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Rodrigo Ratier

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Num castelo, um Brasil à espera de um futuro melhor

Vista aérea do Grande Hotel, em Araxá (MG) - Divulgação
Vista aérea do Grande Hotel, em Araxá (MG) Imagem: Divulgação

31/12/2021 06h00

Para o zagueiro Alaor, o ano de 1979 representou o ápice de sua carreira esportiva. Há uma data exata, o 15 de abril, e um minuto preciso, o 18º do segundo tempo. No campo do modesto estádio Fausto Alvim, em Araxá, o time da casa recebia o estrelado Atlético Mineiro dos selecionáveis João Leite, Luisinho, Toninho Cerezo e Paulo Isidoro. Alaor deixou sua marca no instante informado. Um gol - contra. Menos mal que o jogo tenha terminado 1 a 1.

Em 1979, o Araxá Esporte Clube estava longe de ser a principal atração da cidade. As atenções convergiam para o Grande Hotel, um colosso imponente e estranho inaugurado no ocaso da primeira Era Vargas. O "maior castelo do Brasil", conforme o site oficial, apresenta-se sob diferentes classificações: neoclássico, eclético, estilo missões. Um corpo fora de lugar aterrissado num quase nada de riachos e colinas verdes preservadas até hoje. Por fora, paredes revestidas por uma camada ríspida em tom de barro conferem um aspecto rústico à construção de nove andares. Por dentro, capitéis, arcos e colunas sustentam imensos salões. Numa construção anexa igualmente exuberante ficam as termas, de águas sulfurosas e radioativas. Lustres e vitrais impressionam. Durante o período de obras, cristais da Boêmia e vidros bisotados franceses chegavam à cidade em lombo de burro, vindos de uma Europa convulsionada pela Segunda Guerra. Estima-se que os seis anos de construção tenham consumido o equivalente a um ano de orçamento de todo o estado de Minas Gerais.

O Grande Hotel nasceu em 1944 para quase morrer dois anos depois. Inaugurado como cassino, viu o jogo ser proibido pelo presidente Dutra. Nos anos dourados, firmou-se como destino da endinheirada burguesia paulista e mineira. Decaiu a partir dos anos 1980 até sucumbir em 1994, interditado por falta de segurança. Restaurado, ressuscitou em 2001 como resort popular. Ostenta hoje o portfólio típico dos hotelões de pensão completa: comida abundante, atividades incessantes, música ao vivo e recreação ruidosa. Não é fácil a vida de quem tem 283 apartamentos para ocupar.

São 11 da manhã e o assombroso Salão Congonhas — lugar para se apreciar de joelhos, segundo um mestre da arquitetura — está vazio. O aposento em madeira imbuia, com afrescos de Rocha Ferreira e mobiliário da época da inauguração, é a sala de leitura do hotel. O epicentro da aglomeração diurna é o parque aquático, onde barulhentos animadores promovem o jogo do baldinho. Quem acertar o alvo com uma bola de tênis ganha uma latinha de Amstel. Entre os candidatos, o de Campinas é vítima das piadas de praxe. "Dizem que o problema não é água de lá, mas as torneiras que são baixinhas e obrigam a ficar assim, ó", garante o recreador em pose ginecológica. Todos riem. Na falta de vencedores suficientes, decidem distribuir a bebida ao concorrente de nome mais exótico, uma corruptela de Teleton. Mais risadas.

Na água pastosa da piscina aquecida, um cruzeirense comemora a aquisição do clube pelo craque Ronaldo. "Não sei se você é de esquerda ou de direita", comenta meu interlocutor, sem se dar conta de minha resposta. "Mas essa lei do clube-empresa do nosso presidente Bolsonaro vai salvar o futebol". Me afasto um pouco, sob o pretexto de desviar do spray de água. Começou a hidroginástica. Em uma das margens do lago, duas famílias discutem para ver quem fica com o pedalinho branco. Noutra borda, a garçonete reclama da pesca esportiva. Argumenta que peixes sofrem como nós, imagina a crueldade de um anzol na boca. Sua família são seus nove gatos e ela não tolera violência contra animais. No hotel, faz parte dos "extras". É convocada para reforçar a equipe nos momentos de maior demanda, como neste concorrido fim de ano.

No self-service, um idoso abaixa a máscara para enxergar melhor o duo de peixes ao molho de maracujá. A criançada jantou meia hora atrás e agora assiste a um filme de Natal no suntuoso Salão Ouro Preto, antigo palco de concertos de piano e peças intimistas. A exibição é interrompida pontualmente às 22h, sob protestos da audiência. "Deu meu horário", anuncia a monitora, entregando os pequenos aos responsáveis. De volta ao quarto, a cartinha da recepção traz o extrato de consumo e um pedido: check out impreterivelmente até meio-dia, sob pena de cobrança de meia diária em caso de atraso.

Desde a reabertura, o Grande Hotel patinou sob a administração de três redes hoteleiras. A atual pediu ao governo mineiro uma renegociação no contrato de concessão após dois longos fechamentos durante a pandemia. No fim, Estado e iniciativa privada toparam rachar a conta de inadiáveis reparos hidráulicos. O castelo sobreviveu à crise econômica e à covid-19. Alaor também. Aos 73 anos, é garçom no Grande Hotel. Não exige intimidade para narrar seu épico futebolístico particular, com direito à pausa enfática entre "gol" e "contra" para efeito cômico. "Está tudo no Google", ele provoca, e está mesmo. A última conversa, já a caminho do carro, é com o técnico em radiologia que faz bico de carregador de bagagens. Conto que não consegui prorrogar o horário de saída. "Pois é, o hotel está cheio", ele informa. Ano que vem vai ser bom.