Enquanto você dorme

Babi Cruz, mulher do cantor Arlindo Cruz, narra como sua vida se transformou após AVC do marido há cinco anos

Luiza Souto De Universa

No dia 17 de março de 2017, encontrei o Arlindo inconsciente no chão do banheiro da nossa casa, na Barra da Tijuca. Ele teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral) enquanto tomava banho. Saí na ambulância junto com ele e só voltei oito meses depois. Foram meus filhos que levaram meus pertences para o hospital, como roupa e documentos. E lá no hospital me cederam um quarto, no mesmo andar do CTI (Centro de Terapia Intensiva) onde ele foi internado.

O Arlindo ficou 18 meses em coma. Era tudo muito imprevisível. Os médicos me chamavam e diziam: "Babi, reúne seus filhos porque ele não passa de hoje, a infecção está generalizada". Além do AVC e da infecção, Arlindo teve embolia pulmonar, eu via sangue saindo pelo nariz e pela boca dele.

Durante esse tempo, comecei a definhar. Caíam placas de cabelo e minha cabeça ficou pelada, tive que cortar muito curtinho.

Voltamos para casa no início de julho de 2018, lembro que era Copa do Mundo. O Arlindo estava ainda muito inchado da medicação, já tinha passado por quatro cirurgias na cabeça. Mas, quando chegou no quintal de casa, reconheceu tudo imediatamente. Dei um beijo na boca dele e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Falei: 'Eu disse que você voltaria para casa'.

Nesse dia, eu tinha pedido para servirem bobó de camarão, e o Arlindo, assim que sentiu o cheiro, abriu a boca e comeu tudo. Fazia um ano que ele não sentia o sabor de nada, por causa da sonda que usava no hospital.

"De dor eu entendo"

Houve alguns momentos em que pensei: 'Ele está sofrendo muito e, de repente, é melhor descansar'. Mas me lembrava do que minha irmã me ensinou. Ela operou a cabeça 19 vezes por causa de um aneurisma, e hoje ela é sã, fala e se movimenta com dificuldade, mas na primeira vez que operou, só conseguia mexer os olhos.

Costumo dizer que de dor entendo um pouco. Minha mãe foi vítima de erro médico após fazer cateterismo e morreu. Meu irmão morreu aos 40 anos engasgado. Ele broncoaspirou, e eu que segurei o respirador na ambulância.

Arlindinho, nosso filho mais velho, nasceu prematuro. Descobri que estava grávida quando estava completando três meses, e ele nasceu de seis meses, com 28 centímetros.

"Gozamos juntos"

Desde o AVC do Arlindo, eu ainda não tinha me olhado no espelho, mas agora estou me redescobrindo. Fazia cinco anos e meio que meus desejos estavam adormecidos por causa do choque que tive com tudo o que aconteceu.

Eu tenho certeza de que a gente faz amor por telepatia. Em um aniversário meu, disse a ele que estava com saudade de muitas coisas que fazíamos, inclusive sexuais, e quando percebi, tivemos prazer juntos. Falei: 'Pai, a gente gozou junto'. Isso foi antes da última cirurgia, em 2019. Depois, ele não voltou tanto, fica mais no mundo dele.

Se eu estivesse no lugar do Arlindo, ia querer estar viva. Seguimos uma filosofia que diz que o melhor da vida é viver, saber quem te ama e te protege. Nós criamos dois bons filhos para o mundo, Arlindinho, 30 anos, e Flora, 18. Isso é felicidade.

"Tô maluca, apaixonada"

Conheci o Arlindo Cruz em 1986 fazendo uma participação como porta-bandeira da Mocidade Independente de Padre Miguel, no palco do Teatro Asa Branca, no Rio de Janeiro. Eu tinha 15 anos, e ele, 26. Demos o primeiro beijo e logo depois ele saiu em turnê. Ficava me ligando interurbano no meio da madrugada. Perdi a virgindade com ele.

Lembro um dia em que o Castor de Andrade [patrono da escola] estava sentado na quadra da Mocidade e, durante um show do Fundo de Quintal [grupo do qual Arlindo Cruz fez parte até 1993], eu falei que tinha arrumado um namorado. Apontei para o palco. Ele achou que era alguém mais jovem. Quando disse que era o Arlindo, falou: 'Tu tá maluca?'. E eu: 'Tô maluca, apaixonada. Aquele homem tem o beijo da minha vida. Ele chupou minha boca e levou minha alma junto'.

Depois que nos conhecemos, eu fiz backing vocal no Fundo de Quintal, produção de capa, toda produção fonográfica para colocar o disco do grupo na rua. Cantei 15 vezes no coro para dobrar a voz, porque não tínhamos dinheiro para contratar pessoas. Era uma 'mulher que caía dentro'. A gente ia de acordo com as necessidades da situação, até porque temos essa essência própria do samba.

Ciúme doentio

O Arlindo tinha muito ciúme de mim. Era doentio. Ele vem de uma linhagem de sambistas machistas. É cultural. E ele perguntava: 'Quantas Babis precisam sucumbir para um Arlindo ser feliz?'. Na época, eu achava que não me incomodava, que fazia por opção porque acreditava que ninguém faria melhor por ele.

Mas amo muito esse homem. Tinha uma nuvem chamada amor que me fazia feliz. Penso, sim, que houve uma anulação, que abdiquei de muita coisa da minha vida. Mas sempre fiz questão de manter a inspiração dentro do Arlindo. No lugar de mandar para a 'puta que o pariu', eu gritava: 'Vai compor!'.

Quando o conheci, ele tinha feito 67 sambas, e hoje chegou ao número mil. No Carnaval do ano que vem, ele será tema do enredo da Império Serrano. Vivi vendo essas poesias nascerem. E não tem coisa melhor para te conduzir do que viver dentro da poesia.

"Dormia no carro"

A saúde do Arlindo nos levou a um momento de muita dificuldade. Ao mesmo tempo em que ele teve o AVC, a Flora, nossa filha, que tinha 14 anos na época, engravidou do namorado. Quando fiquei morando no hospital, ela ficou sozinha em uma cobertura no Recreio [dos Bandeirantes] e o Arlindinho estava na estrada, trabalhando.

A Flora estava passando por um momento de turbulência, de carência, com o pai em coma. Por mais que eu tenha dado orientação a ela, mostrado anticoncepcional, camisinha, aconteceu.

Fora toda essa situação, três músicos entraram com processos trabalhistas contra mim. Perdi mais de R$ 600 mil, minhas contas foram bloqueadas pelo Ministério do Trabalho, e eu precisava pagar R$ 14 mil de plano de saúde do Arlindo todo mês.

Precisamos vender a última casa para pagar as dívidas e, na pandemia, como o Arlindo tinha que permanecer isolado, ele ficou com a equipe médica no nosso apartamento, também no Recreio.

Por um ano, eu, minha filha e meu neto de três anos dormimos em um Fiat Uno, para não ficar entrando e saindo do apartamento.

Muitos amigos e a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) nos ajudaram. Enquanto tinha um dinheirinho, me hospedava em flats simples. Depois, aluguei uma casa de fundos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, por R$ 300. Tinha cheiro de mofo e, às vezes, era melhor dormir no carro mesmo. Por mais difícil que fosse, a gente conseguia rir de tudo isso.

Lutamos a vida toda para construir nosso patrimônio e tivemos que nos desfazer dele para pagar dívidas. Vendemos casa, carro e pegamos empréstimos. Foi uma porrada. Tive depressão profunda, de não querer reagir e deixar o pior acontecer. Hoje nos sustentamos com os shows do Arlindinho e com ajuda de amigos.

Orixás e Tranca Rua

Não acredito em milagre. Acredito no Arlindo ter uma melhor qualidade de vida. Antes, ele conseguia segurar o copo, comia biscoito, cachorro quente. Depois da última cirurgia, regrediu.

Hoje, temos que adivinhar se ele está com fome, com sede. A gente vai no instinto. Tem que conhecer, tocar, observar se tem expressão de dor.

Os médicos não dão nenhuma expectativa de vida.

Eu me fortaleço com os orixás, e cada canto da minha casa é dedicado a eles. Além de ser iniciada no candomblé, minha mãe era ialorixá de muita luz, sensibilidade e espiritualidade, capaz de adivinhar coisas profundas. E tenho meu pai Oxumarê, que é meu orixá de transformação, e o Tranca Rua das Almas, que é um ancestral muito íntimo. Tem horas que não sei de onde vem tanta força, então penso que pode vir da espiritualidade.

Mas quero ser feliz. E felicidade é estado de espírito. Curto a felicidade que tenho, não tem bula nem manual. Sou movida por um sentimento puro e sólido, o amor. E ele tem que falar mais alto do que tudo.

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