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Rodrigo Ratier

REPORTAGEM

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"Mudar o mundo é a nova alfabetização", diz líder de ONG global

Bill Drayton, CEO da Ashoka - Arthur Feller/Divulgação
Bill Drayton, CEO da Ashoka Imagem: Arthur Feller/Divulgação

Rodrigo Ratier

15/03/2021 04h00

"A maior história de nosso tempo", "um superpoder que todos têm", "profundo empoderamento individual e social". Ao 78 anos, o americano Bill Drayton não economiza em imagens grandiosas para definir sua missão de vida: despertar, na maior quantidade possível de pessoas, a capacidade de mudar do mundo. Trajetória que se materializa na Ashoka, maior rede global de empreendedorismo social — termo cuja consolidação é atribuída ao próprio Drayton.

Fundada em 1980, a ONG apoia mais de 3.500 empreendedores sociais no mundo, 376 deles no Brasil. Drayton segue atuando como CEO e participando ativamente dos processos regionais de identificação novas lideranças — em parte dos casos, há bolsas, embora a entidade aponte que os maiores benefícios estão na visibilidade ao trabalho, na conexão a uma comunidade internacional e na aprendizagem do que seriam "metodologias para a mudança". Drayton se afasta das concepções ingênuas da transformação ao defender a existência de "ferramentas, mecanismos e abordagens" para a mudança social que podem e devem ser ensinados "com a mesma importância que a alfabetização teve 150 anos atrás".

No Brasil, uma das principais iniciativas da Ashoka é a Jovens Transformadores, que em 2021 reconheceu 15 changemakers (algo como "agentes da mudança") entre 12 e 20 anos à frente de projetos de inovação social. Drayton conversou por Zoom com a coluna na companhia de duas dessas jovens lideranças. Alfredo Alves da Silva Neto, de Passira (PE), criou uma estratégia de aprendizagem colaborativa de idiomas. Beatriz Diniz de Azevedo Ribeiro, do Rio de Janeiro (RJ), idealizou um movimento pela equidade de gênero. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Ecoa - Em que sentido mudar o mundo é a nova alfabetização?

Bill Drayton - Se pudermos descobrir como ajudar as pessoas, isso seria o equivalente à alfabetização há 150 anos. A taxa de mudança chegou ao ponto equivalente a saber ler e escrever naquela época. Você não pode ter pessoas dirigindo se elas não conseguem ler as placas de rua. Em termos de mudanças, nós estamos na mesma situação nesse momento, o que significa que todos, sem exceção, devem ser capazes de contribuir para mudar. Há um conjunto de ferramentas, mecanismos e abordagens para ajudar qualquer grupo de adultos a ajudarem seus filhos a serem agentes de mudança. E isso certamente os transforma em agentes de mudança também.

Beatriz Ribeiro - Também acredito nisso. Na verdade, esse é meu trabalho na minha organização. Tentamos ao discutir igualdade de gênero com meninas, tentamos explicar também, por exemplo, quais são as ferramentas para você construir um evento ou uma reunião, porque porque nesta comunidade é algo que ainda não sabem como fazer. É preciso reconhecer esse superpoder de mudar e entender como usá-lo. Nós damos a eles essas ferramentas; elas, por sua vez, dão a outras garotas que não estão despertas como elas estão.

Como engajar em uma comunidade que não está mobilizada para mudar?

Drayton - Imagine em uma escola de 500 crianças, cinco delas — ou seja, 1% do total — têm o sonho de oferecer um serviço de construir uma estação de rádio virtual. Eles vão engajar mais pessoas montando equipes, terão visibilidade... Provavelmente isso dará a oportunidade para que todos vivam essa cultura em que ser um agente da mudança é a norma e não a exceção.

Qual o primeiro passo para ser um desses agentes?

Drayton - A primeira coisa é se dar permissão para mudar. É algo muito simples e, ao mesmo tempo, profundo. As pessoas não acreditam que têm o poder de imaginar uma solução, de organizar uma equipe. Elas nunca tiveram essa experiência. Não faltam problemas por aí: escolha um que seja significativo para você, descubra com quem você quer trabalhar, quem seria bom nisso, quem iria financiá-lo.

Como identificar um problema para atuar?

Alfredo Silva Neto - Acho que a escuta é fundamental. Em vez de pensar que algo é bom para a comunidade e que você precisa implementá-lo, você ouve a comunidade e considera o que ela está precisando agora. No programa de ensino de idiomas liderado por mim, houve um momento em que muitos alunos começaram a abandonar o programa. Entendi que a questão da autoestima era importante: muitos pensavam que havia outras pessoas que falavam inglês melhor e que eles não eram capazes. Então decidimos não só ensinar língua estrangeira, mas também combinar com habilidades socioemocionais e de autoconhecimento.

Drayton - Concordo. Existem 1.300 empreendedores sociais reconhecidos pela Ashoka realizando trabalhos voltados para crianças. Entre 90% e 95% deles colocam de alguma forma as crianças no comando das iniciativas. O que acontece? O aprendizado aumenta. Acredito que podemos ajudar as pessoas também a se permitirem. Ser empreendedor social não é astrofísica. Você olha para as soluções e elas não são tão complicadas.

Permitir-se, ser inspiração para os outros, ouvir a comunidade. O que vem depois?

Drayton - Você tem um problema, pensa na solução, monta uma equipe, vê o que ocorre. Uma empreendedora — uma menina de 12 anos — me contou que chorava toda vez que seu irmão autista era discriminado na escola, mas que, agora, eles haviam resolvido o problema. Perguntei: "Como?" Ela respondeu que seu grupo sempre tomava uma providência quando via um aluno de inclusão sendo maltratado. Pensavam no que fazer, faziam e eram persistentes.

E quando as coisas dão errado?

Drayton - Mudar o mundo não é um momento, é uma jornada. Você está aprendendo e as pessoas em sua equipe estão aprendendo a trabalhar juntos, como lidar com todos os outros e tudo que está mudando. É preciso continuar inventando, o tempo todo. No antigo sistema, você aprendia algo e repetia aquilo para o resto da vida. Isso é tão ridículo! É uma mentalidade que tem que ir embora. Quando tudo está mudando e tudo está conectado, isso cria um efeito cascata em que toda mudança gera outra mudança.

Algumas pessoas tendem a estabelecer uma dicotomia entre mudar o mundo e sobreviver -- ter um salário, ganhar a vida, etc. São coisas opostas? É válido pensar "estou muito ocupado para mudar o mundo porque tenho de ganhar dinheiro"?

Drayton - Não. Hoje em dia, é um risco não ser um agente da mudança. Os lugares em que se vê isso da maneira mais óbvia são justamente as empresas! Pense em empreendimentos que eram gigantes 20, 30 anos atrás e que desapareceram. Elas falharam. Elas não mudaram. Posso citar algumas comparações entre regiões dos Estados Unidos que são criadoras de mudança e outras que não são. Em geral, as áreas pouco inovadoras perderam 4 anos na expectativa de vida, principalmente por pessoas de meia-idade que cometem suicídio lento por meio de drogas, álcool, tabaco e excesso de alimentação. Suas famílias estão quebradas, a autoconfiança está quebrada e o que eles estão ouvindo do resto da sociedade é "vá embora, nós não precisamos de você. É sua culpa e seus filhos não tem futuro". Isso é o que eles estão ouvindo e é real. Se eles não têm habilidades para fazer mudanças, eles não conseguem se mudar porque eles não conseguem jogar o jogo atual.
Essa nova desigualdade é tão cruel, tão antiética que não devemos permitir isso. Estamos destruindo totalmente essas pessoas e suas famílias nessas comunidades. Esta é uma das razões pelas quais o objetivo da Ashoka é mostrar que todos são agentes de transformação.

Você tem dito que a liberação desse "superpoder da transformação" pode ajudar a diminuir a polarização política e a raiva de forma geral na sociedade. Como isso funcionaria?

Drayton - O ponto fundamental é que a raiva e a divisão são causadas pela desigualdade entre as pessoas que são capazes de contribuir em um mundo de mudança e aquelas que não são. E para reduzir a raiva, você precisa eliminar a causa raiz. Coloque-se na posição das pessoas que estão sendo esmagadas. Eles vivem na comunidade e ninguém está lhes dando essa habilidade mágica. Se você é um deles psicologicamente você se adapta de duas maneiras básicas: pelo suicídio lento ou culpando outra pessoa. Nos Estados Unidos, se escolhe os imigrantes e negros. Na Índia, são muçulmanos. Para Hitler eram os judeus, os ciganos e as pessoas com deficiência.
O que precisamos é ter certeza que todos tenham a capacidade de contribuir. A única saída é garantir que todos possam ser poderosos agentes de mudança. Esse é o ponto de inflexão. Precisamos ajudar todos a verem esse o novo jogo, auxiliá-los a perceber que eles sabem o que fazer, ajudar seus filhos a fazerem isso. Não é tão difícil.