Todo o caminho leva a Lima

Diário conta os detalhes da viagem de ônibus que levou flamenguistas até o palco da final da Libertadores

Diego Salgado Do UOL, em Lima (PER)
Diego Salgado/UOL

A grande janela é a minha companheira há dias. Generosa, ela me apresenta dezenas de paisagens que desfilam por Brasil e Peru, do cerrado à Amazônia, da Cordilheira dos Andes ao Deserto de Huacachina. O vidro gelado serve ainda como um refresco no momento em que curvo minha cabeça para o lado direito, como se ali tivesse um travesseiro. Virou hábito.

À esquerda, meus vizinhos são dois flamenguistas. Outro torcedor do time rubro-negro está sentado à minha frente. Atrás da minha poltrona, um cozinheiro peruano carrega a experiência adquirida no Brasil de volta para casa. Fazem parte da cena mais dois torcedores, além de outro cidadão peruano e quatro profissionais de mídia que, assim como eu, estão trabalhando na cobertura do "evento".

Preenchemos, assim, 12 concorridas poltronas do piso inferior de um ônibus que percorre de forma épica o trajeto entre o Rio de Janeiro e Lima, capital do Peru. O acanhado espaço é sala, cozinha, dormitório. É também lugar de conversa, festa, aflição, esperança e divergência. Ali, pessoas desconhecidas convivem 24 horas por dia, um dia atrás do outro. Na parte de cima do veículo, mais 38 pessoas, entre flamenguistas e viajantes, seguem o mesmo roteiro.

Na poltrona 53, forrada por um couro já surrado, durmo pouco, escrevo matérias, faço contas e entrevistas, analiso mapas, planejo o dia, rezo por um "fio" de internet a fim de manter conexão com meus editores. Não é fácil. Engana-se quem pensa que a situação dos torcedores é mais razoável. Não basta vencer o cansaço moldado por refeições apressadas, banho breve em locais precários e falta de posição para dormir.

É preciso conviver com a saudade das pessoas deixadas para trás tão abruptamente e, ainda, lidar com a ansiedade de um jogo histórico. A final da Libertadores entre Flamengo e River Plate é a responsável pela saga. E eu, Diego Salgado, repórter do UOL Esporte, conto nesta espécie de diário como o veículo com 19 torcedores do Flamengo atravessou a América do Sul, do Atlântico ao Pacífico, até o palco da decisão, em 145 horas na estrada, em uma das viagens de ônibus mais longas do mundo.

Meus olhos pesam e é difícil controlar o sono mesmo às 10 e pouco da manhã. Dormi pouquíssimo na noite anterior, preocupado com uma viagem que parece ser complicada e teve de ser planejada em pouco tempo. A ideia de acompanhar um grupo de flamenguistas durante o trajeto de ônibus até Lima quicou à minha frente oito dias antes de encarar a estrada. Coloquei-me à disposição, e logo tive respaldo do meu editor. A confirmação se deu na mesma semana. Só então passei a pensar nos assuntos que iria abordar.

Moro em São Paulo e, mesmo com a capital paulista na mira do ônibus, viajei ao Rio de Janeiro na noite anterior à saída, em pleno feriado de 15 de novembro, para poder embarcar junto com os torcedores. A saída rumo à rodoviária aconteceu sob os primeiros raios de sol do sábado. Havia um misto de expectativa e ansiedade, pois eu ainda não havia trocado a passagem e aguardava, aflito, como seria a recepção dos flamenguistas a um jornalista paulistano.

Chego cedo ao terminal, por volta das 6h, um hora antes da partida. Por isso, sou o primeiro passageiro a ter contato com os motoristas da empresa peruana Ormeño. Ali, ao lado do ônibus, conheço parte dos oito torcedores do Flamengo. Reginaldo, chamado de Cachorrão, é o primeiro. Em seguida, apresentam-se Leandro e Cristiano, o único que não mora no Rio. No ônibus, já com três horas de viagem, noto Humberto, Leonardo, Arnaldo, Ives e Ricardo, todos desconhecidos uns dos outros. A recepção é a melhor possível. Estou realmente aliviado. Entre uma piscada mais duradoura e outra, porém, a paz vai embora. Escuto a voz de Reginaldo, sentado ao fundo.

- Olha aquele caminhão tombado! Virou na madrugada, com certeza.

É a senha para que eu esquecesse os olhos pesados. Há quase 6 mil quilômetros a serem vencidos até Lima. Desperto, subo as escadas rumo ao piso de cima e vou atrás da primeira história: a de Cristiano, um pernambucano que já estava na estrada havia três dias e dormira na rodoviária do Rio à espera daquele ônibus.

A entrevista com Cristiano é realizada na parte de cima do ônibus, na primeira poltrona, com a estrada escancarada à frente. Cristiano é do tipo que fala pouco e só responde o essencial. Em tom de voz baixo, contou-me como chegara até ali. Sem ingresso para a final, arriscou-se ao vender uma TV e um som para comprar a passagem. A conversa durou 15 minutos. Em São Paulo, duas horas depois, a matéria já estava quase pronta.

Na rodoviária do Tietê, em São Paulo, ganho companhia: o repórter Rafael Valente, da ESPN - ele se juntou a um grupo que já tinha o repórter André Curvello e dois produtores da Rede Globo, Mineiro e Thiego. Dos cinco profissionais de mídia, sou o único que não tenho lugar cativo. Explico: eu não havia conseguido pegar minha passagem no Rio, mas embarquei num voto de confiança da Ormeño, empresa responsável pela viagem. É na parada que a supervisora Rebeca identifica o problema: a compra ainda não havia sido faturada por causa do feriado.

Eu teria de descer do ônibus. O risco é real: a sequência da minha viagem está ameaçada. Ainda na poltrona 53, vejo um casal de torcedores entrar no piso inferior à procura de dois assentos. Um deles, entretanto, está ocupado por Reginaldo. A passagem tinha sido duplicada. Restou aos novos passageiros, com lamentação, subir ao andar de cima e se contentar com uma poltrona convencional.

Olho pela janela e constato que ainda há muitos passageiros do lado de fora. A maior parte é composta por peruanos, ou seja, provavelmente fariam o trajeto todo até Lima. Desço do ônibus disposto a colocar ponto final no problema. Abro o celular e mostro novamente o voucher que recebi. Rebeca, então, preenche uma passagem e escreve à mão o número 53 nela. Trocamos contato para saber o andamento do processo. Minha ida a Lima está garantida.

Volto ao computador, seleciono uma foto de Cristiano. Em minutos, a história dele está publicada no UOL. A repercussão é imediata. Pelo Twitter, cinco torcedores oferecem ingresso. Outros, hospedagem. Depois do jantar, acerto encontros com dois deles, em Lima, dali a cinco dias. A maior parte dos torcedores já está em repouso, depois de momentos de empolgação com a final e muito bate-papo sobre futebol, liderado por Ricardo, quem apelidamos de Wikipedia, por saber tudo sobre qualquer fato esportivo.

Escrevo um último texto e, exausto, ajeito-me para dormir. Cubro os olhos com uma bandana e adormeço feliz com a resposta dos torcedores em relação a Cristiano. Sob o som de um mantra no celular, fecho o primeiro dia da viagem.

O sono leve é invadido pelo sol antes das 6h. A parada para o café da manhã será em Campo Grande. Na capital do Mato Grosso do Sul, planejo tomar o primeiro banho da viagem. Na noite anterior, tínhamos recebido a informação de que não havia chuveiro no posto de gasolina onde o jantar aconteceu. Acreditei nisso. Enquanto jantava ao lado dos motoristas, três torcedores ignoraram o aviso e se deram bem. Ao fim da parada, o trio apareceu com toalha à mão e cabelo molhado.

A cena me deixou esperto. Acordo pilhado. Emendo um vídeo atrás do outro, tiro fotos e me informo sobre o banho. Preciso resolver tudo em uma hora: banho, café da manhã e material visual sobre a parada. O preço da chuveirada assusta: R$ 10 - na estrada, sei bem, a oportunidade de se limpar não deve ser nunca ser desperdiçada, pois o dia seguinte é uma incógnita. O banheiro é limpíssimo. Cada centavo gasto vale a pena. A partir daquele momento, adoto o chinelo e abandono o tênis, que será resgatado apenas no último dia.

O retorno à estrada mostra a nova realidade. O calor não dá trégua. Para completar o enredo, o ar-condicionado dá sinais de desgaste. Na parte de baixo do ônibus, a temperatura começa a incomodar. Em cima, já está insuportável há tempos. O ônibus para no acostamento, e surge Pedro, peruano que é o faz-tudo no veículo: da limpeza do banheiro à manutenção do motor, passando por questões burocráticas em batidas policiais.

A cena se tornaria corriqueira. Pedro desce apressado, abre uma porta próxima ao motor e injeta água no ar. Do outro lado, indago Victor, o motorista da vez, sobre o motor. No dia anterior, Rebeca me informara que o ônibus seria trocado em Rondônia para evitar transtornos. Havia a possibilidade de fortes chuvas e infiltrações por algumas janelas. A peça mais importante do ônibus, porém, está tinindo, disseram-me, mesmo com 330 mil quilômetros de vida.

- O motor está bom. Só ajeitamos o ar, que não estava resfriando, mas o motor está bom - disse o peruano, sem preocupação no olhar, à espera de Pedro.

Depois da parada forçada, concentro-me em buscar histórias na parte de cima do ônibus. Na parada de São Paulo, mais seis torcedores do Flamengo embarcaram: o casal Dirnei e Nelvonete, de Guarapuava (PR), que ficou sem as poltronas compradas, Rodrigo, de Cariacica (ES), Maykon, de Pacujá (CE), além de outro casal, Victor e Daiane, de Barra Mansa (RJ).

Há muitos peruanos entre eles, e o clima é de festa, com direito a música do país. Em seguida, mantenho a rotina de visitar a boleia do ônibus para conversar com Pedro, William e Victor. Pergunto qual é o sonho deles. Pedro é o único que se manifesta. Ele explica que é uma pessoa sem anseios, que sua vida se resume ao ônibus e à mãe. Os motoristas apenas sorriem. Peço, então, que reflitam até o dia seguinte.

No retorno ao meu assento, flagro Leonardo com notas de dinheiro à mão abraçado a Cristiano. Ele grita sem parar, eufórico:

- Fizemos uma vaquinha para ajudar o companheiro aqui que só tinha R$ 80. Já temos R$ 220! Pode segurar, isso aqui é tudo Flamengo, é uma família, você não está sozinho, não. Está com a nação.

Apresso-me, saco o celular do bolso e registro a cena. Em menos de 30 horas de viagem, a amizade começa a permear o ônibus Rio-Lima. As histórias se misturam. Os torcedores contam suas experiências de estádio, falam da família, das motivações, dos anseios e das dificuldades. Cada um tem a sua vez. Ives, um dos meus vizinhos, quieto até então, começa a se soltar. Leandro, primo de Leonardo, sentado à minha frente, mantém seu estilo calado, completamente oposto ao do parente. Será assim até o fim, com raras exceções, que resultaria em gargalhadas diárias.

O segundo dia de viagem reserva um momento aguardado pelos 14 torcedores. Às 16h, o Flamengo enfrentará o Grêmio em Porto Alegre em jogo válido pela 33ª rodada do Brasileirão. No mesmo horário, em Salvador, o Palmeiras, principal adversário rubro-negro, medirá forças com o Bahia. O líder do campeonato tem 11 pontos de vantagem na ponta.

No ônibus, o assunto surge nas primeiras horas da manhã. Os flamenguistas se preocupam em como acompanhariam à partida. Quase na fronteira de Mato Grosso do Sul com Mato Grosso, a falta de internet passa a ser recorrente. A comunicação só ocorre quando a caravana se aproxima de cidades médias. Enquanto o problema deles é conseguir informações da partida, o meu se resume a mandar o material à redação. Adoto, então, a estratégia de escrever o texto offline e enviá-lo no momento em que o sinal voltasse. Entrevisto Reginaldo e escrevo a segunda história do ônibus Rio-Lima. Planejo tirar uma foto dele com as faixas de campeão trazidas na mala - todas seriam vendidas por ele na porta do estádio, na véspera da final.

A parada do almoço se torna uma grande oportunidade para mim e para eles. São 14h (15h no horário de Brasília). Temos tempo de tomar banho, almoçar tranquilo, apesar da comida de gosto duvidoso, e, quem sabe, ver o primeiro tempo do jogo. Tudo isso é possível porque os motoristas levaram o ônibus para uma manutenção no ar-condicionado, além de fazer o segundo reabastecimento de combustível. Assim se faz.

Diego Salgado/UOL Diego Salgado/UOL

O gol marcado por Gabigol, de pênalti, é comemorado em meio às mesas vazias do restaurante de beira de estrada. No fim do primeiro tempo, já alimentado e com muito material produzido, decido tomar um banho às pressas. Tudo dá certo.

A etapa final, no entanto, é acompanhada aos trancos e barrancos. O sinal some em diversos pontos da estrada. Em alguns momentos, o período sem informações chega a três minutos. O apito final é divulgado por um deles. O Flamengo vence. O Palmeiras empata. A vantagem sobe a 13 pontos, e os torcedores passam a escolher quando é melhor levantar a taça do Brasileirão: domingo, um dia depois da final da Libertadores, ou quarta, em campo contra o Ceará.

O sol se põe com o ônibus em festa, nos dois andares do veículo que invade Mato Grosso do Sul rumo à região Norte do Brasil. Eu volto ao computador e uso a tomada vizinha para carregar os celulares. Escrevo um texto sobre as condições do ônibus e consigo enviá-lo com um "fio" de internet. Ligo o mantra no celular, cubro o rosto e torço para dormir ao menos quatro horas.

O terceiro dia começa com novidades. Na noite anterior, na parada em Cuiabá, mais dois flamenguistas embarcaram. Junior é da capital mato-grossense. Vinícius, por sua vez, é de Poxoréu, interior do estado. Eles se juntam aos torcedores e peruanos no andar de cima do ônibus. A "escala" em Cuiabá ainda serviu para que o veículo passasse por uma limpeza completa. No jantar, comemos churrasco em restaurante colocado à rodoviária. A supervisora da Ormeño na cidade, Susy, é incorporada à equipe da empresa. Reginaldo celebra o retorno a Cuiabá, cidade que ele prometera nunca mais visitar depois de uma excursão para um jogo do Flamengo em 1995.

Antes de voltarmos à estrada, o tradicional grito de guerra vem à tona novamente. A música "dezembro de 81" é a trilha sonora da viagem. Não à toa, peruanos passam a cantá-la naturalmente, sem incentivo. A única criança do ônibus, o peruano Ian, de oito anos, é o símbolo desse fenômeno. Dali a alguns dias, durante uma parada, ele entoará os versos por contra própria.

O café da manhã acontece em Pontes e Lacerda (MT). No posto, cumpro à risca meu mandamento de viagem: banho nunca é demais (pago sete reais por ele). Nem tudo é positivo, entretanto. Notamos que a internet está cada vez mais escassa. Entrevisto um casal peruano com um bebê no colo. A história é magnífica e decido que eles serão os personagens da terceira história. Depois da conversa, noto que há uma imensa goteira justamente no assento do rapaz. É outro problema recorrente do veículo. Mais poltronas ficam molhadas por causa do aparelho de ar-condicionado.

Lá fora, de uma hora para outra, a paisagem muda. As copas das árvores se destacam, anunciando a chegada do Pantanal. Rondônia será realidade daqui a algumas horas. Não imaginamos que o terceiro dia da saga será de pouquíssima produtividade. A paz dará lugar à apreensão logo mais.

Chegamos ao quinto estado brasileiro do trajeto. Já são dois dias e meio na estrada, mas os torcedores não parecem afetados pelo cansaço. A chama da esperança continua acesa, responsável pela animação nos dois andares do ônibus. O que ainda não sabíamos é que o clima amistoso estava com as horas contadas.

Os motoristas decidem parar num posto em Vilhena, a primeira cidade de Rondônia. Deixam-nos no local e partem para uma nova manutenção no ar-condicionado. Apesar do movimento incomum, o grupo de torcedores recebe a notícia com tranquilidade — isso já havia acontecido em Sonora (MS). Comemos todos juntos. A refeição é bem mais agradável que a do almoço do dia anterior.

As horas passam e, com elas, nenhuma notícia da Ormeño. Os torcedores começam a ficar agitados com a falta de informações sobre o retorno do ônibus. Os quatro funcionários que viajam conosco foram juntos ao mecânico. Cerca de três horas depois, uma mensagem lacônica chega pelo celular: "Voltamos em 20 minutos".

A promessa não é cumprida. Decido ao menos tornar o meu tempo parado em trabalho produtivo. Com internet, adianto textos e coloco em prática uma ideia surgida no sábado. Tiro fotos 3x4 dos 16 torcedores, escrevo um resumo da vida de cada um e as publico no Twitter com a #UOLrumoaLima que nos acompanhou no trajeto. Aproveito o embalo e crio uma vaquinha online para Cristiano. Peço a ajuda de torcedores rubro-negros na rede social. Lá fora, o céu se cobre de nuvens pretas. É assustador.

A poucos minutos de o sol ir embora, o ônibus aponta na estrada. Os torcedores já não estão tão calmos. Alguns reclamam com veemência. A saída ainda demora a acontecer, porque a responsável pelo pagamento ainda não voltou. O clima é tenso. Flamenguistas cobram explicação imediata. A maior parte está em pé. Dois vão à porta da cabine aguardar. As palavras são muitas e desencontradas. A supervisora chega sob protestos e explica.

- O tubo do ar estava entupido. Foi arrumado. O pagamento demorou, porque fizemos uma transferência.

Nem assim o ônibus encontra paz. Há divergência sobre os próximos passos. Devemos parar para jantar ou tentar recuperar o tempo perdido? Em meio a tudo isso, um torcedor de voz firme me faz cobranças em relação ao meu papel como jornalista. Segundo ele, as críticas ao ônibus ajudam a atrasar a viagem, pois a Ormeño quer evitar problemas com a imagem da empresa.

- Estou apenas fazendo o meu papel, que é reportar os fatos. Apenas isso - respondo.

A parada acontece. Prefiro não comer nada. Desço quieto, escovo os dentes e retorno ao ônibus. Não demora para pararmos novamente. Em Pimenta Bueno (RO), o reabastecimento de combustível é feito. Registro e preparo uma matéria sobre o assunto para o dia seguinte. Escrevo sob o som da forte chuva que desaba sobre o interior de Rondônia. A noite promete ser de apreensão. Ela é iluminada por trovões e relâmpagos. Nem o mantra me salva.

O dia amanhece e logo paramos para comer. Porto Velho traz consigo um vento quente, que torna o ambiente abafado mesmo às 7h. A estrutura do posto de gasolina é uma das melhores até então. Sinto-me pressionado para conseguir fazer tudo o que preciso em apenas 30 minutos: banho, café, fotos, vídeos e, o mais importante, mandar o texto feito na madrugada.

Aos trancos e barrancos, consigo fazer tudo, mas preciso lidar com outro problema. Sou interpelado por um viajante italiano, que passa a me acusar de divulgar "fake news". Pergunto o porquê. Ele diz que o ônibus não foi trocado como eu havia divulgado dias antes. Explico, já incomodado pela forma como fui abordado, que a informação tinha sido passada pelo supervisora da Ormeño. E isso estava explícito no texto. A empresa diz agora que o ônibus aguentará chegar até Lima sem necessidade de troca de veículo.

Apesar da decisão da empresa, o ônibus continua mostrando fragilidade diante do duro trajeto. A forte chuva da noite anterior culminou em infiltrações. Malas ficam molhadas, assim como roupas e equipamentos do colega Rafael Valente. Ives também é afetado. Registro tudo o que aconteceu. Antes de voltar à minha poltrona, sou novamente chamado, dessa vez de forma positiva. William se aproxima e diz que pensou no seu sonho de vida. Ele tira o celular do bolso e mostra a foto do filho, que é deficiente.

- Eu sonho em dar uma vida melhor para ele.

Na sequência da viagem, os buracos viram inimigos e forçam o ônibus a diminuir a velocidade à beira da Amazônia. Pegamos uma balsa abarrotada no rio Madeira. O sol castiga. Os problemas do dia anterior ficam no passado, e o clima volta a ficar agradável. Todos estão juntos. Conversas e brincadeiras fazem parte da rotina de novo. O torcedor que me fez cobranças após a parada de Vilhena pede desculpas a mim e a Rafael. Aceitamos. Um aperto de mão põe fim àquela situação do dia anterior.

O grupo de flamenguistas ganha reforços. Mais três torcedores embarcam no já famigerado ônibus da Ormeño. São eles: Vagner, de Lagoinhas (BA) e os irmãos Davi e Pedro, de Belém (PA). O veículo agora leva flamenguistas das cinco regiões do país. Davi e Pedro se acomodam na parte de cima do coletivo. Vagner vira o 12º passageiro da "área VIP" - um peruano dá lugar a ele após um pedido de Pedro.

Uma preocupação passa ficar cada vez mais explícita no rosto dos viajantes. Temos de passar pelo posto da Polícia Federal até as 19h. Depois disso, ele só será reaberto às 7h. Podemos ficar mais de dez horas parados. Já é fim de tarde de segunda-feira quando alcançamos o Acre. Logo estamos em Rio Branco, a aproximadamente 350 km da fronteira Brasil-Peru.

Só chegamos à fronteira nos primeiros minutos da quarta-feira. A supervisora da Ormeño tenta fazer com que abram uma exceção para o grupo. Torcedores rezam, pedem aos céus para que a parada inesperada não aconteça. Reginaldo recita palavras proféticas. A indefinição se arrasta por horas, e o apelo surte efeito. Passamos pela Polícia Federal rapidamente, perto de 1h. Do lado peruano, a burocracia é maior. O processo todo demora cerca de duas horas e meia. Tempo suficiente para trocar dinheiro em uma venda semiaberta e se alimentar novamente.

Eu tenho mais uma tarefa. Escrever um texto sobre tudo aquilo e rezar novamente por internet, o que é improvável, pois não tenho chip peruano. São horas de indefinição. Por isso, quase não durmo. Peço um favor a Susy: que ela compartilhe a conexão do seu celular comigo. Ela me passa a senha, e envio o texto. Fechos os olhos sem que o confirmação da entrega da mensagem aconteça. Respiro aliviado ao ver que a mensagem destinada aos meus editores chegou nas primeiras horas da manhã.

Acordo novamente agitado com as atribuições do dia. A mais importante é conseguir um chip do Peru para continuar com acesso à internet e evitar situações de horas atrás. William me garante que em Puerto Maldonado haverá uma parada no centro comercial da cidade para que todos tenham a chance de comprar.

As primeiras horas no Peru não são agradáveis. O ônibus estaciona na entrada da cidade, em um restaurante que não oferece condições para receber mais de 50 pessoas de uma só vez. Como todos os flamenguistas, estou sedento por um café quente. Olhamos para os lados e só vemos pratos lotados de arroz, com frango e batata — a pedida para o café da manhã local.

Atravesso o restaurante e descubro um minimercado. Compro pão, manteiga e maçãs. Na volta, tomo um susto. Neivonete aponta para o meu pé esquerdo. Ele está deformado, completamente inchado. A preocupação toma conta de mim. Eu acho que vou perder o pé e, por alguns minutos, fico inerte pensando no pior. Recebo conselhos para dormir com as pernas para cima, mas não consigo ficar tranquilo com a situação. Apesar disso, entrevisto o casal Victor e Daiane, que, sem dinheiro para os ingressos do jogo, decidiu assistir à final em Cusco, como se fosse uma lua de mel.

Algumas pessoas se movimentam para tomar banho. A dois soles (R$ 2,5), os donos do estabelecimento disponibilizam quartos vazios de uma casa com banheiros completamente inacabados. Estou limpo, mas ainda não há nada de chip. Antes de entrarmos no ônibus, organizo uma fila indiana com os 19 torcedores, que mandam mensagens aos jogadores do Flamengo.

Num trânsito caótico, lotado de tuc-tucs frenéticos, atravessamos a avenida principal de Puerto Maldonado. Cada um vai para um lado à procura de uma loja. Logo vejo que será difícil obter um. A atendente explica que é preciso ter número de identidade peruana para adquiri-lo. Pergunto se ela não me pode ceder o dela. A resposta é desanimadora.

- Eu tenho direito a colocar dez no meu nome, mas acabei de incluir o último.

Eu me desespero. Eis que Pedro surge do nada e oferece seu número de identidade. Agradeço imensamente. Além de cuidar de todas as coisas do ônibus, Pedro ainda me ajudara de forma tão espontânea.

Uma mensagem enviada ao meu celular pela operadora de celular confirma o que o colega Rafael Valente tinha registrado dias antes. O peruano tem outro nome. O verdadeiro é Heinsten. A história da troca é triste. O nome fora dado pelo pai de Pedro, que sonhava ter um filho cientista. Sem boas relações com ele, Heinsten decidiu criar um pseudônimo. Assim "nasceu" Pedro.

Como acontecera no Brasil, o quinto dia mostra que a viagem continuará arrastada, com pausas frequentes e imprevistos. A primeira parada forçada acontece no início da subida Cordilheira dos Andes, perto de La Pampa. A estrada está interditada para manutenção.

São 20 minutos de espera até a polícia local permitir nossa passagem. Todos descem. Percebo que há um carro com a bandeira do Flamengo no capô. Não penso: corro até lá para registrar e falar com os torcedores, sob um sol escaldante de mais de 35ºC. Ledo engano. Irei me arrepender em breve. A 150 metros do ônibus, vejo que há muitos outros automóveis rubro-negros. É uma caravana do norte do Brasil rumo a Lima.

Com a estrada liberada, retomamos a viagem. O esforço feito minutos antes me afeta: uma forte dor de cabeça, num dos efeitos da altitude. Na parada para o almoço, em Santa Rosa, mais um local com estrutura insuficiente para tantos viajantes, preciso receber auxílio de Pedro e Susy. Masco folhas de coca a fim de recuperar a integridade. Ao meu lado, Arnaldo, Ives e Rafael parecem imunes à altitude, como a maior parte dos flamenguistas - Humberto é o único a mascar folhas de coca, mesmo sem estar mal.

Diego Salgado/UOL Diego Salgado/UOL

Como um lomo saltado, prato típico do Peru. Aos poucos, recupero-me. É necessário, pois ainda preciso escrever textos com o ônibus em movimento, tarefa ingrata em meio a tantas curvas, subidas e descidas da Cordilheira. Decido, enfim, entrevistar William e ouvir a história do seu filho. Emocionado, escrevo sobre o amor de um pai que passa 26 dias do mês na estrada.

À noite, já inteiro, conheço o pior banheiro da minha vida - e olha que já tive a chance de tomar banho em locais bem estranhos durante as minhas cicloviagens. O recinto fica atrás de um lote de restaurantes, entre plantas e casas. Não há chuveiro, somente um cano, que cospe água fria. Para completar, chove forte e não há paredes.

Decido trocar o jantar por um chá de muña, que facilita a digestão e minimiza os efeitos da altitude. Nada melhor para o que está por vir. No meio da madrugada, o ônibus encosta ao lado da placa mais famosa da região: 4.725 metros, ela indica. Todos descem. Segundo Susy, faz -5ºC. Alguns torcedores celebram a condição, tida como histórica. Outros se protegem diante da placa repleta de gelo.

Pelo segundo dia seguido, somos acordados no meio da madrugada. Isso acontece porque chegamos a Cusco, onde a maior parte dos viajantes peruanos localizados na parte de cima do ônibus encerram a viagem. São 4h (horário local, 6h em Brasília). Na rodoviária, a Ormeño presenteia os flamenguistas com quatro engradados de cerveja Cusqueña, além de café.

A parada é marcada por outro reabastecimento na saída da cidade histórica. É preciso correr, pois é início de quinta-feira, data prevista para a chegada a Lima. Diante de tantos imprevistos, já estamos 24 horas atrasados. O cansaço é nítido em todos. Não há condições de dormir mais de três horas de forma ininterrupta. Aos poucos, os torcedores abrem os olhos e começam a conversar sobre o time, a Libertadores, o Brasileirão, a vida, a família. Para mim, abrir os olhos e estar ainda ali no ônibus parece um pesadelo. Não tenho a mesma produtividade de outrora.

O penúltimo dia tem dois cafés da manhã. O primeiro, no acostamento da estrada, numa barraca que vende milho. Nem todos se curvam à iguaria. Aguardam o café de verdade, que se dá entre montanhas e nuvens, num cenário belíssimo. Na saída rumo à estrada, o inacreditável acontece: a viagem é interrompida por 20 minutos devido a uma prova de atletismo na Cordilheira. Competidores passam pelo ônibus, que volta à ativa quando o último esportista some entre as subidas.

Aos poucos, a altitude dá uma trégua, à medida que o ônibus se aproxima do Deserto de Huacachina. Mas ainda há muitas curvas pelo caminho, além de imprevistos. Dois deles se apresentam quase simultaneamente. Primeiro, com a estrada novamente interditada. Para fugir do bloqueio, o veículo entra na cidade de Abancay, marcada por um trânsito infernal de ruas estreitas e sem saída.

As condições resultam em uma situação quase desesperadora. O ônibus enfrenta dificuldades para trafegar. No pior momento, é necessário fazer uma manobra em um dos maiores cruzamentos da acanhada cidade. Em outro, torcedores precisam fazer vezes de guardas de trânsito. Liderados por Reginaldo, os flamenguistas tentam abrir espaço em uma das saídas da localidade. Reginaldo ganha a ajuda de Rodrigo, Dirnei e Leonardo, além de Pedro, sempre ele, agora em outra faceta.

O retorno à estrada traz alívio aos flamenguistas, já em contagem regressiva para a chegada à capital. Mas a alegria dura pouco. Logo adiante, na saída de Chalhuana, palco do nosso último almoço, um desfile escolar interrompe a viagem mais uma vez. Torcedores e viajantes, curiosos, descem do veículo para conferir a apresentação de crianças de mais ou menos dez anos.

Reginaldo comanda a interação entre os grupos, aproveitando-se do traje rubro-negro. Ele grita "Mengo" e recebe uma resposta imediata: "Mengo! Mengo! Mengo!". O ônibus Rio-Lima, já calejado, deixa um rastro de alegria no adeus à Cordilheira dos Andes. No veículo, Pedro, timidamente, conta um pouco da sua vida, em pé, com 12 pessoas à sua frente. Evita falar do pai, diz que não tem filhos e declara seu amor incondicional à mãe. Eu, quieto, reflito.

- Ele tem sonhos, sim. Só faltava alguém perguntar e dar atenção a ele, como estamos fazendo.

A empolgação volta a se fazer presente, com um empurrão do cenário lá fora. O sol se põe entre as montanhas, à beira do deserto. O céu ganha uma coloração incomum. Quase todos registram o momento com fotos e vídeos. É o último crepúsculo do ônibus Rio-Lima antes da decisão da Libertadores. Estamos numa das estradas mais perigosas do mundo, a rota 30, já bem próximo a Nazca.

A noite se apresenta e traz consigo uma pequena divergência entre os andares. A cerveja é um dos motivos do choque. Por um mal-entendido, os viajantes do andar de cima acham que a bebida era exclusiva aos flamenguistas do piso inferior. Logo, porém, todos se acertam.

A parada do jantar causa outra rusga passageira. Pedro conta que alguns torcedores da parte de cima preferem seguir direto a Lima, sem pausas, para que não se perca mais tempo. Todos os 12 passageiros de baixo não concordam. Para nós, não há sentido se privar do jantar diante de tantos atrasos. A parada não fará diferença alguma, pois a chegada à capital acontecerá nas primeira horas da sexta-feira de qualquer jeito.

Eu saco meu bloco de anotações, minha caneta, e começo a perguntar a opinião de todos os passageiros. Primeiro, pego os votos dos 11 lá de baixo. Em seguida, subo as escadas para ouvir o restante. Em cinco minutos, tenho o veredito: por 22 votos a 12, decidimos parar para fazer a última refeição da longa viagem (em tempo: eu votei para jantarmos). Anuncio o resultado e volto à minha poltrona, satisfeito com o exemplo de democracia dado por todos. A parada acontece por volta das 22h. Para mim, é um horário perfeito. Na volta, penso, escreverei o último texto e conseguirei, enfim, ter uma noite decente de sono.

O oceano já pode ser visto do lado esquerdo do ônibus. Muitos despertam falando da novidade, depois de quase seis mil quilômetros entre florestas, montanhas e deserto. A expectativa por Lima é altíssima. Eu pulo rápido da poltrona à procura de Cristiano. Vou ao andar de cima e me deparo com ele acordado, meio sem acreditar que estamos tão perto do nosso destino. Depois, vou à cabine conversar com William. Durante a noite, passamos por Chincha, cidade onde sua família vive. O motorista me informa que seu filho e sua esposa estão no ônibus.

Conheço a dupla já na entrada de Lima, por entre os carros, caminhões, ônibus e lotações. Em pé, William e sua esposa contam mais sobre a dura rotina do filho, que delicia-se com duas maças cedidas por Mineiro, produtor da Globo. O garoto não deixa rastros da fruta.

Em minutos, sob gritos de incentivo ao Flamengo, chegamos à sede da Ormeño em Lima. Todos os flamenguistas descem cantando a música que virou símbolo da viagem. Eu envio o texto final à redação. Registramos o momento, com variadas fotos, que ajudam a petrificar aqueles seis dias incríveis.

Meu trabalho, porém, não acabou ali. Eu tenho um dia de cobertura na capital do Peru. A cidade ferve com tantos torcedores, de Flamengo e River Plate. Deixo a rodoviária com Cristiano. A hospedagem dele foi paga por um torcedor, e eu o levarei até o hostel. No estabelecimento, ninguém aparece para nos receber, mesmo com batidas insistentes à porta. Percorremos mais cinco locais, todos estão lotados. Após falar com os outros flamenguistas do ônibus, consigo uma vaga para Cristiano no hostel deles. Ele segue até lá, enquanto eu me dirijo ao meu hotel.

Depois de um banho rápido, saio às ruas em busca de novas histórias. Num shopping do bairro de Miraflores, flagro algo lamentável: uma cena de racismo protagonizada por torcedores do River Plate. Mais tarde, registro a festa rubro-negra na maior praça de Barranco. Encontros os dois torcedores que ajudaram Cristiano. Já tenho o ingresso e a camisa do Flamengo à mão. De lá, corro para Chorrillo, bairro onde o atacante Paolo Guerrero cresceu. É mais uma pauta planejada e executada.

A última missão do dia é reencontrar Cristiano para lhe dar os presentes dos seus companheiros rubro-negros. O torcedor-símbolo de toda essa epopeia já tem um ingresso e está trajado com uma camisa do Flamengo, prontíssimo para a decisão. Pela primeira vez, sorri genuinamente.

Ele e os outros 18 torcedores do Flamengo que conviveram por seis dias no ônibus estarão em êxtase daqui a 35 horas. O grito de campeão continental sairá de suas gargantas.

Diego Salgado/UOL Diego Salgado/UOL

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