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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Que nenhuma mãe perca seu filho e que nenhuma filha enterre sua mãe

A família de Marielle e Anielle Franco - Acervo Pessoal/Anielle Franco
A família de Marielle e Anielle Franco Imagem: Acervo Pessoal/Anielle Franco
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

03/05/2021 06h00

Na semana passada batemos o marco de 400 mil vidas perdidas no Brasil por covid-19. Não tem sido um ano fácil pra nenhuma pessoa nesse país, mas principalmente para os mais vulneráveis. Ver esses números e não pensar em quantas mães, filhos, pais, tios, irmãos, perderam algum ente querido, é impossível. Nossas dores têm sido muitas. Nossas perdas são irreparáveis. Pensar em quantas famílias foram destruídas pela pandemia e o quanto as datas comemorativas, que, na minha família, sempre fazemos questão de lembrar, serão diferentes esse ano com uma sensação de vazio e tristeza.

No próximo domingo será dia das mães, esse será meu primeiro dia das mães com minhas duas filhas e o quarto sem a Marielle passando junto com nossa mãe. Para minha sobrinha, Luyara, será também mais um momento de dor. Por isso, hoje, decidi ceder o espaço da coluna para uma carta que Luyara escreveu para Marielle em um dos dias das mães desses mais de três anos de ausência.

A semana começa e a saudade aperta.

Maio foi quando ela anunciou e conversou conosco que seria candidata.

A campanha foi linda, cheia de afeto e limpa. Maio chega.

Mais um mês e um dia na selva de pedras.

Tenho medo de chegar a noite.

Hoje me deparei com mais uma foto nossa que me deu uma saudade enorme.

Tenho crises de choro. Tenho medo do futuro. Tenho lembranças que me aquecem.

Mas é isso. Mais um dia.

O medo às vezes me paralisa. Esse medo danado que continua a me invadir.

Queria poder voltar no tempo, mas a cada dia que passa eu perco as esperanças.

As pessoas são desumanas.

Acho que nunca entenderei o motivo pelo qual tiraram minha mãe.

Há pouco mais de três anos eu perdi minha mãe, e hoje tenho que lutar diariamente para que essa dor não me paralise.

Mãe, de onde quer que você esteja, olhe por mim.

Mais um dia das mães chegando e eu só queria você aqui.

Que nenhuma mãe perca mais seu filho e que nenhuma filha tenha que enterrar sua mãe. A ordem da vida não pode se inverter de forma tão abrupta, ao ponto do segundo domingo de maio passar a ser motivo de choro e não mais de celebrações. O que eu desejo hoje, para Luyara, e para todas as pessoas do mundo, são dias mais amenos, vacina, saúde, amor, paz, datas comemorativas felizes com mesa farta e certeza de dias melhores.

Mães são seres que deveriam ser eternizados. Um feliz dia das mães para todas aquelas mulheres que lutam para sobreviver e darem o melhor aos seus filhos sempre.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL