A mágoa de Barbosa

20 anos após a morte de Barbosa, UOL traz trecho de livro que mostra o tamanho da dor goleiro da Copa de 1950

Bruno Freitas e Karla Torralba Do UOL, em São Paulo Folhapress

Moacir Barbosa entrou para a história do futebol brasileiro por uma derrota. O 2 a 1 para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 foi o maior peso carregado pelo goleiro, que até os últimos dias precisou responder, a contragosto, perguntas sobre o Maracanazo. O dia 7 de abril marca os 20 anos da morte de Barbosa, o goleiro que morreu duas vezes. A primeira, aos 29 anos. E a última, aos 79.

Nas diversas entrevistas até o final da vida na Praia Grande (SP), repetia frases prontas decoradas ao longo dos anos como quem diz a si mesmo: a culpa não foi minha.

"Ele já chorou no meu ombro. Sempre dizia: 'Eu sei que não sou culpado. Éramos 11'", disse a filha de consideração Teresa Borba em matéria da Folha de São Paulo do dia seguinte à morte do goleiro. Barbosa sofreu um acidente vascular cerebral e faleceu dias depois por causa de uma parada cardíaca.

A primeira morte foi naquele Maracanã lotado. Embaixo das traves, se preparou para conter o chute cruzado de Ghiggia, que havia arrancado pelo campo até chegar à pequena área. Não deu. A bola passou entre as pernas do goleiro e a trave, calando o estádio.

"Eu não quero ser o Barbosa de 50. Quero ser o Barbosa normal, que foi jogador e hoje vive a vida", comentou o goleiro em uma das últimas entrevistas que deu, em 1999.

O futebol também deu alegrias a Barbosa, que brilhou no Vasco entre 1945 a 1955 e de 1958 a 1962. Apesar de carregar o peso de uma Copa do Mundo, Barbosa tentou viver tranquilamente e, na maioria das vezes, não era reconhecido por onde passava.

No final dos anos 90, o futebol já não representava a maior tristeza de sua vida. A morte por câncer da amada Clotilde, com quem foi casado a vida inteira, tirou um pouco mais o brilho do olhar de Barbosa.

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No Rio de Janeiro, onde ficou a maior parte do tempo antes de se mudar de vez para a Praia Grande, trabalhou, por ironia do destino, como um anônimo no palco que o eternizou como vilão, o Maracanã.

No dia que marca os 20 anos da morte de Barbosa, o UOL traz um trecho do livro Queimando as Traves: Glórias e castigo de Barbosa, maior goleiro da era romântica do futebol brasileiro (iVentura Editora), do jornalista Bruno Freitas, que conta a trajetória de Barbosa daquela Copa de 50 aos seus últimos dias na Praia Grande.

O capítulo "Ali dentro eu não piso" foi cedido gentilmente pelo autor e narra justamente o tempo em que o já aposentado goleiro trabalhou no Maracanã e evitava a todo custo pisar no estádio que um dia caiu sobre seus ombros. O trauma em 1986 ainda era tão presente na mente de Barbosa que ele se recusou dar uma entrevista na parte de dentro do gramado, como queria o repórter Geneton Moraes Neto, então na Globo.

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Ali dentro eu não piso

O Maracanazo revisitado 36 anos depois

O ano era de Copa, com o Mundial do México em 1986 se aproximando. Mas este não foi o pretexto para Geneton Moraes Neto procurar Moacyr Barbosa para a produção de uma reportagem para o Jornal da Globo. O repórter decidiu ir atrás do goleiro de 1950 por uma curiosidade em sua cabeça sobre este episódio do país, que até então não conhecia com tanta profundidade.

Na época, Barbosa trabalhava para a Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), mais especificamente no complexo do Maracanã. O ex-jogador cuidava das piscinas do Parque Aquático, ironicamente a metros do local que definira seu futuro décadas antes.

Uma de suas elogiadas iniciativas no local foi colocar as mães dos alunos para nadar - elas que antes ficavam apenas de bobeira assistindo às aulas dos filhos.

Mesmo assim o antigo jogador da seleção brasileira circulava pelo local anonimamente, sem ser identificado por ninguém. Nenhuma criança ou mãe delas imaginava que aquele senhor fora um dia um protagonista de uma decisão de Copa do Mundo.

A ideia da equipe da Globo era levar o ex-goleiro para dentro do estádio, gravar a entrevista embaixo da trave, do lado onde Ghiggia decidira o Mundial de 1950 a favor do Uruguai. No entanto, ouviu do personagem uma condição surpreendente para que a reportagem prosseguisse.

"Não, ali dentro eu não piso", disparou Barbosa para Geneton e sua equipe.

Barbosa havia pisado no gramado do Maracanã centenas de vezes. O estádio cuja construção foi autorizada em novembro de 1947, com pedra fundamental lançada em 2 de agosto do ano seguinte, assistiu ao auge da carreira do goleiro na seleção e no Vasco. Mais tarde, apesar da inevitabilidade da lembrança mais dura de sua vida, o ex-atleta esteve no "maior do mundo" em diversas ocasiões.

Mas estar ali dentro com a finalidade única de falar sobre o Maracanazo não interessava a Barbosa naquele momento de vida. Assim, a entrevista para o Jornal da Globo acabou acontecendo num cenário menos emblemático, na sala do funcionário da Suderj, no Parque Aquático do complexo.

"Para ele era uma coisa meio maldita, e isso me impressionou. É como você chegar para um cantor: 'vamos entrevistar ali no estúdio de gravação?'. E ele falar: 'não, não, não, isso não'. Eu disse: 'meu Deus, isso fazia 36 anos do jogo e 36 anos depois ainda incomodava Barbosa simplesmente entrar ali no Maracanã'", conta Geneton Moraes Neto.

A recusa de Barbosa de pisar no gramado do Maracanã intrigou Geneton, no nascimento de uma daquelas pulgas atrás orelha, dessas que os jornalistas com sangue de repórter sonham que apareçam de tempos em tempos. O episódio acabou motivando o jornalista da TV Globo a escrever o livro Dossiê 50, sobre a história pessoal dos brasileiros envolvidos na final daquela Copa de memória sofrida.

A partir dali Geneton entrevistou, um a um, todos os jogadores que entraram em campo pelo Brasil no jogo decisivo do Mundial de 50. Mas, antes disso, não saiu do Maracanã sem a sua reportagem com o goleiro daquele time.

O jornalista diz ter encontrado em Barbosa, 36 anos após o Maracanazo, um personagem repleto de tristeza, resignação e até um pouco de auto ironia.

Na conversa para o Jornal da Globo, o entrevistado desfilou um repertório de frases de efeito sobre a Copa de 50 e especificamente sobre a sua participação no vice-campeonato do Brasil.

"É engraçado que com o tempo ele já tinha um repertório de umas frases de efeito. Eu me lembro que ele disse... eu tenho a impressão de que foi nessa gravação do Jornal da Globo. Ele fala assim: 'o pessoal diz que somente o Frank Sinatra e o Papa calaram o Maracanã, mas eu calei também com o gol que eu levei'. Ele já estava também se ironizando", relata Geneton.

Com uma camisa quadriculada, de mangas curtas, Barbosa dá a entrevista sentado atrás de uma mesa, junto a uma antiga máquina de escrever. Na observação da gravação bruta da TV Globo é possível notar que o cinegrafista da equipe se esforça para focalizar em close as mãos do ex-goleiro, com dedos castigados pelo antigo ofício, tortos e calejados.

Na conversa, o funcionário do Maracanã insinua que teria sido melhor para o Brasil disputar a final daquela Copa fora do país. Em off, Barbosa ainda diz acreditar que a decepção pela eliminação no Mundial de 1982, o mais recente ali, fora maior do que a derrota de 50. Durante a entrevista Barbosa também descreveu ao interlocutor uma passagem vivida na Rússia. O ex-goleiro contou que numa viagem ao país se apresentou como vice-campeão do mundo. "Aí o russo disse: 'você deve ser idolatrado lá no Brasil'. Respondi: 'não, eu sou o maior vilão lá do Brasil'".

Motivado pelo primeiro encontro com Barbosa, Geneton partiu atrás da turma de 1950. Com dificuldade, conseguiu ouvir todos os ex-jogadores que estiveram em campo pelo Brasil naquela tarde de 16 de julho, além do técnico Flávio Costa. Um precioso documento histórico para o país.

A incursão jornalística contou com a influência de alguns dos líderes do time, como Ademir de Menezes, que intercedeu para que Bigode, outro jogador marcado pela derrota, atendesse o repórter. O ex-defensor na época trabalhava como técnico em eletrônica em Copacabana. Relatou a Geneton episódios de humilhações sociais em restaurantes, etc.

As entrevistas revelam histórias impressionantes dos homens que quase ganharam a primeira Copa para o Brasil. Em uma delas, Friaça apagou após o jogo e acordou dias depois em Teresópolis, sem memória. Em outra, Bauer relata a viagem de volta a São Paulo, na mesma noite da final, deitado no chão de um trem.

O livro Dossiê 50 conta com uma foto de valor precioso, reunindo no gramado do Maracanã os 11 jogadores. A imagem nos anos 80 originalmente foi produzida pela Editora Abril, comprada por Geneton Moraes Neto para sua obra. Fora uma pequena quebra no protocolo de Barbosa.

O segundo encontro do jornalista com o goleiro aconteceu em 19 de julho de 1986. Geneton desejava mergulhar com mais profundidade nas memórias e sensações do grande personagem do Maracanazo, que carregou a cruz da derrota por anos a fio.

A entrevista se realizou em uma loja de materiais de pesca que Barbosa tinha no subúrbio do Rio de Janeiro.

"Foi em Ramos, numa cena típica brasileira, conversamos em uma loja de pesca da periferia, sol insuportável, numa tarde melancólica", descreve o jornalista.

Ao mergulhar sobre o universo de decepção dos jogadores brasileiros de 1950, Geneton diz ter finalmente interpretado Barbosa como a "encarnação do trauma de 50". O jornalista afirma que o Maracanazo teve impacto sobre o imaginário popular brasileiro semelhante ao do Titanic, para o resto do mundo.

"Aquele gol que Barbosa levou ali é uma história brasileira, porque ali envolve sociologia, política, esporte, antropologia, tudo. Eu acho que é uma coisa épica. É o caso clássico do jogo de futebol que é muito mais que um jogo, muito mais, é igual o Titanic. Pode afundar 10 mil navios com muito mais gente que o Titanic, mas duvido que outro vá ocupar o lugar no imaginário. Já houve acidentes piores depois, mas ninguém se lembra, igualzinho à Copa de 50", reflete.

Após as duas entrevistas com Barbosa em 1986, Geneton diz ter se impressionado com um pensamento sobre como alguns centímetros podem mudar a vida de um sujeito, como a vida pode ser cruelmente caprichosa em cima de um detalhe aparentemente insignificante: "então foi uma questão de milímetros que podia ter virado a história, e o Barbosa hoje seria uma estátua provavelmente lá em Ramos, se tivesse sido campeão do mundo".

"Eu acho um assunto interessante o Barbosa ser a encarnação desse trauma, aí entram a lenda do complexo de inferioridade, essa coisa do Brasil daquela tentativa frustrada de você fazer alguma coisa, mostrar que é o melhor do mundo em alguma coisa e vir justamente o vizinho pequeno enfezar e dizer: 'não, calma, vocês não são ainda os melhores do mundo'. E isso tem um impacto psicológico que não dá nem para medir, não é uma coisa óbvia. (...) Mas ninguém talvez encarne o personagem dessa ópera brasileira tanto quanto o Barbosa", conclui o jornalista.

Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images

Dificuldade financeira no final da vida e mesada de Eurico

Em uma das ocasiões em que tentaram explorar o pesadelo de Barbosa, a rede britânica BBC quis promover um encontro entre ele e Taffarel, em 1993, antes de um Brasil x Uruguai, que valia a classificação para a Copa do Mundo de 1994. Com dificuldades financeiras, aceitou participar por alguns trocados e não imaginava que isso se tornaria uma conhecida polêmica em capas de jornais.

A imprensa que acompanhava a seleção na época relatou que Barbosa foi barrado na Granja Comary. O goleiro, Carlos Alberto Parreira (então técnico do Brasil) e Zagallo (auxiliar técnico da seleção na época) negaram a história.

A filha de consideração Teresa narrou mais tarde que Barbosa havia contado que o supersticioso Zagallo desaconselhou uma foto do ex-goleiro ao lado de Taffarel porque, caso a seleção não conseguisse vencer o Uruguai no dia seguinte e ficasse de fora da Copa, Barbosa seria acusado de trazer má sorte. Assim, preferiu não fazer a foto. A seleção se classificou e a história de Taffarel na Copa de 1994 todos sabem.

A famosa história mostra em parte como Barbosa viveu os últimos anos de vida. Depois da morte da mulher, foi morar em um apartamento alugado na Praia Grande. Recebia R$ 2.000 por mês de ajuda do presidente do Vasco Eurico Miranda, que foi alertado sobre as dificuldades financeiras do antigo goleiro em uma viagem do ex-jogador ao Rio. Era uma quantia que o deixava viver com dignidade, pois a aposentadoria não seria suficiente nem mesmo para ter um teto.

"Não vai viver nunca com R$130. Vai morrer de fome. O Eurico Miranda que dá uma ajuda. Paga o meu aluguel. Dá pra eu sobreviver", disse, também durante entrevista em 1999.

Sobrevivendo, o final foi de forma pacata com conversas próximas à praia e recebendo o carinho da filha de coração, que conheceu através de uma das visitas aos quiosques à beira mar.

O marido de Teresa era vascaíno, não poderia ter sido amizade mais simples de nascer. A família do coração cuidou de Barbosa até o fim da vida, quando sofreu o AVC e a parada cardíaca e partiu deixando na história aquele jogo de 1950 e a grande injustiça sofrida na vida toda. Foi enterrado ao lado de seu maior amor, Clotilde.

Gamma-Keystone via Getty Images Gamma-Keystone via Getty Images

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