Felicidade a qualquer custo?

A sensação de que precisamos ser (ou parecer!) felizes pode nos deixar mais tristes e custar caro

Sibele Oliveira

"E foram felizes para sempre". Imagine ter uma vida assim, como a anunciada nos finais dos filmes. Parece irreal? Mas é exatamente desse jeito que muita gente quer viver. Emendar conquistas, festas e viagens, colecionar sorrisos e elogios, manter-se sempre jovem, ter um corpo invejável, prestígio, dinheiro de sobra e ser amado por todos é o desejo de muitos. Sem nenhum dia difícil entre todas essas coisas boas.

Só que ninguém consegue trazer a perfeição da ficção para a realidade. E é aí que nasce o problema. Começamos uma maratona em busca da felicidade definitiva, eterna ou qualquer outro termo que possa definir esse paraíso. Uma corrida sem descanso para manter um estado de espírito sempre transbordando contentamento e bem-estar.

Vale tudo para alcançar essa felicidade idealizada e supervalorizada nos dias de hoje. Desde conseguir um cargo alto numa empresa concorrida, marcar presença em eventos importantes, ler livros de autoajuda ou comprar os produtos mais caros das vitrines. Ela é tão cobiçada porque funciona como uma chave para entrar no mundo dos vencedores, dos que realmente contam.

Em outras palavras, quem não faz parte do rol dos felizes corre o risco de se sentir à parte desse mundo. O que resta a essas pessoas é ficar num compasso de espera para que a felicidade chegue e não vá mais embora. Mas essa espera tem consequências para a saúde emocional.

Perfeição tem preço

Quem não sonha em ser feliz como nos comerciais de margarina? A publicidade afirma que isso é possível. Basta comprar os produtos e serviços lançados diariamente, sob medida para cada necessidade que temos e as que ainda nem sabemos ter. Acreditamos nessas promessas e esperamos que elas nos livrem de sofrimentos, tédio e carências emocionais. Ou seja, que completem o que falta em nossas vidas.

Aí cabe aquela pergunta que muita gente faz. A felicidade pode ser comprada com dinheiro? "Somos impulsionados a consumir, mas ao mesmo tempo todos os aspectos das nossas vidas passam a ser moldados por essa lógica do consumo. Vivemos um tempo que a angústia e a dor convivem lado a lado com esse desejo de felicidade plena que o gozo das mercadorias oferece", diz Jonnefer Barbosa, professor de filosofia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Vem daí a ideia de que querer é poder. Mas na prática, não funciona assim. A verdade é que nem todos podem ser ricos, famosos, belos e bem-sucedidos. E mais cedo ou mais tarde, nos esbarramos em nossas limitações.

A vida é repleta dessas situações em que somos confrontados com as nossas próprias impotências. Sempre que a gente entende que não pode fazer alguma coisa, é o primeiro impulso para a autoconsciência Jonnefer Barbosa, professor de filosofia

Achar que o carro do ano, o celular que acabou de ser lançado, ou roupas e acessórios de grife têm o poder de nos aproximar da felicidade é uma ilusão. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. É comum essas aquisições virem acompanhadas de uma sensação de angústia e ansiedade. Para compensar o vazio que insiste em permanecer, tratamos de renovar nossos desejos de consumo.

Realidade paralela

Don't worry, be happy!
Good vibes!
Gratidão!
Namastê!

Todos os dias as redes sociais são inundadas por palavras e hashtags que mostram como a internet é um mundo perfeito, habitado por pessoas boas e felizes. Esse festival de pensamentos positivos até ganhou uma expressão da moda: positividade tóxica. É ela quem dita as regras de como devemos nos comportar no ambiente virtual. Mas além do vocabulário, é preciso comprovar a felicidade com fotos tiradas em lugares lindos e bem frequentados, exibindo sempre o melhor sorriso.

Em troca, esperamos curtidas e comentários que atestem que a felicidade que estamos mostrando é real. "Vivemos uma época em que as pessoas têm o poder de controlar como as outras vão julgá-las e acabam jogando esse jogo. O que é ruim porque a gente amadurece quando vai fundo nas emoções difíceis. Elas sinalizam coisas importantes", afirma Jocelaine Martins Silveira, professora de psicologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Muitas pessoas escolhem as redes sociais para expressar seus conteúdos emocionais mais importantes. Mas se não recebem as reações esperadas às postagens, elas têm a sensação de estarem falando ao vento e ficam emocionalmente abaladas. Sentem como se estivessem sendo privadas do efeito de uma droga psíquica poderosa. Então a felicidade construída com tanto trabalho começa a ruir.

Enquanto estamos tentando fazer com que a nossa grama pareça mais verde que a dos nossos vizinhos, nos esquecemos que mais uma vez estamos imersos no jogo do consumo. "As redes sociais são formatadas num modelo que é de capital humano. Cada pessoa ali se coloca como uma marca, uma mercadoria. É um lugar onde a todo momento somos bombardeados pelas mais diversas formas de sugestão no sentido de aliciar nossos afetos", explica Barbosa.

Desespero para ser feliz

Sabe aqueles momentos mágicos em que a gente se sente especial, o mundo muda e parece que vai durar para sempre? O que pensamos ser felicidade pode não passar de euforia. "É uma sensação de bem-estar exagerada que pode levar a excessos e inadequação em alguns casos. Já a felicidade é um sentimento mais compatível com a serenidade", diferencia Fernando Fernandes, psiquiatra e pesquisador do programa de Transtornos do Humor do Ipq do HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Por ser momentânea, a euforia passa e acaba deixando um buraco, que costuma ser preenchido com frustração e infelicidade. Fica um gosto de quero mais, a expectativa de que a vida volte a ter cores mais vivas. Nesse sentido, a busca por uma felicidade duradoura pode beirar o desespero.

No livro "A Felicidade, desesperadamente", o filósofo francês André Comte-Sponville diz que se não somos felizes, nem sempre é porque tudo vai mal ou mais ou menos. Mas porque nos falta sabedoria, que é saber viver num sentido mais profundo. O autor aponta para a direção de ter felicidade com lucidez. Ele fala que o desespero para ser feliz não é o cúmulo da tristeza, mas surge quando não esperamos mais nada porque já temos tudo. E o presente já nos basta ou sacia.

O filósofo lembra que a felicidade é um movimento, um equilíbrio instável, uma vitória frágil a ser sempre defendida, continuada ou recomeçada. E diz que não devemos entrar em desespero por ela. "Trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais. Enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e amar um pouco mais".

E quando a felicidade não chega?

Quem nunca ouviu uma dessas frases quando não estava bem?

"Você precisa reagir"
"Levante a cabeça e dê a volta por cima"
"Não é para tanto"
"Pare com essa vitimização"
"Isso é mimimi!"

Ser feliz o tempo todo é praticamente uma obrigação. E quem não se sente assim pode ser visto como fraco, desprovido de coragem e sem força de vontade. "O humor normal tem oscilações diante das ocorrências da vida. Ter uma satisfação consistente e regular é possível, já felicidade o tempo todo não faz muito sentido", pontua Fernandes.

Todos nós queremos ser felizes. O erro é querer se encaixar no que outros entendem por felicidade. Nessa tentativa, podemos desenvolver insegurança, angústia, baixa autoestima, melancolia, ansiedade e depressão. Nos casos mais graves, até pensamentos suicidas podem surgir como alternativa para eliminar o sofrimento. O pior é que quando mostramos que não temos problemas, aí que não recebemos o apoio, amor e compreensão que tanto desejamos.

Tentar escapar das emoções negativas que fazem parte da vida pode prolongar as dores que inevitavelmente acontecem. "A desvantagem de fugir do que é irremediável é perpetuar uma situação aversiva. Só descrevendo para si mesmo essa situação de maneira honesta a pessoa vai estar em boas condições de mudá-la", observa Silveira. Ou aceitar quando a mudança não é possível.

Quem não se permite expressar o que sente de verdade pode achar mais confortável se isolar do contato com outras pessoas. Mas essa solidão autoimposta pode ser perigosa em alguns momentos. "Existem lutas e lutas. Quando há uma apatia referente a tudo, uma reatividade nula, no caso de um luto, por exemplo, é uma preocupação", ressalta Michelle Nigri Levitan, professora de psicologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Depende da visão de cada um

Para o antropólogo americano Marshall Sahlins, professor da Universidade de Chicago (Estados Unidos), alguém que define a vida como a busca de felicidade só pode ser um infeliz crônico.

Mas o que é ser feliz? Encontrar a resposta para essa pergunta não é uma tarefa fácil, já que não existe um conceito universal. Nem é possível comparar o que culturas distintas pensam a respeito. Aqui no Ocidente, por exemplo, importamos a noção de felicidade dos Estados Unidos, em que ela está ligada ao consumo, à relação com o dinheiro, ao prestígio e o culto ao corpo. É claro que há diferenças entre os países ocidentais nesse quesito.

Antes de exportar essa noção de felicidade, é preciso tentar contextualizar a sociabilidade da cultura. Que tipo de religião, de família, de diversões, de ritos, de festas o povo tem Marcos Lanna, professor de antropologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)

Já em países orientais, como o Japão, a felicidade está no "dar". Os japoneses estão mais preocupados em atender as expectativas de quem está ao redor do que as próprias. Caçar um animal ou pescar um peixe e dar de presente para outra pessoa, fazer um trabalho ou uma cerimônia, não se exceder nas palavras ou em atividades do dia a dia, como o sexo, é o que os faz felizes. Ou seja, seguir uma "etiqueta" que ajude a organizar a vida.

Essa ideologia organizadora do real, comum às culturas "zen", também é encontrada em sociedades formadas por caçadores e coletores da Melanésia (na Oceania), da Austrália, da África e da América do Sul. Ao contrário do que acontece por aqui, elas não vivem em prol de tantos desejos. "A nossa sociedade é que separa felicidade de infelicidade, interesse de generosidade. Enquanto que no zen-budismo também há uma busca, mas não exatamente pela felicidade", conclui o antropólogo.

A importância de acolher o negativo

A ideia de felicidade definitiva cai por terra quando nos lembramos de que somos mortais. E uma felicidade ligada à finitude nunca é completa, analisa Barbosa. Ele frisa que a vida é feita de momentos felizes e que a pressão de experimentarmos essa sensação o tempo todo serve apenas para nos colocar num circuito de angústia infinito. Por esse e outros motivos, varrer as emoções negativas para debaixo do tapete é algo que jamais devemos fazer.

Por mais paradoxal que pareça, aceitar que na vida nem tudo são flores é importante para ficar bem. "Não que a gente não deva querer e almejar o bem-estar. Mas ele inclui vivenciar com profundidade as angústias, as tristezas, a dor de uma perda", salienta Silveira. Guardar tudo ou tratar com superficialidade o que se passa dentro da gente só embaça a porta de saída de um sofrimento.

Banalizamos as emoções difíceis por medo de nos sentirmos julgados ou inferiorizados, quando o melhor a fazer pela nossa saúde psíquica é dar nome ao que estamos sentindo e refletir sobre como as coisas aconteceram até chegar naquele ponto. "Assim ficamos muito mais perto de achar uma maneira saudável de lidar com uma pessoa ou uma situação", acrescenta Silveira. Contar os nossos sentimentos para uma pessoa próxima e confiável também ajuda nesse processo.

Para mudar essa tendência moderna de calar emoções negativas, muitas escolas têm estimulado seus alunos a falar sobre questões internas, de modo que aprendam a ser resilientes e emocionalmente inteligentes. O mesmo acontece em empresas que convidam os colaboradores a expressar o que estão sentindo, sem que por isso sejam considerados maus funcionários. "Temos que tomar cuidado com essa banalização de sentimentos negativos. Hoje em dia há uma tentativa de suprimir as manifestações pessoais de todos nós", avalia Levitan.

Como lidar com as imperfeições da vida?

No livro "A Hora da estrela", da escritora Clarice Lispector, em um momento da história a personagem Macabéa diz: "minha alegria também vem de minha mais profunda tristeza e que tristeza era uma alegria falhada". A vida é assim. Não dá para separar experiências emocionais positivas das consideradas negativas com tamanha precisão. Também não há uma fórmula pronta de felicidade ou um GPS que mostre sua localização, até porque ela não é visível ou palpável.

O que existe são palpites. "Os maiores estudos empíricos a respeito da felicidade indicam que ela está relacionada à qualidade dos relacionamentos que estabelecemos ao longo da vida. Dessa forma, ela estaria nos outros. Não em nós mesmos", sugere Fernandes. Independentemente de qual seja o caminho que leve a ela, o primeiro passo é deixarmos de controlar o nosso estado interno e passar por cima do que consideramos ruim. Essa é a melhor forma de não potencializar esses sentimentos nem ficar preso a eles.

Martin Seligman, psicólogo norte-americano e autor do livro "Felicidade autêntica - Usando a psicologia positiva para a realização permanente", fala que a relação entre emoção negativa e positiva não é de total oposição. "Ao contrário da crença popular, muito sofrimento não impede a alegria. Muitas e fortes evidências negam uma relação de reciprocidade entre emoções positivas e negativas". Somente quem acumula um excesso de sentimentos negativos pode ter os positivos abaixo da média. Ainda assim, não está fadado a uma vida sem alegria.

Até mesmo as pessoas emocionalmente fortes sentem um baque diante de certos acontecimentos. Mas quando não negam o que estão sentindo, conseguem superá-los com mais facilidade. "Quando elas reconhecem que estão tristes ou fragilizadas pela situação, aquilo acaba sendo um combustível para se reerguerem, melhorarem e estarem mais fortes numa próxima empreitada", garante Levitan. Um bom exercício para isso é tentar não ser tão duro consigo, como não seria com um amigo. E ver as imperfeições com olhos mais generosos.

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