Vai ter gorda de biquíni

Vítima de gordofobia, ela processou o agressor, ganhou e ainda virou modelo plus size

Helaine Martins Colaboração para Universa
André Rodrigues/UOL

Em 2015, na madrugada de 16 de janeiro, a professora Thaís Oliveira, 25, do Rio de Janeiro (RJ), acordou com a notificação de uma mensagem pelo celular. Era uma amiga que a alertava sobre o compartilhamento indevido de uma foto sua no Facebook e que já contava com milhares de comentários. A maioria repleta de ofensas. O motivo: Thaís é uma mulher gorda e posava de biquíni.

"Eu havia postado a foto logo depois de sair da praia, ao lado de um amigo, com a legenda 'sou gorda e nesse verão vou usar biquíni, sim, e, se reclamar, vai ter topless'. Como o meu perfil é público, meu amigo curtiu a imagem, que foi parar em sua timeline. Um rapaz que nem me conhecia viu a foto, se incomodou com o meu corpo e resolveu compartilhá-la me ofendendo pelo fato de ser gorda. Na legenda, ele dizia: 'Não queria postar, mas tive tipo uma obrigação. Meninas, não façam isso, por favor!'. Como se eu fosse uma vergonha."

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Thaís, que mede 1,70 de altura e veste manequim 56, cresceu em uma família que sempre a ensinou a lidar bem com o próprio corpo. E, embora tenha crescido enxergando sua beleza para além da forma, não escapou das inseguranças próprias da adolescência. "Quando eu era mais nova vivia perguntando às minhas amigas se meu corpo era legal ou se os meninos iriam gostar de ter uma gorda ao lado deles. A resposta sempre era negativa e, por alguns anos, eu me vi presa em um padrão que hoje para mim é insignificante. Tenho orgulho das minhas curvas e de mim", diz. "Chega uma época da sua vida em que você não faz mais questão da opinião dos outros."

Foi essa autoconfiança que fez a carioca não ter o amor-próprio abalado diante da chuva de comentários gordofóbicos e agressivos em sua foto. Imediatamente, resolveu reagir. Registrou um boletim de ocorrência contra o homem que reproduziu sua foto por injúria e danos morais. "Decidi processá-lo para que o caso possa servir de exemplo. Eu sou bem resolvida com meu peso. Mas e se eu não fosse? Isso poderia ter minado minha autoestima." Mas Thaís queria mais. Ela precisava tornar o caso público e organizou um protesto.

"Se alguém se incomodou por ter visto uma gordinha de biquíni, então ia ter que ver dez", conta. "Pela internet, mobilizei as amigas e realizamos um ensaio fotográfico contra a gordofobia na Praia Vermelha, na Urca, zona sul do Rio. Reuni mais de dez mulheres, todas de biquíni e muito orgulhosas de suas curvas, que pediram o silêncio dos preconceituosos. Deu certo. Chamamos a atenção de muita gente, quando explicávamos o motivo do ensaio, todos apoiavam e geramos um debate", diz. Do ensaio, surgiu o movimento "Gorda de biquíni, pode!", que todo mês ocupa uma praia com um protesto bem-humorado e, além do Rio de Janeiro, já ganhou edições em Salvador (BA), Santos (SP) e Florianópolis (SC).

Toda a repercussão fez Thaís se tornar referência para outras mulheres e chamou a atenção de profissionais da moda plus size. A professora passou a ser chamada para participar de editoriais, desfiles e concursos de beleza. Acabou se tornando modelo plus size e já coleciona títulos. "Os concursos são minha melhor resposta às pessoas preconceituosas porque mostro que, independentemente do tamanho do meu manequim, sou bonita e posso ser eu mesma, sem ceder aos padrões. Em um ano, já tinha nove títulos, incluindo o de A Mais Bela Gordinha do Brasil. E me sinto honrada quando vejo outras mulheres gordas se sentindo representadas por mim."

Thaís também se diz satisfeita com o resultado do processo contra o seu agressor. Em 2018, quase três anos após o compartilhamento da foto e dos comentários pejorativos, o homem foi condenado a pagar cestas básicas a uma organização de assistência social. Apesar de ser uma pena branda, ela acredita que pode gerar mudanças. "Para quem é gordo, todo dia é dia de resistência. O preconceito está na roleta do ônibus, quando não consigo passar nela e tenho que entrar pela porta de trás. Está na dificuldade de conseguir trabalho por causa do peso. Está nas piadas que se ouve na escola. É um absurdo!", diz. "Então, a condenação mostra para a sociedade que a gordofobia é um problema real. Para chegar aqui precisei passar por coisas horríveis, apenas por usar um biquíni. Mas eu gosto do meu corpo assim. É ele que me levanta todas as manhãs, são minhas pernas gordas que me levam aonde eu quero, meu corpo é meu orgulho."

André Rodrigues/UOL

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