogando, Udoka era o principal responsável pelo time e fazia de tudo pelos garotos: dava broncas, montava a tática, viajava com eles quando podia, conversava com os pais e até lavava os uniformes. Não era raro jogar uma partida da NBA em uma noite e, na manhã seguinte, dar treino aos garotos.

A coisa mais importante que aprendi com Ime foi a resiliência. É impossível conhecê-lo sem saber tudo o que ele já passou e o quanto se esforçou para hoje ser treinador na NBA.

Mike Moser, ex-jogador do I-5 Elite que fez carreira na Europa e hoje é assistente no basquete universitário

Estávamos viajando para um torneio quando um treinador de um time colegial me ligou. Ele estava curioso sobre Udoka, queria saber como era ser treinado por ele. Na mesma hora o Udoka apareceu com um cesto de roupa suja. O cara jogava na NBA e estava lavando nossos uniformes no hotel.

Garrett Jackson, ex-jogador do I-5 Elite que hoje é assistente do Boston Celtics

Rocky Widner/NBAE via Getty Images

Pupilo de Popovich virou um dos grandes da NBA

O ano nos Trail Blazers rendeu a Udoka um contrato com o San Antonio Spurs e o caminho que ele pavimentaria para ser treinador. Entre idas e vindas, foram duas temporadas e meia com Gregg Popovich e cia., além de passagens curtas pelo Sacramento Kings, de novo Trail Blazers, pelo então New Jersey Nets e pela liga espanhola até a aposentadoria. Na carreira toda, sempre precisou jogar pelo próximo contrato. Então, em 2012, veio o convite dos Spurs para ser assistente técnico.

Nos sete anos na comissão técnica de Popovich, Udoka absorveu tudo o que pôde e ainda venceu a NBA em 2014. Foi a relação próxima com o técnico lendário que o levou à seleção de basquete dos EUA no Mundial de 2019 e nas Olimpíadas de 2021, quando trabalhou com Jayson Tatum, Jaylen Brown e Marcus Smart, três pilares do Celtics que no ano passado fizeram lobby por sua contratação.

Em 2019 Udoka trocou os Spurs pelo Philadelphia 76ers para ser assistente de Brett Brown, outro pupilo de Popovich. Passou também pelo Brooklyn Nets, e há um ano finalmente virou treinador principal. Entre broncas homéricas e sinceridade chocante no vestiário, o técnico transformou os Celtics em uma fortaleza defensiva e se tornou um dos principais nomes da NBA logo na temporada de estreia.

Eu o respeitei desde o primeiro dia, pelo jeito que tratava a todos, cada um ciente de suas responsabilidades. Eu vi com meus próprios olhos ele dizer a Popovich 'não, Pop, este é o caminho errado' e coisas assim. O respeito que Pop tem por ele e o jeito como Ime diz as coisas, isso sempre teve valor para mim.

DeJounte Murray, armador dos Spurs

Primeiro de tudo, isso foi encorajado pelo próprio Pop. Ele gosta de debate, argumentos, não quer 'sim, senhor; não, senhor'. A primeira coisa que me disse quando me contratou foi para dizer o que eu penso, porque todos temos ideias diferentes que podem ser valiosas. Então ele encorajava isso. E é assim que sou.

Ime Udoka, assistente técnico dos Spurs por sete anos

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