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Como escolas se preparam para evitar desfalques por covid no Carnaval

Portela prepara seus reservas para eventuais surpresas para desfile - Xinhua/Li Ming
Portela prepara seus reservas para eventuais surpresas para desfile Imagem: Xinhua/Li Ming

Valmir Moratelli

Colaboração para UOL, no Rio

10/01/2022 04h00

Enquanto as autoridades públicas e as de saúde tentam chegar num acordo sobre a viabilidade dos desfiles de escolas de samba no Carnaval, no fim de fevereiro, os dirigentes das agremiações e carnavalescos estão quebrando a cabeça para montar estratégias que resolvam um imbróglio à vista.

O que fazer se um componente de um quesito importante se ausentar no dia do desfile por motivos de saúde?

A comissão de frente, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, destaques centrais de carros alegóricos e até os ritmistas que ensaiam o ano inteiro estão sob rígida vigilância das escolas, para que se evite desfalques que comprometam a avaliação dos jurados. Já é de praxe que alguns quesitos tenham componentes de standby em caso de lesão pré-Carnaval. Com a pandemia de covid-19, esses cuidados foram redobrados.

Fabio Pavão, vice-presidente da Portela, é taxativo quanto a esse cenário.

A possibilidade de substituição é concreta todo ano. Ninguém é insubstituível numa escola de samba. O fato é que agora a realidade está fazendo a gente pensar mais do que nunca nisso. Está dentro do nosso planejamento

Entre as comissões de frente, já é de praxe ter um ou dois componentes reservas. Neste ano, a maioria das escolas trabalha com cinco componentes para possíveis substituições. Até o carro de som, que traz o intérprete principal, está sendo pensado para eventualidades. Na Estação Primeira de Mangueira, o carnavalesco Leandro Vieira diz que o assunto deve ser melhor debatido.

"Será que é justo uma escola ser penalizada, por exemplo, pela ausência de um destaque que está incluído no roteiro do desfile, simplesmente porque ele testou positivo para covid na véspera? Essa realidade tem que ser refletida por quem organiza o julgamento. É a realidade do Carnaval de 2022", diz.

Check list

Escola que indiretamente vai abordar a questão da pandemia, a São Clemente tem como enredo o humorista Paulo Gustavo, que faleceu vítima de covid-19 em maio de 2021. Para Thiago Almeida, diretor de Carnaval da escola da Zona Sul do Rio, a logística do desfile de 2022 está sendo mais complexa.

"Temos um cadastro de todos que desfilam em posições de destaque, com nome, telefone e endereço do ateliê que está com cada fantasia. Se alguém adoecer de repente, a gente corre até lá, pega a fantasia e entrega a outra pessoa para não ter desfalques que nos comprometam", explica.

No dia a gente faz um check list geral para ver se está todo mundo bem

Algumas escolas já ensaiam os dois casais de mestre-sala e porta-bandeira com uma só coreografia, para facilitar possíveis substituições de última hora. Recordista de Carnavais, já são 33 anos de Sapucaí, a primeira porta-bandeira da Beija-Flor de Nilópolis Selminha Sorriso nem pensa na possibilidade de ser substituída. "Acabei de tomar a terceira dose da vacina, estou ensaiando a mil por hora e tomando todos os cuidados. Só que escola de samba é como um time de futebol, precisa ter os reservas pra estar sempre precavida", afirma.

Essa preocupação é devido ao julgamento que prevê punição a quem não segue uma série de normas pré-definidas pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). As alegorias, por exemplo, precisar estar com todos os destaques presentes e devidamente fantasiados. A comissão de frente tem de ter de dez a quinze componentes aparentes e o casal de mestre-sala e porta-bandeira é um quesito bastante aguardado na avenida, com o mesmo peso que uma bateria com cerca de 300 ritmistas.

Vacina sim

É exatamente na bateria que as medidas são acompanhadas com mais apreensão. Isso porque a responsabilidade não está em apenas um casal, mas em centenas de ritmistas que não têm substitutos de um dia para o outro - simplesmente porque precisam de exaustivos ensaios ao longo de meses.

Fabrício Machado, conhecido como mestre Fafá, da Grande Rio, mudou a postura nos ensaios desde que a pandemia voltou a ganhar força no país. "Em dezembro, o uso de máscara era opcional, agora voltou a ser obrigatório. Além disso, precisei cortar cinco ritmistas que optaram por não se vacinar".

Aqui é obrigatório apresentar o comprovante de vacinação

O mesmo ocorre na Mangueira. "No desfile da Mangueira não-vacinados não são bem vindos", afirma Leandro.

Diante dessa realidade pandêmica, Fafá já pensa na possibilidade de ter que desfilar de máscara, alternativa que está sendo estudada pelas escolas, caso se perpetue o alto índice de contaminação. "Pra gente, tocar de máscara é até tranquilo, podemos usar aquelas que são transparentes. O difícil é para o folião de ala, que precisa cantar alto. É algo que a Liesa precisa reavaliar para não penalizar as escolas", aponta. Fafá só não sabe o que faria caso precisasse se ausentar por motivo de saúde. "Estava conversando com o mestre Casagrande (da Unidos da Tijuca) sobre isso. Mestre de bateria não tem reserva".

A pleno vapor

Eduardo Paes - Divulgação / Prefeitura do Rio - Divulgação / Prefeitura do Rio
Imagem: Divulgação / Prefeitura do Rio

Na terça-feira, 4, o prefeito Eduardo Paes (PSD) suspendeu a realização de desfiles de blocos de rua na cidade, medida também adotada por outras capitais. E nesta sexta, 7, a Riotur orientou as escolas a não realizarem ensaios de rua, devido ao avanço da cepa ômicron na cidade.

"Nosso cronograma é para desfilar no fim do próximo mês. Esse aumento de contaminação pós-réveillon assusta, não queremos colocar nenhum trabalhador ou folião em risco. Mas só não desfilaremos se o número de casos for estrondoso", diz Gabriel Haddad, carnavalesco da Grande Rio.

Fizemos divisão de turnos, as equipes foram divididas entre manhã e noite no barracão. Eles trazem prato, copo e talheres de casa. Objetos pessoais são separados para evitar riscos

Os ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí seguem sem definição. A São Clemente suspendeu os eventos em sua quadra por quinze dias. Ainda assim, todo cuidado é pouco entre os foliões.

"Tive baixa de seis componentes na bateria essa semana, porque pegaram covid", conta mestre Fafá. "Mesmo com sintomas leves, eles me comunicaram. O pessoal do samba é muito consciente", defende. Leandro Vieira concorda que esse tem que ser o ritmo até fevereiro. "Enquanto o Brasil oficial nega o uso de máscaras e vacina, o do Carnaval defende a ciência".