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Arara espera por 20 anos por namorado no Rio e casais sofrem com extinção

Arara-canindé no Bioparque do Rio, localizado na região de São Cristovão; espécie espera por namorado há duas décadas - Juan Carvalho/Divulgação
Arara-canindé no Bioparque do Rio, localizado na região de São Cristovão; espécie espera por namorado há duas décadas Imagem: Juan Carvalho/Divulgação

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo (SP)

12/06/2021 06h00

No Rio de Janeiro, uma arara chamada Julieta tenta viver uma história de amor. Há vinte anos, ela voa até o Bioparque do Rio para visitar o namorado. Mas neste tempo todo o crush está sob cuidados de biólogos e não pode se juntar a ela. Assim, Julieta é a única arara-canindé a viver em liberdade no Rio de Janeiro.

As outras araras-canindé são mantidas em cativeiro, mas por um bom motivo. A partir do próximo ano, elas começarão a ser liberadas e deverão repovoar a cidade e seus morros, onde são consideradas extintas na natureza. O amor interrompido pela ameaça de extinção é uma marca nos relacionamentos entre araras no Brasil.

Arara-Canindé em Bioparque do Rio de Janeiro - Bernardo Oliveira/Divulgação - Bernardo Oliveira/Divulgação
Arara-Canindé em Bioparque do Rio de Janeiro
Imagem: Bernardo Oliveira/Divulgação

As araras são importantes para o reflorestamento e equilíbrio ecológico. Quando saem para se alimentar, as aves voam por mais de mil metros e dispersam sementes. "Elas são grandes engenheiras ambientais", acrescenta a bióloga Neiva Guedes para Ecoa. O ninho deixado pelas araras em palmeiras é reutilizado por tucanos e corujas. E tem outra coisa: as araras são monogâmicas.

Segundo biólogos, elas se unem a um par e ficam com ele até o final da vida. As araras vivem em grupos, mas tiram um par para reproduzir e tornar-se parceiro. Em cativeiro, há relatos de araras que viraram companheiros monogâmicos de araras do mesmo sexo, apenas pela companhia. Não se sabe se Julieta é macho ou fêmea, mas a busca por um amor tão intenso lhe rendeu o mesmo nome da personagem criada por William Shakespeare.

A arara domada

Como na peça do bardo inglês, o ser humano nem sempre permite a realização de grandes amores como o da arara Julieta. Arara-canindé, arara azul-de-lear, arara-azul grande e ararinhas-azuis sofrem algum nível de ameaça de extinção, do moderado ao crítico. A arara-azul-pequena é considerada extinta pelo ICMbio. O motivo é a caça e o desmatamento.

As ararinhas-azul, por exemplo, sobreviveram graças a um enredo internacional. Essas aves foram comuns no sertão nordestino, mas eram consideradas extintas na natureza. A maioria das ararinhas-azuis a sobreviver no mundo estava com o sheik Saud bin Mohammed al-Thani, criador de um centro de preservação de vida animal no Catar.

Em 2014, o sheik morreu por complicações cardíacas e as aves foram para um grupo alemão, em um processo polêmico em que os europeus detiveram 90% das ararinhas-azuis do planeta.

Em março de 2020, 52 delas chegaram ao Brasil e foram enviadas para um centro de preservação construído com dinheiro alemão exclusivamente para as ararinhas-azul. Elas já deram filhotes e deverão voltar para a natureza no futuro.

Romeu e Julieta

No Pantanal, um casal de araras-canindé também sofreu com a ação humana. A ONG Ampara Animal as resgatou após os incêndios criminosos devastarem o bioma em 2020. Assim como Julieta, uma delas ficou em liberdade enquanto a outra precisou de cuidados veterinários. Todos os dias, ela ia até o poleiro onde o companheiro estava internado para visitá-lo. Segundo a instituição, elas voaram juntas após receber alta.

Arara-Canindé no Bioparque do Rio; considerada extinta no Rio, instituto pretende lançar espécies na natureza a partir de 2022 - Bernardo Oliveira/Divulgação - Bernardo Oliveira/Divulgação
Arara-Canindé no Bioparque do Rio; considerada extinta no Rio, instituto pretende lançar espécies na natureza a partir de 2022
Imagem: Bernardo Oliveira/Divulgação

No Rio de Janeiro, o enredo de Julieta ainda não teve o mesmo desfecho. As araras-canindé do estado sobreviveram apenas em cativeiro e foram repassadas ao Bioparque por zoológicos da região e serão soltas no futuro. Antes de Julieta, o último registro de arara-canindé livre no estado foi em 1818.

O projeto de soltura é longo e pode levar cerca de quatro anos. Primeiro, um grupo será levado para conhecer os ruídos e a alimentação da floresta. Após meses de ambientação, ele será solto e monitorado.

Atualmente, o Bioparque do Rio tem 64 araras-canindé. A escassez de companhia é tão grande que, segundo Neiva, algumas são entrosadas com araras Maracanã, mais adaptadas ao ambiente urbano. A meta é soltar dez araras-canindé por ano.

Segundo o biólogo Cláudio Mass, gerente técnico do Bioparque do Rio, uma arara pode viver até quatro décadas. Mas ele tem uma notícia que pode prolongar a espera de Julieta. "No momento, ele [Romeu] não está na lista dos que serão soltos no ano que vem", diz. "Mas é possível".